PCDF investiga mortes por erros médicos no Hospital de Base

Além de nove casos de óbito desde 2018, as apurações envolvem supostas ocorrências de negligência. Ao menos 24 famílias cobram explicações

Myke Sena/ Especial para o MetropolesMyke Sena/ Especial para o Metropoles

atualizado 16/12/2019 10:21

A Polícia Civil investiga uma série de denúncias sobre supostos erros médicos e negligência de profissionais no Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF). Os inquéritos estão concentrados na delegacia de polícia da área central de Brasília, a 5ª DP.

O Metrópoles localizou 24 famílias que relatam as incidências desses crimes na unidade de saúde. Do total de casos, nove se referem a pacientes que morreram – seis em 2019 e três em 2018. Todos os depoimentos foram formalizados na PCDF.

Simone Leite (foto principal) mantém a última imagem do filho Paulo Victor Santana Leite da Silva, 21 anos. Ela e o marido estavam em um leito do Hospital de Base, em 8 de junho deste ano, acompanhando o estudante de direito quando presenciaram o jovem sofrer duas paradas cardíacas.

Durante a última emergência, o casal precisou ser retirado do quarto. A angústia deu lugar ao vazio quando, minutos depois, o médico do plantão informou que o rapaz não resistiu.

O drama da família, porém, teve início mesmo antes de o jovem dar entrada na unidade pública de saúde. Paulo Victor foi atropelado por um ônibus no dia de seu aniversário – 6 de junho.

Ele atravessava uma faixa de pedestres apagada na Estrada Parque Taguatinga (EPTG) em horário de pico. Com o trânsito parado, o universitário conseguiu atravessar a pista com facilidade. Quando chegava perto da parada, onde pegaria um coletivo para o Guará, foi atingido por um veículo, que vinha na faixa reversa da pista.

Após ser atingido, esperou 20 minutos por socorro médico. Chegou ao hospital às 20h e precisou ser entubado na sala vermelha. No curto período em que ficou internado na unidade de saúde, os pais afirmam terem presenciado indícios de falhas graves no atendimento a Paulo.

“Ele teve fratura exposta do fêmur e havia perdido muito sangue, coisa de mais de dois litros. Eu vi que ele estava anêmico, pedi uma transfusão imediata, mas os médicos desconversaram”, explicou Simone.

Aos pais, o corpo médico teria informado que Paulo Victor não havia lesionado a coluna e a cabeça e não apresentava sinais de hemorragia interna. “Eles nos tranquilizaram, disseram que os exames mostraram a costela quebrada, que havia feito um buraco pequeno no pulmão. Mas disseram que não era nada que tivéssemos que nos preocupar”, acrescentou Simone.

Parada cardíaca

Temendo pelo pior, o casal pediu para ficar e acompanhar o filho durante a noite. O pedido foi negado. “Ficamos até as 2h da manhã e fomos pra casa. Tentei voltar as 3h, mas negaram de novo. Só fomos voltar às 7h do dia seguinte [07/06/2019]”. Só quando os pais voltaram ao Base souberam que o jovem havia sofrido uma parada cardíaca de 33 minutos.

O caso ocorreu durante a troca de turnos e, por falta de enfermeiros e médicos, um bombeiro que estava no local precisou realizar a massagem cardíaca. Os batimentos de Paulo voltaram e, mesmo assim, o jovem não fez a cirurgia.

“Nesse tempo, ele só perdia mais sangue. Ficamos com medo de que tivesse outra parada e, por isso, questionamos a máquina que mostrava os batimentos. Mais uma vez, eles nos tranquilizaram, dizendo que a máquina apitaria, alertando quando o coração dele parasse”, acrescentou a mãe.

Quando os batimentos do jovem pararam, o equipamento não soou nenhum alarme. A mãe afirma que Paulo Victor ficou desacordado por cinco minutos, tempo em que conseguiu encontrar algum profissional de saúde disposto a examiná-lo.

“A enfermeira não acreditava, falava que a máquina estava com mau contato e eu tentando convencê-la. Depois de todo esse tempo, vi um médico no corredor e precisei gritar para que viesse ver meu filho. Foi quando ele viu que meu filho estava morrendo e mandou eu sair de lá”, contou Simone.

“Nada o trará de volta”

A cena que Simone e o marido viram no hospital não sai da memória do casal: “Vi o médico subindo em cima do meu filho, pegando o desfibrilador e fazendo massagem cardíaca. Logo depois, vieram nos contar que ele havia morrido e a causa teriam sido os traumas provocados na batida. Mas nós sabemos que a demora para reverterem o quadro e para fazerem a cirurgia foram fundamentais para que meu filho perdesse sangue e, consequentemente, morresse”.

