Mulher que comprou casa de vítima de chacina recebeu as chaves das mãos de um dos assassinos
A testemunha afirmou ter reconhecido um dos indivíduos posteriormente em depoimento à polícia. “Foi chocante, a gente não esperava”, afirmou
atualizado
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Durante o segundo dia de julgamento da chacina que deixou 10 pessoas da mesma família mortas, nesta terça-feira (14/4), uma testemunha apresentou um depoimento detalhado sobre a compra de um imóvel de Cláudia Regina Marques de Oliveira – uma das vítimas – nos dias que antecederam o crime.
Segundo o relato da testemunha, que comprou o imóvel de Cláudia, a negociação da casa foi concluída em 7 de dezembro de 2022, após uma visita realizada no fim de novembro.
O imóvel foi adquirido por R$ 200 mil, sendo R$ 79 mil pagos em dinheiro e o restante por meio de três transferências bancárias. Embora a compra tenha sido feita em nome da mãe da testemunha, ela afirmou ter conduzido diretamente toda a negociação.
A transação também contou com a participação de um corretor e, do ex-marido de Cláudia, Marcos Antônio Lopes de Oliveira (outra vítima da chacina), que esteve presente no cartório no momento da formalização do pagamento.
O último encontro presencial com Cláudia ocorreu em 2 de janeiro de 2023, quando a testemunha visitou o imóvel acompanhada de familiares. Na ocasião, a vendedora informou que entregaria as chaves entre os dias 4 e 5 de janeiro, o que não aconteceu.
No dia previsto para a entrega, no entanto, a testemunha não conseguiu contato com Cláudia por telefone ou mensagens. Diante do silêncio, decidiu ir até o imóvel, onde encontrou dois homens realizando a mudança. Eles afirmaram não saber do paradeiro da proprietária, mas disseram que ela retornaria o contato.
Horas depois, mensagens enviadas do celular da vendedora indicavam que a entrega das chaves ocorreria ainda naquele dia. Por volta das 14h50, a testemunha foi informada de que a retirada dos pertences estava sendo finalizada. Ao chegar ao local, encontrou novamente os dois homens, que concluíram a mudança e entregaram as chaves.
A testemunha afirmou ter reconhecido um dos indivíduos posteriormente em depoimento à polícia. Um dos nomes mencionados foi o de Fabrício da Silva Canhedo, um dos autores da chacina. O último contato com ele ocorreu em 10 de janeiro, quando a testemunha tentou esclarecer uma dúvida sobre o imóvel, recebendo apenas uma resposta parcial.
A descoberta do crime veio dias depois, por meio da mídia. “Foi chocante, a gente não esperava”, afirmou. Entre 2 e 4 de janeiro de 2023, Cláudia e a filha, Ana Beatriz Marques de Oliveira, foram rendidas na casa onde moraram. Elas tiveram bens roubados, incluindo um carro, e foram levadas para o mesmo cativeiro onde estavam as outras vítimas da chacina. As duas também passam a sofrer ameaças e tiveram senhas bancárias exigidas pelos acusados.
Em 15 de janeiro de 2023, Cláudia e Ana Beatriz foram levadas pelos criminosos até uma cisterna próxima ao cativeiro, em Planaltina. Segundo a denúncia, elas foram assassinados a golpes de faca, e os corpos foram jogados no local e cobertos com terra e cal.
Tribunal do Júri
O Tribunal do Júri da maior chacina do Distrito Federal foi retomado na manhã desta terça-feira (14/4), no fórum de Planaltina, para o segundo dia de julgamento dos cinco réus pela morte de 10 pessoas de uma mesma família.
O Júri teve início na segunda-feira (13/4), por volta das 10h, e se estendeu até as 20h, com depoimentos colhidos de 6 testemunhas. A expectativa é que outras 16 pessoas, entre familiares e policiais que atuaram no caso, prestem depoimento nos próximos dias. Conforme informado pelo Ministério Público, o Júri deve ser encerrado apenas em 19 de abril.
No primeiro dia de júri, testemunhas detalharam o que sabem sobre o crime. Um dos investigadores da polícia civil que atuou no caso afirmou que após a morte dos primeiros familiares, os acusados passaram a usar o celular das vítimas para responder mensagens de parentes e amigos para tentar despistar o crime.
Sentam no banco dos réus os seguintes acusados:
- Gideon Batista de Menezes: apontado como um dos principais articuladores do plano;
- Horácio Carlos Ferreira Barbosa: atuou diretamente nos assassinatos;
- Carlomam dos Santos Nogueira:participou dos sequestros e execuções;
- Fabrício Silva Canhedo: responsável pela vigilância do cativeiro em parte do período;
- Carlos Henrique Alves da Silva: participou da rendição de vítimas.
De acordo com a denúncia do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT), se condenados, os acusados podem ter até 358 anos de prisão.
Eles respondem por homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menor.
Entenda o caso
- Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, os acusados se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã, e também obter dinheiro da família de Marcos Antônio Lopes de Oliveira.
- O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar familiares;
- Em 27 de dezembro de 2022, parte do grupo foi à casa da vítima, rendeu Marcos, a esposa e a filha, e roubou cerca de R$ 49,5 mil;
- As três vítimas foram levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina, onde Marcos foi morto e enterrado;
- No dia seguinte, as mulheres foram ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas de celulares e contas bancárias;
- Com os aparelhos, os criminosos passaram a se passar pelas vítimas para atrair outros familiares;
- Entre 2 e 4 de janeiro, a ex-esposa de Marcos, Cláudia da Rocha, e a filha Ana Beatriz foram atraídas, rendidas e levadas ao mesmo cativeiro;
- O grupo decidiu matar Thiago, filho de Marcos, e o atraiu ao local em 12 de janeiro. Ele também foi rendido e mantido em cárcere;
- Com acesso ao celular de Thiago, os criminosos atraíram a esposa dele, Elizamar, junto com os três filhos do casal;
- Eles foram levados a Cristalina (GO), onde foram mortos. Os corpos foram queimados dentro do carro da vítima. Em seguida, os acusados decidiram matar as demais vítimas para evitar que os crimes fossem descobertos;
- Renata e Gabriela foram levadas a Unaí (MG), onde foram mortas e tiveram os corpos queimados. Depois, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram assassinados e tiveram os corpos escondidos em uma cisterna;
- Após os crimes, parte do grupo incendiou objetos das vítimas para dificultar as investigações.
