PCDF abre inquérito para apurar morte no Instituto Hospital de Base

Maria Aparecida morreu de parada cardiorrespiratória. Médica relata irregularidades e deficiências que colocam em xeque atendimento

Filipe Cardoso/ Especial para o MetrópolesFilipe Cardoso/ Especial para o Metrópoles

atualizado 25/09/2018 18:32

A Polícia Civil do Distrito Federal abriu inquérito para apurar a morte de uma paciente no Instituto Hospital de Base (IHB) ocorrida em 2 de setembro. Márcia Aparecida Silva, 74 anos, não resistiu após sofrer uma parada cardiorrespiratória. O caso, tratado como crime doloso contra a vida, conta com o depoimento da cardiologista que assinou o atestado de óbito.

A médica relatou uma série de irregularidades e deficiências técnicas em seu termo de declaração que colocam em xeque o atendimento no maior hospital da rede pública do Distrito Federal.

De acordo com o depoimento da profissional, a vítima havia sido diagnosticada com infarto agudo do miocárdio. Para o tratamento, segundo a médica, havia a opção de realizar uma angioplastia, mas o equipamento estava parado por falta de insumo. Durante o tratamento, Márcia apresentou piora em seu quadro. Os médicos identificaram a necrose do músculo cardíaco.

Preocupada, a cardiologista entrou com contato com a Central de Regulação da Secretaria de Saúde a fim de tentar uma vaga para Márcia no Instituto de Cardiologia do DF (ICDF). Como resposta, a pasta afirmou à médica que “a paciente era prioridade 2 e que somente se estivesse entubada seria prioridade 1”. Portanto, a vítima não teria direito a uma vaga imediata na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Reprodução
Márcia Aparecida Silva morreu após ser atendida no Instituto Hospital de Base

 

Funcionários despreparados
A médica afirmou em depoimento que acompanhou o trabalho das enfermeiras quando Márcia recebeu a aplicação de uma medicação usada para melhorar o fluxo sanguíneo. Uma hora depois, a paciente sofreu uma parada cardíaca. Naquele momento, conforme relatou, havia três pessoas na sala e, de acordo com ela, o número de servidores não seria suficiente para fazer o procedimento de ressuscitação.

O local não contava com a chamada prancha rígida, usada para deitar o paciente durante a massagem cardíaca, já que o colchão da cama absorve a pressão feita pelo profissional.

Após fazer esforço durante a massagem, a médica pediu para que uma das auxiliares seguisse com o trabalho, o que não ocorreu, pois a colaboradora não sabia executar os movimentos de forma correta. A cardiologista precisou chamar médicos residentes para efetuarem a massagem cardíaca na vítima.

Sem reação, Márcia precisou ser entubada. Porém, a médica percebeu que havia secreção com sangue retornado pelo tubo e pediu que funcionários buscassem um aspirador para fazer a sucção. No entanto, o aparelho estava quebrado. Foi preciso pedir um novo aspirador que estava em sala no outro lado do hospital. O procedimento levou cerca de 15 minutos. Após 33 minutos de ressuscitação, Márcia não resistiu.

Braços enfaixados
Revoltada, a família de Márcia fez denúncias graves após o corpo ser liberado pelo hospital. Filha da vítima, Rosane Martins Silva Santos (foto em destaque), 49, disse que o corpo de sua mãe foi entregue com os dois braços enfaixados.

“Fizeram isso para esconder a necrose que havia nos dois braços pela forma incompetente que aplicaram medicamentos. Tenho convicção de que minha mãe morreu por negligência e imperícia. Os funcionários do hospital sequer sabiam fazer massagem cardíaca”, desabafou.

O marido de Rosane, Jessé Peixoto Santos (foto em destaque), 58, contou que esteve com Márcia poucas horas antes de ela morrer, e a sogra parecia bem. “Ela estava tranquila e reclamando apenas de uma pequena dor no ombro. Pouco tempo depois, estava morta. Quem circula por dentro do Hospital de Base vê o caos em que ele se encontra. Tenho certeza de que a minha sogra foi vítima desse caos”, afirmou.

Em relação ao suposto despreparo dos funcionários da unidade de saúde, investigadores da 5ª Delegacia de Polícia (Área Central) irão ouvir, em depoimento, todos os servidores que participaram do atendimento à Márcia.

O Metrópoles procurou a assessoria da Secretaria de Saúde para falar sobre as denúncias. Em nota, a pasta informou que “o Instituto Hospital de Base está acompanhando o caso e aguardando a conclusão da investigação policial e que o Setor de Qualidade e Segurança do Paciente do IHB está avaliando as minúcias do caso, segundo protocolo de investigação de evento adverso (Protocolo de Londres) do setor”, afirmou a nota.

Confusão
A morte de Márcia Aparecida Silva motivou o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Brasília (SindSaúde) e a Câmara Legislativa (CLDF) a promoverem uma fiscalização conjunta no IHB, no mesmo dia do óbito. Entretanto, a vistoria, que contou com a participação do deputado distrital Wellington Luiz (MDB), vice-presidente da CLDF, terminou em confusão.

A entrada nas dependências da unidade foi negada pelos vigilantes do hospital, o que resultou em discussão entre os seguranças e o parlamentar. No momento mais tenso, o agente chegou a colocar a mão na arma, ao passo que Wellington Luiz, policial civil, também levou a mão à cintura, indicando que também estaria armado.

“Eu disse para ele tirar a mão da arma, que sou deputado e uma das minhas prerrogativas é fiscalizar. Por que não me deixaram entrar, o que estão querendo esconder?”, questionou o deputado.

Wellington Luiz diz estar prestando apoio à família e já comunicou ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) acerca do interesse dos familiares em recorrer judicialmente contra o hospital.

“Queremos evitar que o caso de Márcia se repita. Pretendemos, ainda, formular representação judicial contra o GDF [Governo do Distrito Federal], pois dá autonomia a um instituto que não tem competência de se autoadministrar”, disse ao Metrópoles.

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