Paulo Victor era o orgulho da família. Aos 17 anos, formou-se em eletrônica. Aos 21, cursava direito e havia acabado de abrir uma empresa. Em casa, os pais ainda guardam os equipamentos de trabalho do filho e mostram os certificados do jovem, que sonhava em virar advogado, mas teve a vida interrompida precocemente. “Essa investigação [da PCDF] não vai trazer meu filho de volta. Nada o trará de volta. Mas pode evitar que outras mães sofram como eu estou sofrendo”, disse Simone.

Com a perda do filho, a vida e a rotina da família nunca mais foram as mesmas. “Nunca fui para lá [Hospital de Base] achando que ele morreria. Pensava que seria um acidente, sem maiores traumas. Infelizmente estava errada. A gente chora na rua quando lembra dele. Estamos fazendo acompanhamento psiquiátrico, meu marido precisou ser afastado do trabalho com depressão. Tomamos remédio todos os dias”, finalizou.

 

Morte suspeita

Entre as várias denúncias realizadas na 5ª DP, uma chamou atenção dos investigadores. Registrada na unidade policial em março deste ano, a ocorrência narra a suspeita de familiares sobre a morte de um homem de 48 anos por traumatismo craniano.

Ocorre, no entanto, que o rapaz chegou ao Hospital de Base após apresentar infecção no cateter usado por ele para realizar hemodiálise. Na unidade, os médicos teriam observado um coágulo na cabeça da vítima, além da infecção.

Os familiares, contudo, afirmam não terem sido informados da causa do trauma. Parentes narram que a vítima não havia sofrido nenhum acidente, muito menos teria sido agredida na região da cabeça. Ao irmão do homem, os médicos não souberam informar como a lesão fora provocada. Para os familiares, o traumatismo teria ocorrido dentro da unidade pública de saúde.

Intestino perfurado

Ainda neste ano, a PCDF instaurou inquérito para investigar uma sucessão de supostos erros médicos cometidos durante cirurgias de uma paciente de 31 anos. Mailane Gonçalves afirma que procurou a unidade pública de saúde para a retirada do útero após descobrir um câncer. Entretanto, os procedimentos cirúrgicos não correram conforme o planejado e provocaram sequelas graves.

Mailane conta que os problemas tiveram início logo após o diagnóstico da doença. Sem plano de saúde, ela afirma ter recorrido ao sistema público para a retirada do tumor. O procedimento foi realizado ainda em janeiro, mas, uma semana depois de ter alta médica, ela precisou voltar ao HBDF por problemas no pós-operatório.

“Eu dei entrada com infecção grave no sangue e na urina. Precisei ser internada e fiz uma cistoscopia”, explica. O procedimento, no entanto, revelou que a situação era mais grave do que a paciente imaginava. “Disseram que eu havia lesionado os ureteres. Com isso, perdi o controle da urina e precisei usar fralda. A solução, segundo os médicos, seria reimplantá-los”, detalha.

Duas semanas após a infecção, Mailane conseguiu realizar o reimplante dos ureteres. A cirurgia, contudo, resultou em mais problemas para a paciente. “Antes de ter alta, eu tive uma outra infecção. Os médicos viram que as fezes estavam saindo pelo orifício da cirurgia. Foi quando descobriram que meu intestino havia sido perfurado”, revela Mailane.

Com o intestino perfurado, a paciente voltou ao centro cirúrgico, em fevereiro, onde colocou uma bolsa de colostomia. Desde então, nove meses depois, Mailane ainda aguarda pelo procedimento de reconstrução do órgão. “O hospital fala que não sou prioridade e, por isso, não me chamam para fazer a cirurgia. Esses dias que passei no hospital foram os piores da minha vida. Entrei para fazer uma cirurgia e tive que fazer quatro ao final”, lamenta.

“Eu não sei mais o que fazer. Tenho medo de que seja tarde demais e meu órgão pare de funcionar. Não trabalho mais, vivo presa em casa ou no hospital. Eu achei que fosse morrer, tinha dias em que achava que não iria suportar outra cirurgia”, finalizou.

A revolta dos familiares de Mailane com o que chamam de sucessivos erros médicos os levou a denunciar o caso à PCDF. O registro do boletim de ocorrência foi feito ainda em fevereiro. De lá para cá, a paciente se dividiu entre visitas a médicos e depoimentos às autoridades policiais.

O caso de Mailane só foi resolvido quando o Metrópoles provocou o Instituto de Gestão Estratégica da Saúde (Iges-DF). A reportagem encaminhou e-mail para a assessoria de imprensa às 18h32 do dia 27 de novembro, questionando a demora. Um dia depois, às 16h12, o Iges respondeu dizendo que havia marcado a consulta da paciente para o mesmo dia. Em 01/12/2019, a mulher, enfim, realizou a cirurgia. Ela, agora, se recupera em casa do procedimento.

