Em meio à seca, bombeiros do DF arriscam a vida no combate a incêndios

Morte da soldado Marizelli Armelinda Dias expõe riscos diários enfrentados pelos militares nas missões pela capital do país

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 22/09/2019 22:29

Mal havia concluído o curso de formação e Marizelli Armelinda Dias, 31 anos, já trabalhava com o que sempre sonhou: salvando vidas. Apaixonada pelo que fazia, a soldado do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF), contudo, morreu em missão. Enquanto combatia incêndio florestal na QNL 2 de Taguatinga, no último domingo (15/09/2019), ela foi atingida por uma árvore, que trouxe consigo fios de alta tensão. A fatalidade expõe a vulnerabilidade enfrentada pelos bombeiros que se arriscam diariamente para combater as chamas, responsáveis pela queima de mais de 10 mil hectares de Cerrado neste ano.

Mesmo o mais treinado e equipado bombeiro não está livre dos perigos da profissão. Imersos em uma rotina exaustiva de trabalho, os militares precisam ficar de prontidão para atender aos incessantes chamados que demandam, diariamente, pelo menos 45 viaturas da corporação. Durante 12 horas, o Metrópoles acompanhou de perto a difícil missão dos combatentes que integram o Grupamento de Proteção Ambiental (Gpram), no fim da Asa Norte.

No quartel, os chamados para as ocorrências são recebidos por militares em um posto próprio, e logo encaminhados para o prédio principal. O relógio ainda não marcava 8h e a movimentação já era intensa no pátio da unidade, quando as cinco equipes escaladas se organizavam para os trabalhos do dia.

Na garagem, militares preparavam as viaturas Auto Bomba Tanque (ABT) para os combates. Fabricados exclusivamente para ocorrências com incêndios, os veículos têm capacidade para 3.750 litros d’água, além de 250 litros de espuma. Perto de lá, no estacionamento externo, outros dois caminhões destinados ao transporte das tropas aguardavam os bombeiros designados para prestar apoio a quem já estava atuando desde a madrugada.

Quando acionados, os militares se dirigem à garagem, onde vestem os equipamentos de proteção individual (EPIs) – coturno, luvas, máscara, balaclava, bomba costal e uniforme adequado. A preparação é acompanhada de perto pelo capitão do Gpram, Eduardo Dias. Ao militar compete a função de gerir os combatentes, traçar estratégias para rápida extinção das chamas, além de revisitar locais propensos a pegar fogo.

Veja, a seguir, um pouco da rotina de trabalho dos profissionais:

Preparação

Na viatura com Dias, outros três bombeiros o acompanham na missão. O bagageiro do veículo está equipado com abafadores e mais quatro mochilas cheias d’água, que pesam 20 kg cada. O primeiro chamado é para incêndio florestal em terreno formado por pequenas propriedades rurais localizado no final de São Sebastião.

No caminho, o capitão analisa a área de atuação através de um GPS. O local atingido pelo fogo é de difícil acesso e, portanto, os militares precisam descer do carro para visualizarem a melhor estratégia no combate. As chamas são altas e produzem muita fumaça dentro da mata, onde é possível ouvir troncos de árvores estalando com o forte calor. Após observar a área queimada, o comandante identifica a necessidade de acionar mais bombeiros para a ocorrência.

Com a chegada do reforço, Dias parte para outro combate: às margens da DF-140, em São Sebastião. No local, moradores queimavam lixo próximo da pista quando o fogo fugiu de controle e, com a ajuda do vento, atravessou a via, atingindo área de Cerrado no lado oposto. Calor, ventos fortes e vegetação seca fazem o incêndio crescer de proporção. Somado a esses fatores, uma grande quantidade de troncos e galhos secos abandonados nos terrenos alimenta as chamas, que passam a ameaçar casas vizinhas.

Combate ao fogo

Carregando uma das mochilas e tentando conter o incêndio, o militar explica que a maior parte das ocorrências atendidas pelo Gpram envolve incêndios não naturais, ou seja, provocados.

“Esse é o tipo de caso mais comum. Quando passamos, dava para ver o lixo queimando. O vento trouxe as chamas e agora fica difícil de controlar por conta do tamanho do incêndio e da grande quantidade de troncos secos espalhados pelo chão”, diz Dias.

