Sete PMs envolvidos em grilagem de terras são presos pela PCDF e MP

Policiais investigados atuavam no Sol Nascente, considerada uma das maiores favelas da América Latina. Metrópoles revelou caso em 2017

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 29/05/2019 11:58

A Coordenação Especial de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado, aos Crimes contra a Administração Pública e aos Crimes contra a Ordem Tributária (Cecor) deflagrou operação na manhã desta quarta-feira (29/05/2019) para prender sete policiais militares envolvidos na grilagem de terras do Setor Habitacional Sol Nascente. O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) também atua na ação por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

São sete prisões preventivas expedidas pela Auditoria Militar do Distrito Federal. O MP e a PCDF também cumprem 15 mandados de busca por meio da primeira fase da Operação Horus, que é acompanhada pela Corregedoria da PM.

A operação é um desdobramento de uma investigação iniciada na 19ª Delegacia de Polícia (P Norte), há oito anos. Ao longo da apuração, foi identificada dentro da organização criminosa um núcleo que atuava como braço armado para cometer crimes relacionados às invasões de terras. Entre os quais,  ameaças e homicídios.

Esta primeira fase é voltada justamente à desarticulação deste núcleo composto por policiais militares denunciados pelo Gaeco pelo crime de organização criminosa. De acordo com o MPDFT, eles eram responsáveis por proteger e dar suporte aos grileiros, bem como por comercializar parte dos terrenos. As investigações têm como base informações contidas em Inquérito Policial Militar instaurado pelo Departamento de Controle e Correição da PMDF para apurar os mesmos fatos.

A ação foi batizada de Hórus, o deus do sol, segundo a mitologia egípcia. É uma referência ao Sol Nascente.

“Véi da 12”
Um dos investigados na Operação Horus é o sargento José Claudio Bonina, conhecido como “Véi da 12”. Promotores e policiais cumpriram um mandado de busca e apreensão na casa dele. Não há mandado de prisão contra o policial.

O militar é conhecido por ostentar uma arma calibre .12. Costuma fazer muitas apreensões de drogas e armas. Nas últimas eleições, ele se candidatou pelo Partido da Mobilização Nacional (PMN) a deputado distrital, mas não foi eleito.

Um outro sargento da ativa identificado como Paulo Henrique é suspeito de ter lotes e barracos no Sol Nascente. Ele foi preso na manhã desta quarta-feira (29/05/2019) na casa onde mora, na QNM 10. O militar integra o quadro da corporação há 27 anos e, atualmente, trabalha no batalhão de Ceilândia.

Os investigadores descobriram que ele trabalhou paralelamente como segurança de uma empresa de bebidas. O militar tinha até a carteira de trabalho assinada entre os anos de 2005 e 2012. Um terceiro preso é o militar Jair Dias. Ele atuava no centro médico da corporação.

Reprodução
Sargento Bonina, ou ‘Véi da 12″

Por meio de nota, a Polícia Militar afirmou que colaborou com toda a investigação. “Procedimentos internos foram instaurados, mas correm sob segredo de Justiça, portanto não podemos dar mais detalhes”, diz o texto.

Lotes por R$ 30 mil
A suposta participação de policiais militares no parcelamento irregular do solo na cidade, considerada uma das maiores favelas da América Latina, foi revelada pelo Metrópoles. Em 2017, uma reportagem especial mostrou que o medo e a grilagem dominavam o Sol Nascente.

As construções irregulares estão por toda parte. Os grileiros fazem aterramentos, degradam a natureza e parcelam lotes. Cada unidade pequena, de até 200 metros quadrados, é vendida por um preço médio de R$ 30 mil.

A comercialização é fácil e rápida. Muitas vezes, a dívida é quitada em apenas uma parcela ou paga com a entrega de carros ou imóveis em outras regiões do DF. Os anúncios são feitos por meio de faixas e em sites de venda na internet.

Tentativa de homicídio
Uma tentativa de assassinato, em 2017, ajudou a polícia a coletar indícios da participação de militares no crime. O sargento da reserva Amarildo da Cruz Alves, 52 anos, levou ao menos três tiros no momento em que estava na QNO 4. Os disparos seriam motivadas por um acerto de contas entre grileiros.

Os bandidos fugiram em um carro preto. A 24ª Delegacia de Polícia (Setor O) investigou o crime. Alves foi preso preventivamente, em 2016, depois de ameaçar uma família do Sol Nascente e forçá-la a sair de casa.

Segundo agentes ouvidos pela reportagem, Amarildo da Cruz é investigado por grilagem de terras no Sol Nascente. No local, ameaçaria moradores e cobraria valores altos pelas casas. Ele disputaria lugar com outros grileiros.

Ex-servidor da Codhab
Além de PMs, servidores e ex-servidores do Governo do Distrito Federal também são investigados em inquéritos que tramitam na Polícia Civil. Conforme o Metrópoles revelou na última segunda-feira (27/05/2019), um ex-servidor da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab) é suspeito de integrar um grupo que fatura com a grilagem em Ceilândia.

Uma das regiões mais visadas pelos criminosos é um lote de 25 mil metros quadrados, no coração do Sol Nascente. Valorizado, o terreno tem rua asfaltada até a porta, energia elétrica e fica próximo a paradas de ônibus e comércios.

As parcelas de terra comercializadas pelos grileiros são destinadas para moradia e comércio. Elas são vendidas por valores que partem de R$ 40 mil e chegam a R$ 180 mil. Segundo denúncias, os interessados precisam adiantar 50% do total para fechar negócio.

O engenheiro e ex-servidor da Codhab Edson Cordeiro é citado pelos moradores da região como um dos responsáveis pela desocupação das áreas promovidas pelo governo com o objetivo de realizar as vendas ilegais posteriormente.

“Ele queria tirar a gente daqui para comercializar as terras. Chegou a sugerir de nos deixar com as nossas casas desde que todo mundo abrisse mão do restante das terras para ele. Já o denunciamos e prestamos depoimento na delegacia”, disse Maria Josilma, moradora da Chácara 80 há 40 anos.

Maria Josilma contou que o lote é herança da mãe para ela e os seis irmãos. Por meio de nota, a Codhab afirmou que o engenheiro Edson Cordeiro foi desligado do quadro de funcionários no início da gestão, em 2019, “por estar sendo investigado em vários casos de desvio de conduta e esbulho possessório pela Policia Civil do DF”. “Por esse motivo, o senhor Edson não se enquadra mais no perfil profissional adotado pela atual gestão”, completou.

Ainda de acordo com o comunicado, quanto ao possível envolvimento de outros servidores, a Codhab está tomando todas as providências legais para apurar os fatos “e se coloca à disposição das autoridades competentes, para ajudar no que for preciso”.

 

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