JP Rodrigues/ Metrópoles
Emergência do Hospital de Base
Outros casos

Em abril deste ano, uma jovem de 27 anos morreu após sofrer uma parada cardiorrespiratória. O irmão gêmeo da paciente, que pediu para não ter o nome revelado, afirmou que antes do ataque, a estudante estava bem e conversando com a família. Segundo ele, o médico que elaborou o relatório da necrópsia citou que “houve uma parada cardiopulmonar não assistida”.

Segundo o termo, a mulher já estava havia algum tempo sem pulso, boca e extremidades roxas quando o socorro médico iniciou as manobras de reanimação. Em janeiro, um homem denunciou que houve uma possível negligência no atendimento recebido pela mãe, uma aposentada de 65 anos.

A idosa tinha neoplasia de laringe e procurou atendimento médico se queixando de dor no abdômen e nas costas. O médico, após ver o resultado dos exames, solicitou a internação da paciente, tendo em vista a piora do quadro respiratório. Ao chegar ao pronto-socorro, outro profissional liberou a mulher para voltar para casa.

Ao chegar em Santa Maria, perto de sua residência, a idosa pediu ajuda do filho para urinar, momento em que a vítima desmaiou, já sem sinais vitais. A família acredita que houve negligência por parte da equipe do hospital e denunciou os médicos, citando aos policiais, inclusive, o nome dos profissionais que fizeram o atendimento.

Outra suposta negligência envolvendo a morte de uma mulher de 64 anos ainda é investigada pela PCDF. Ela estava internada no Hospital de Base e faleceu em 4 de abril deste ano, após serem encontradas larvas que saíam de uma ferida provocada em razão da traqueostomia.

A filha da paciente, uma jovem de 20 anos, foi ouvida na delegacia. Ela contou aos investigadores que a mãe havia sido internada em 27 de janeiro deste ano, em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC).

No dia seguinte, devido a complicações respiratórias, a mulher foi entubada. Em 26 de março, foi submetida a uma traqueostomia, sendo colocada uma fita de sustentação em volta do pescoço da paciente. Segundo relatos da filha aos policiais, houve demora na troca da fita de sustentação. A proteção teria sido trocada apenas em duas oportunidades, em 29 de março e, depois, em 2 de abril.

Ainda conforme o depoimento da moça, na última ocasião em que o curativo foi trocado, havia muita sujeira e mau cheiro saindo da ferida provocada pela traqueostomia. Quando a enfermeira iniciou a troca da fita de sustentação, várias larvas começaram a rastejar pelo rosto da paciente. Dias dias depois, a mulher não resistiu.

Condenações

No começo deste mês, a 4ª Vara da Fazenda Pública do DF condenou o Distrito Federal a pagar R$ 15 mil de danos morais a uma paciente que fez um transplante de rim, no Hospital de Base de Brasília. A autora teve um cateter mantido no corpo sem o conhecimento dela e sem qualquer informação em prontuário médico. Cabe recurso da sentença.

A paciente contou que o transplante ocorreu em abril de 2010. Após seis meses da cirurgia, sentiu-se mal e teve que fazer tratamento à base de antibióticos. Disse também que, tendo em vista a piora do quadro, voltou ao hospital para fazer novos exames. Então, foi detectada a presença de um cateter em seu organismo, que deveria ter sido retirado 30 dias após o transplante.

Em janeiro, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) condenou o GDF por um erro médico cometido em abril de 2015, no Base. O procedimento equivocado resultou na perda da visão do olho esquerdo de uma paciente. Além de uma pensão mensal vitalícia no valor de um salário mínimo, o governo local terá de pagar à mulher uma indenização de R$ 20 mil por danos morais, além de R$ 10 mil por danos estéticos.

A paciente foi submetida a uma cirurgia de catarata na unidade e, após a intervenção, deixou a unidade sem enxergar nada e sentindo fortes dores, que perduraram por dias. Segundo o depoimento da autora, ao retornar 12 dias após a operação, foi submetida a exames e, ao final, recebeu a notícia de que houve um acidente durante a cirurgia e que o hospital tentaria corrigir, mas não garantiria a reversão.

Diante do ocorrido, a autora procurou outros médicos para realizar a cirurgia corretiva. O diagnóstico desses profissionais comprovou o erro médico, que culminou na perda total da visão do olho esquerdo.

Outro lado

O Metrópoles enviou uma série de questionamentos ao Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal, responsável pela gestão do Hospital de Base. A assessoria jurídica do instituto, no entanto, enviou por meio de nota um esclarecimento afirmando que dados solicitados pela reportagem “não podem ser divulgados, em respeito ao sigilo médico profissional e às informações pessoais dos pacientes, conforme Código de Ética Médica e Código Civil”.

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