Imagens de dor: vídeos e relatos mostram angústia em UTIs do DF

Com o aumento acelerado do número de casos graves da Covid-19 e de internações, a aflição das famílias ficou ainda mais aguda na pandemia

atualizado 12/03/2021 11:37

Hran Igo Estrela/Metrópoles

Maria Lourdes Santos, de 44 anos, é diarista. Acompanha a luta pela vida do marido, Cleomar Silva, 50 anos, internado com Covid-19 na unidade de tratamento intensivo (UTI) do Hospital Regional de Ceilândia. Diante da agressividade da doença e do colapso da rede saúde, a mulher passa os dias com o coração apertado.

“A gente fica sem saber se os nossos vão entrar e não vão sair. Esperávamos que, após um ano de pandemia, o governo estivesse preparado para isso. A sensação é de que nada podemos fazer”, lamentou Maria Lourdes. Após apresentar sintomas do novo coronavírus na última sexta-feira (5/3), Cleomar foi internado no HRC domingo (7/3).

“É muita preocupação. A gente não pode ficar com ele na UTI, mas sabemos de toda a situação lá dentro. Estamos recebendo as notícias a todo momento. Há muitos pacientes amontoados lá dentro. Cenário triste demais. Pessoas pelos corredores. Gente passando mal em macas”, desabafou a diarista.

Além do limite

Assim como em diversas unidades da rede de saúde do Distrito Federal, o Hospital Regional de Ceilândia opera acima do limite de sua capacidade. Na quinta-feira (11/3), uma diligência da força-tarefa da Ação Conjunta Covid-19 da Câmara Legislativa (CLDF) mostrou a falta de leitos de UTI e de vagas na enfermaria da unidade de saúde.

Com o pronto-socorro superlotado, pessoas estão internadas em um banheiro. Mais lavatórios poderão ser usados, caso a situação se agrave. Também faltam pontos de oxigênio, e gambiarras levam ar aos pulmões de doentes.

Veja vídeos feitos na unidade de saúde na última quinta-feira

– Pacientes internados no banheiro:

– Gambiarra de oxigênio:

 

Na quarta-feira (10/3), um dia antes da diligência, profissionais de saúde desabafaram sobre o caos no HRC.

“O negócio está crítico por aqui. Loucura, loucura, loucura! Olha a situação dos corredores”, alertou um servidor.

Veja as imagens: 

Aflição

Angústia semelhante é compartilhada por Nilton Alves de Sousa, 44, vigilante. Com fé e confiança nos profissionais de saúde, ele torce para a recuperação da mãe, dona Geralda Ribeiro, 72, internada com Covid-19 no Hospital de Campanha da Polícia Militar.

“Ela se encontra hoje respirando por aparelhos. Ainda está um pouco fraca. A gente aguarda a melhora”, disse. Segundo Nilton, o tratamento e o atendimento no Hospital de Campanha da PM têm sido exemplar. Mas a aflição é grande: a esposa do vigilante, Marlúcia Santos, 45, está infectada com a Covid-19. Felizmente, ela não precisou de internação até o momento.

“Deus me livre de a gente necessitar de um hospital hoje. Temos visto a falta de leitos, os corredores superlotados. A gente fica preocupado em ir para o hospital, com a doença inicial, não conseguir atendimento e depois precisar voltar e não ter onde ser internado. Você vê as pessoas sem local para receber oxigênio”, lamentou o vigilante.

“Dá uma angústia muito grande. A gente conseguiu atendimento para minha mãe, mas não foi fácil. Tivemos de voltar duas vezes com ela do Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Ela teve de retornar para casa. Tomou medicação, mas não estava respondendo. Voltamos de novo e conseguimos uma vaga. Logo depois, ela foi para o Hospital da PM”, explicou.

Torcida por mais leitos

Segundo Nilton, a família torce para que a situação se reverta, com o governo construindo e contratando mais leitos, “para que nossa sociedade tenha lugar para ser atendida. Porque não tem como você ficar em casa e se automedicar”. O vigilante disse ainda que pacientes com classificação verde, de baixo risco, estão voltando para os seus lares sem atendimento.

Afastado do trabalho, ele também ajuda o patriarca da família, Antônio Alves de Sousa, 71, recentemente curado da Covid-19. “Meu pai recebeu alta há alguns dias. Ele saiu com sequelas, com problemas nos músculos da mão e do braço. Atualmente, está se recuperando, respondendo bem e fazendo fisioterapia em casa”, contou. Antônio ficou internado em um hospital particular.

