Irmã sobre morte de condutor de app: “Foi por maldade e diversão”

Namorada de Henrique Coelho, por sua vez, diz que a vítima não reagiria a assalto: "A gente sempre conversava sobre isso"

atualizado 14/10/2019 15:24

Facebook/Reprodução

Familiares de Henrique Fabiano Dias Coelho (foto em destaque), 25 anos, não se conformam com o assassinato brutal do motorista de aplicativo. Irmã da vítima, Anna Liz, 17, conta que ainda não acredita no que ocorreu. “Até agora penso que ele vai chegar a qualquer momento trazendo uma caixa de pizza, como sempre fazia. Mas não vai”, disse ao Metrópoles, na manhã desta segunda-feira (14/10/2019).

Muito abalada, a jovem ressaltou que o irmão tomava certas precauções durante os percursos que fazia pelo aplicativo. E só atendeu ao chamado porque o destino era uma igreja em Águas Claras, de onde os garotos acionaram o serviço. “Ele (Henrique) até recusava quando suspeitava que as corridas eram perigosas. Se fosse porta de balada ou festa, ele nem ia. Mas em uma igreja… A gente nem imaginava que isso poderia acontecer”, desabafa.

Segundo Anna, os suspeitos jogaram o celular de Henrique fora, provavelmente para que o aparelho não fosse rastreado. Destacou ainda que o irmão era muito cuidadoso e correto no trabalho. “Não tem por que esses meninos terem feito isso. Foi por pura maldade e diversão. Eles ficaram dando voltas no carro”, frisa. A família da vítima mora em Samambaia. A jovem conta que sempre assistia aos jogos do Flamengo com Henrique. Ele sempre a orientava nos estudos e quanto às amizades.

Namorada de Henrique, Juliana de Jesus Portugal, 23, também não se conforma. O casal se conheceu no trabalho. Da amizade surgiu o relacionamento de dois anos e meio. Ela garante que o rapaz era alegre, batalhador e não tinha inimigos. O motorista começou a fazer corridas por aplicativo para pagar as parcelas do HB20 levado no assalto. “O carro era o sonho dele e foi o que o matou”, lamentou a jovem.

Após saber da apreensão dos suspeitos, Juliana disse que sentiu um misto de alívio e decepção. “Recebi a primeira notícia da prisão deles com alívio. Mas, quando me ligaram de novo, dizendo que eram menores, meu coração apertou porque sabia que não daria em nada e eles sairiam impunes de tudo”, destaca.

Juliana lembra-se do relacionamento com emoção. E diz que, exatamente nesta segunda, faz um ano de uma viagem que os dois fizeram a Vitória (ES), onde trocaram aliança de compromisso. A namorada de Henrique reforça a versão da irmã da vítima de que se fosse na porta de festa, ele não aceitaria a corrida.

Adolescentes apreendidos

Seis adolescentes foram apreendidos pela Polícia Militar na noite de domingo (13/10/2019). Eles são suspeitos de roubar e matar um motorista de aplicativo. O grupo estava com o carro e outros pertences da vítima. À PM, os garotos deram detalhes do crime e disseram que estrangularam Henrique porque o rapaz reagiu ao assalto. O corpo do trabalhador foi encontrado no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA) por um taxista. Em 48 horas, dois condutores de app morreram no Distrito Federal.

Juliana comenta que, pelo perfil de Henrique, ele não reagiria. “A gente sempre conversava sobre isso. E ele dizia: ‘Se um dia roubarem o carro, espero que sumam com ele’, porque tinha seguro. Ele não se arriscaria dessa forma. Na hora que eles atacaram, ele pode talvez ter pegado o celular para avisar”, comentou.

Policiais faziam ronda no Guará quando avistaram um HB20 branco, na QE 30. Ao perceberem a aproximação da viatura, os suspeitos invadiram a calçada com o carro, mas foram alcançados e abordados. O menor que dirigia o automóvel ainda tentou sair correndo, mas foi capturado. Durante a fuga, ele jogou a chave do veículo na rua.

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Dentro do HB20, a PMDF encontrou simulacro de pistola, facão, faca, canivete, cinco celulares e R$ 103 em espécie, além da Carteira de Habilitação da vítima. Três menores confessaram a morte do motorista por estrangulamento. Disseram que estavam em uma festa de igreja em Águas Claras e resolveram pedir um carro.

Os suspeitos anunciaram o assalto logo que entraram no carro. Em seguida, um dos adolescentes enforcou o trabalhador até ele desmaiar. Depois, levaram Henrique para o banco de trás. Quando o rapaz tentou acordar, um deles confessou ter forçado o braço até a vítima desfalecer novamente.

Após dispensar o corpo da vítima no Setor de Transporte de Cargas, os garotos ficaram a noite toda andando no veículo. Na manhã de domingo, deixaram o automóvel em um beco no fim da rua na QE 44, do Guará, próximo à casa de um deles. Depois, por volta das 14h30, pegaram o HB20 novamente e o deixaram no estacionamento do Carrefour Sul.

Foram apreendidos ao retornarem ao Guará, onde ficaram dando voltas com o carro da vítima. Segundo relataram, Henrique teria reagido ao assalto ao perceber que um deles portava arma de brinquedo.

Na Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), foi confirmado que um dos adolescentes tinha mandado de busca e apreensão em aberto por ato infracional análogo ao crime de roubo. Os outros também colecionavam várias passagens por tráfico, assalto, furto e porte de arma de fogo. Os suspeitos têm entre 14 e 17 anos.

PMDF/Divulgação
Objetos apreendidos com os adolescentes

Henrique foi encontrado com sinais de esganadura e sem um sapato na madrugada de domingo. Um taxista o viu caído no Setor de Transportes de Cargas, nas proximidades da Cidade do Automóvel, segundo a PM. O Corpo de Bombeiros foi ao local e verificou que o trabalhador estava sem vida.

No bolso da vítima, os policiais encontraram nota fiscal de compra em um mercado da 402/403 Sul, constando horário de 20h02 de domingo, e uma sacola plástica do mesmo estabelecimento — ambos apreendidos pela perícia. As equipes também acharam uma aliança de prata no local, que provavelmente pertence a Henrique.

Reprodução/Facebook
Henrique Dias

 

A família da vítima chegou a registrar ocorrência por desaparecimento. Segundo relato de uma tia de Henrique à Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), o último contato do sobrinho aconteceu por volta da 0h10 de domingo, quando o rapaz informou à namorada que iria pegar um passageiro em um posto de combustível na entrada do Núcleo Bandeirante. O jovem trabalhava como terceirizado da Caixa Econômica Federal (CEF).

Outra vítima
A Polícia Civil investiga a morte de outra vítima. Tiego Cavalcante, 28, foi assassinado na Área de Desenvolvimento Econômico (ADE) de Samambaia na noite de sexta-feira (11/10/2019). Ele também atuava como motorista de aplicativo de transporte. Amigo de Tiego, o barbeiro Jonathan Gonçalves, 28, disse que o colega era “uma pessoa maravilhosa”. “Ajudava os outros e gostava muito de trabalhar”, destacou. Tiego trancou a faculdade de direito e se dedicava ao trabalho com os aplicativos e às artes marciais, treinando krav magá e jiu-jítsu.

Após dois homicídios em 48 horas, motoristas de aplicativo farão manifestação no começo da tarde desta segunda-feira (14/10/2019) para pedir mais segurança. O protesto está marcado para começar às 13h30. A concentração será no Taguaparque. De lá, os condutores, que já estão circulando com a palavra luto nos veículos, seguem para o Cemitério de Taguatinga, onde Henrique Coelho será enterrado.

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