Turistas voltam da Chapada com leishmaniose e alertam autoridades

De janeiro de 2020 a 8 de dezembro de 2021, o Hospital Universitário de Brasília (HUB) fez mais de mil atendimentos da doença

atualizado 13/12/2021 17:31

Chapada do veadeirosGiovanna Bembom/Metrópoles

Moradores do Distrito Federal relatam ter tido leishmaniose após viajarem para a região da Chapada dos Veadeiros e outras áreas de Goiás. Dados de atendimento do Hospital Universitário de Brasília (HUB) (foto em destaque), considerado um centro especializado contra a doença, que é uma zoonose, sugerem aumento qualitativo de casos em pessoas que circularam por essa região. O centro de atendimento à saúde, no entanto, afirma não ter informação suficiente para caracterizar um surto.

De janeiro de 2020 a 8 de dezembro de 2021, o hospital universitário realizou mais de mil atendimentos em decorrência da doença. O tratamento da leishmaniose é realizado com antiparasitário aplicado na veia todos os dias por quase um mês. Segundo o HUB, o aumento de casos humanos está relacionado ao crescimento do contato com os vetores, seja pelo desmatamento para consolidação das áreas rurais de produção agrícola, seja pelo crescimento de cidades.

Um fator importante também seria a exposição de pessoas às áreas de matas pelo turismo ecológico, como é característica da Chapada dos Veadeiros.

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A consultora administrativa Renata*, 33 anos, e o marido viajaram para a Chapada dos Veadeiros em setembro deste ano. O casal, que mora no Cruzeiro, optou por um camping a fim de evitar aglomerações em pousadas. Depois de duas semanas da viagem, já em Brasília, o homem percebeu uma ferida que se espalhava pelo corpo. Eles foram a vários hospitais até que veio a hipótese de leishmaniose.

“Nós ficamos peregrinando por mais de um mês para descobrir o que era, porque todo médico que a gente ia não conseguia identificar o que o meu marido tinha”, relembra Renata. Uma biópsia confirmou a doença e, então, o casal procurou tratamento no HUB.

“A gente viajaria dia 14 agora, de férias. Não vamos mais, porque temos de fazer esse tratamento. Ele tem de tomar medicação por mais de 20 dias direto”, lamenta a consultora administrativa. Segundo a moradora do Cruzeiro, o remédio usado no tratamento é forte e provocou dores de cabeça e enjoos ao marido.

Casos vindos de Goiás

De acordo com dados da Secretaria de Saúde do DF, que contabilizou os casos ocorridos até setembro de 2021, Goiás é considerado o principal estado de origem de leishmaniose nos hospitais do DF. Neste ano, a unidade federativa seria o provável local de infecção para 20 ocorrências, enquanto o Distrito Federal, quatro. Apesar disso, os números não indicam surto. Até setembro foram registrados apenas 53 ocorrências no Planalto Central.

Segundo Renata, a quantidade de pacientes que são atendidos todas as quartas-feiras no HUB a deixou chocada. “A partir de 13h, é lotado de gente com leishmaniose. Você fica ouvindo alguns casos de pessoas com a doença. É impressionante”, diz a consultora.

O crescimento de casos de leishmaniose ocorre geralmente pelo aumento do aquecimento global, crescimento populacional desordenado e desmatamento. Sendo assim, a prevenção da doença, segundo a secretaria, pode ser feita por meio de medidas individuais de proteção contra o mosquito transmissor e ações de preservação do meio ambiente e controle do crescimento urbano desordenado.

A pasta recomenda ainda usar roupas compridas, aplicar repelentes em áreas de pele exposta, dormir em casas protegidas com telas e mosquiteiros. É indicado também que os residentes do DF não fiquem desprotegidos nas atividades em matas e beira de rios, especialmente à noite.

Outro caso

A funcionária pública Luana* também procurou o HUB a fim de buscar atendimento para a leishmaniose. No caso dela, a filha é a paciente alvo das aplicações do antiparasitário. Recentemente, a menina também viajou para a Chapada dos Veadeiros.

“A minha filha ficou meio deprimida e meio cansada, mas agora ela já tá levando bem. Ela tem que tomar duas ampolas da medicação todos os dias.”

O HUB tem ambulatório de dermatologia com agenda específica para o atendimento de indivíduos com leishmaniose, recebendo pacientes do DF e do Entorno. “As pessoas com suspeita da doença devem apresentar encaminhamento médico e procurar o Ambulatório de Dermatologia do HUB às quartas-feiras à tarde, quando são disponibilizadas cinco novas vagas”, informa a instituição.

O outro lado

A Prefeitura de Alto Paraíso (GO) foi procurada com o objetivo de saber se existe algum alerta na região para o aumento no número de casos de leishmaniose e o que tem sido feito para evitar a propagação da doença. Às 15h desta sexta-feira, aproximadamente 13 horas após a publicação desta reportagem, o órgão se manifestou, fornecendo os dados, sem especificar se há algum trabalho em curso para evitar a propagação da doença. “No ano de 2021 foram notificados 13 casos na cidade, redução importante na incidência em relação aos anos de e 2020 (23 casos) e 2019(40 casos)”, disse a prefeitura, em nota.

Entenda os perigos da leishmaniose

Werciley Júnior, infectologista do Hospital Santa Lúcia, explica que a leishmaniose pode se desenvolver de duas formas diferentes: a cutânea e a visceral. A primeira atinge basicamente a pele, gerando feridas pelo corpo, enquanto a segunda é mais grave e atinge os órgãos.

Segundo o especialista, todas as regiões perto do Distrito Federal apresentam índices consideráveis de leishmaniose. Ele ressalta se tratar de uma doença de notificação compulsória, ou seja, é possível fazer a rastreabilidade dos locais e regiões em que há a doença.

“A transmissão basicamente é causada pela picada de inseto. Normalmente do mosquito-palha. O mosquito transmite a Leishmania, que é um parasita que usa normalmente como reservatório e hospedeiro o cão”, explica o especialista.

Nos humanos, os principais sintomas da leishmaniose cutânea são coriza, dor ao engolir, rouquidão, tosse e lesões na pele, nariz, boca e garganta. Já o outro tipo pode causar febre de longa duração, aumento do fígado, perda de peso, fraqueza, redução da força muscular e anemia. Os riscos são a desnutrição e lesões esplênicas.

(*) Nomes fictícios usados a pedido dos personagens.

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