HRT

Na quinta-feira (11/3), o deputado distrital Chico Vigilante (PT) – um dos defensores da vacinação obrigatória dos brasilienses contra a Covid-19, aprovada pela CLDF nesta semana – postou nas redes sociais o desabafo de um servidor da rede pública que luta diariamente, no Hospital Regional de Taguatinga (HRT), para salvar vidas de pacientes infectados.

O vídeo foi uma resposta à declaração do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. Na avaliação do militar, o sistema de saúde brasileiro, embora impactado pelo avanço da Covid-19“não colapsou, nem vai colapsar”.

“O ‘covidário’ está lotado, não tem mais onde colocar pacientes. Falta ponto de oxigênio, temos muitos pacientes críticos, cinco intubados, não tem servidor suficiente, falta material… Pacientes extremamente graves, jovens, pessoas aguardando UTI… Nunca pensei viver um caos desse. Depois de um ano, piorou. Os pacientes estão chegando [em estado] grave e já estão indo pro tubo”, diz o servidor.

A voz do profissional foi alterada para ele não ser reconhecido e não sofrer represálias.

Veja o material postado pelo parlamentar: 

Hran

Na noite de quinta-feira (11/3), o repórter fotográfico Igo Estrela, do Metrópoles, acompanhou o drama dos pacientes no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), referência no tratamento do coronavírus na capital do país. A unidade de saúde pública está sobrecarregada na pandemia (imagens em destaque e abaixo).

Confira: 

 

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Parentes de pacientes internados no Hran também denunciaram o “cenário de guerra” da rede de saúde, na segunda-feira (8/3). “Falta tudo no hospital. Tudo é precário, sucateado. Falta até luva para o pessoal trabalhar, máscara”, relatam.

Acompanhe o desabafo:

Em uma gravação enviada ao Metrópoles, em 4 de março, é possível ver a aflição dos pacientes no Hospital Regional de Planaltina. Segundo um servidor, um dos principais motivos de preocupação na unidade era a manutenção do tratamento com oxigênio.

“Eles estão no corredor acoplados a cilindros de oxigênio. São cilindros que seguram, em média, 18 horas. Não tem ponto fixo”, assinalou.

Assista: 

Providências do governo

Desde o surgimento da Covid-19 e até a última quinta-feira (11/3), o Distrito Federal já notificou 312.956 contaminações e 5.048 óbitos em decorrência da doença. Nas últimas 24 horas, foram 21 mortes e 1.858 novas infecções na capital do país.

Diante do agravamento da pandemia, o Governo do Distrito Federal (GDF) assumiu uma série de compromissos com a população. A ampliação dos leitos de UTI é um deles. Segundo a Secretaria de Saúde, o DF possui, hoje, 673 leitos de UTI Covid, sendo 347 na rede pública e 326 na privada.

Apenas nos últimos 10 dias, foram abertos mais de 110 leitos. A pasta também trabalha na ampliação da oferta de leitos com suporte de ventilação mecânica e enfermaria, fator necessário para a recuperação de pacientes com Covid-19.

Também na quinta, a Saúde iniciou a ativação de mais 50 leitos de UTI exclusivos para pacientes com Covid-19 nos hospitais de Base (HB) e de Santa Maria (HRSM). Dessa forma, a taxa de ocupação desses leitos no DF caiu de 99% para 84,36%.

O chefe do Executivo distrital, Ibaneis Rocha (MDB), anunciou investimento de R$ 36 milhões na construção de três novos hospitais de campanha. O governo também adotou medidas de distanciamento social, com lockdown parcial e toque de recolher. Por outro lado, segue com o plano de vacinação proposto pelo governo federal.

Com relação aos hospitais citados, o Metrópoles ouviu a Secretaria de Saúde nas datas em que a reportagem recebeu as respectivas denúncias mencionadas nesta matéria. Em todos os casos, a pasta sinalizou a intenção de resolver os problemas. Mas negou a falta de equipamentos de proteção individual e oxigênio na rede de assistência.

Taxa de 1,3

Mesmo com as medidas encaminhadas pelo governo, a Covid-19 continua se alastrando. Segundo a pasta da Saúde, também até quinta-feira, a taxa de transmissão do vírus estava acima de 1,3. Ou seja, cada 100 pessoas infectadas podem transmitir a doença para outras 130 pessoas. E o painel InfoSaúde indicava 224 pacientes estão na fila pela terapia intensiva.

Em entrevista à coluna Grande Angular, do Metrópoles, publicada na quinta-feira (11/3), o governador traçou um raio-x da pandemia no DF. Além de determinar metas para a batalha contra a Covid, pediu para a população seguir a recomendação de distanciamento social neste momento.

“Você que vai para a rua, que aglomera e não respeita os decretos está deixando outras pessoas morrerem, não só de Covid. A situação é grave”, alertou Ibaneis.

Veja a entrevista completa:

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