Paciente é amarrado em hospital do DF e família cobra respostas

Paciente de 72 anos está internado há um mês após um infarto e foi amarrado durante internação no Hospital do Guará

atualizado

metropoles.com

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Material cedido ao Metrópoles
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1 de 1 paciente-amarrado - Foto: Material cedido ao Metrópoles

Um paciente de 72 anos foi amarrado durante a internação no Hospital Regional do Guará e agora a família cobra respostas. O caso foi denunciado pela filha, Izabela Boreli, de 32 anos, ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que apura o caso.

“Quando um paciente delira, não se trata com punição. A primeira alternativa deve ser sempre o cuidado, a tentativa de abordagem clínica e medicamentosa. Ele é um ser humano. Não houve tentativa prévia de medicação. A primeira medida foi amarrar”, reclamou a filha do paciente.

Um vídeo cedido ao Metrópoles mostra o paciente durante a internação no hospital, ainda com os as faixas nas mãos, que a filha afirma ter retirado. Nas imagens, é possível observar as mãos com coloração arroxeada, enquanto ele permanece acamado.

Segundo a família, o idoso deu entrada no hospital após um episódio de infarto no dia 19 de março, lúcido, andando e com movimentos preservados. Ele foi encaminhado à sala vermelha — setor destinado a casos graves e de monitoramento contínuo — onde permaneceu até o dia 25, período em que não é permitida a presença de acompanhantes.

De acordo com o relato, foi justamente nesse intervalo, sem acesso da família, que ocorreu a contenção. Na noite do dia 20, por volta das 23h, o paciente teria sido amarrado. A situação só foi percebida no dia seguinte, durante o horário de visita.

“Quando entrei e vi meu pai daquela forma, com as mãos amarradas, fiquei sem entender. Ninguém tinha avisado nada”, disse a filha.

Segundo ela, o paciente relatou posteriormente que apenas pela manhã foi informado de que teria apresentado um quadro de delírio durante a madrugada.

A família afirma que questionou a equipe médica e solicitou acesso ao registro do plantão. A resposta, segundo eles, foi de que o paciente teria apresentado agitação, o que motivou a contenção física. “Eu pedi que tirassem as amarras na hora, mas até o fim da visita isso não aconteceu”, afirmou.

Após o episódio, o paciente passou a apresentar dor intensa, perda de força no punho esquerdo e hematomas. A família relata que solicitou exames diversas vezes. Posteriormente, uma eletromiografia indicou lesão, com previsão de recuperação de até seis meses.

Ferida na região sacral

Outro ponto levantado pelos familiares foi o surgimento de uma lesão grave na região sacral — área localizada na parte inferior da coluna, próxima ao cóccix — identificada apenas após a transferência para a enfermaria.

“Quando ele saiu da sala vermelha, a gente descobriu uma ferida enorme. Ninguém avisou. Hoje está infeccionada e impede até o cateterismo que ele precisava fazer. Isso é falta de cuidado básico”, disse a filha.

Esse tipo de lesão, conhecida como escara ou lesão por pressão, ocorre quando o paciente permanece por longos períodos na mesma posição, sem mudança de decúbito. A pressão contínua sobre determinadas áreas do corpo reduz a circulação sanguínea, prejudica a oxigenação dos tecidos e pode levar à morte celular e necrose da pele, formando feridas abertas e de difícil cicatrização.

A situação pode ser agravada em pacientes com mobilidade reduzida, como aqueles imobilizados no leito ou submetidos à contenção física, já que a restrição de movimentos impede a alternância de posição e aumenta a pressão constante em regiões como sacro, calcanhares e quadris.

Ele segue internado há mais de um mês, com infecção ativa e sem previsão de cirurgia. Os familiares relatam piora progressiva do quadro clínico e apontam possível insuficiência de equipe na unidade.

“Faltam profissionais. Muitos pacientes não recebem cuidados básicos como banho, troca de fraldas e mudança de posição”, disse a filha do paciente.

Esclarecimentos

A família buscou ajuda junto ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e também recorreu à Defensoria Pública do DF.

Ao Metrópoles, o MPDFT esclareceu que encaminhou o caso à 2ª Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde (2ª Prosus), que instaurou notícia de fato e adotou medidas para apuração do caso.

Segundo o órgão, em 26 de março, foram expedidos ofícios à Secretaria de Saúde do DF, com requisição de informações ao Hospital Regional do Guará e ao Instituto de Cardiologia e Transplante do Distrito Federal (ICTDF), incluindo dados sobre o atendimento e a previsão de cirurgia.

“O ICTDF informou que o paciente realizou cateterismo em 24 de março e segue em fase de exames e avaliações pré-operatórias, não sendo possível, até o momento, indicar a data do procedimento”, relata a nota.

Ainda conforme o MPDFT, o caso segue em acompanhamento.

Já a Defensoria Pública do Distrito Federal (DPDF) informou que atendeu a família do paciente, no Núcleo de Assistência Jurídica de Defesa da Saúde, após relatos de possíveis falhas no atendimento durante internação no Hospital Regional do Guará I.

A Defensoria também informou que encaminhou ofício à Secretaria de Estado de Saúde do DF solicitando esclarecimentos sobre o estado de saúde do paciente, tratamento da infecção, contenção física, uso de medicamentos, rotina de cuidados e eventual necessidade de transferência. Em resposta, a pasta informou apenas que o paciente segue internado, sem detalhar os demais pontos questionados.

Resposta da Secretaria de Saúde

A secretaria de Saúde do DF afirmou ao Metrópoles, por meio de nota que o paciente foi prontamente atendido assim que deu entrada no hospital, em 19 de março, com realização de trombólise e resposta inicial satisfatória ao tratamento, incluindo melhora da dor torácica.

Sobre a utilização de amarras, a pasta informou que “durante a internação, em razão da gravidade do quadro clínico e de comorbidades associadas, o paciente apresentou episódios de agitação e confusão mental. Nesses momentos, foi necessária a adoção de contenção temporária, medida utilizada exclusivamente para garantir a segurança do próprio paciente, sempre sob rigorosa supervisão da equipe de saúde e dentro dos protocolos assistenciais”.

Com relação ao ferimento na região sacral, a Secretaria explicou que o paciente apresentou uma lesão de pele durante a internação, já identificada e tratada pela equipe, encontrando-se atualmente em processo de remissão, com acompanhamento contínuo da enfermagem e uso de terapêutica adequada.

A pasta não informou o que gerou o ferimento e esclareceu que o paciente segue sob cuidados da equipe multiprofissional, recebendo toda a assistência necessária, com monitoramento constante de seu quadro clínico.

 

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