A equipe inicia o combate dificultado pela grande quantidade de “combustível inflamável”. O calor é intenso e a queima dos troncos produz muita fumaça, afetando a visibilidade e complicando ainda mais o trabalho. Mesmo carregadas com água, as mochilas não são suficientes para extinguir o fogo.

O incêndio requer paciência dos militares, que precisam esperar e torcer para o vento não espalhar o fogo. Enquanto esperam, os bombeiros tentam pôr fim a pequenos focos e, apesar de equipados com fardas resistente às chamas, ainda é possível ouvir os combatentes gritarem por conta do intenso calor. As tentativas de conter o fogo não surtem efeito e Dias volta a pedir auxílio da corporação, que envia mais militares.

“Sem hora para voltar”

O desgaste entre os combates é evidente. “O calor é o que mais nos cansa. Quando a chuva atrasa, é pior. O mato está seco, a temperatura muito elevada e a umidade, baixa. Então quando venta, o fogo se alastra muito rápido”, comentou o sargento Camargo, bombeiro militar há 25 anos.

Exaurido, o sargento Raoni Cardoso, 32, também ressalta que o calor desta época do ano torna o trabalho ainda mais complicado. O militar retornou de uma ocorrência por volta das 12h de quinta-feira (19/09/2019) e relatou o cansaço que sentiu em um dos dias mais quentes do ano.

“Nós ficamos mais resistentes com o tempo. Mas, diariamente, a gente sobe morro, desce morro. É desgastante. Então é claro que com uma labareda de dois, três metros de altura, você sente”, contou o militar, que atua na corporação há seis anos.

Após a morte da soldado Marizelli Dias, Cardoso disse que sua família ficou ainda mais apreensiva com sua rotina de trabalho. “Mas eu falei que temos que encarar essas dificuldades e seguir em frente, claro que com as técnicas de segurança que temos”, pontuou.

Mesmo com os perigos diários, ele agradece pela profissão que escolheu. “Eu entendo que cada um tem a sua missão. Quando entrei, não sabia o que era ser bombeiro, depois que percebi a complexidade do trabalho. Vi que lidamos com vidas, e isso é algo muito gratificante”, destacou.

Questionado sobre a duração do expediente, um dos militares brinca: “Até enquanto durar o fogo”. A fala do bombeiro encontra ressonância entre os demais combatentes que se entregam às missões. Ao Metrópoles, o tenente Bessa explicou que, na época de seca, equipes têm deixado o quartel “sem previsão de horário para voltar”.

O sargento Mesquita concorda e considera o período de estiagem como “a pior época” de trabalho. “É o auge da seca. Em setembro, é um incêndio atrás do outro. Com o capim seco demais e a umidade quase a 10%, a propagação das chamas é muito rápida. A gente fica lá até apagar. Só voltamos quando somos rendidos. Mas se a gente vê que não dá conta de apagar por lá, temos que continuar.”

Todos os socorristas que conversaram com a reportagem fizeram parte de uma das primeiras equipes a deixar o quartel. Eles tinham saído da unidade cedo e retornaram apenas no início da noite, após oito horas de combate a incêndios na região do Lago Norte.

Números alarmantes

Só até a primeira quinzena de setembro, o Corpo de Bombeiros havia atendido 7.575 ocorrências de incêndio florestal. O montante resultou na queima de 10.188 hectares. Os números chamam atenção quando comparados ao total de casos computados em 2018 – 6.843. Na prática, isso significa que o DF precisou de apenas sete meses para ultrapassar, em 2,5 mil hectares, a extensão de áreas queimadas em todo o ano passado.

Segundo Bessa, as regiões de Samambaia, Planaltina e Sobradinho acumulam os maiores números de ocorrências. Neste ano, os bombeiros atenderam 531 casos de incêndio florestal em Samambaia, 480 em Planaltina e 415 em Sobradinho.

Só em setembro, o tenente relata que as equipes são acionadas para combater incêndios florestais, em média, 80 vezes por dia. No mês de julho, por exemplo, que antecede o período de estiagem, os casos eram de aproximadamente 50 por dia. Isso significa um aumento de 60% nas ocorrências durante este período.

De acordo com o militar, a maioria dos casos que a corporação tem atendido neste mês correspondem a incêndios provocados por ação humana. “Geralmente, é proposital. A pessoa que queima lixo, que queria limpar uma área e perdeu o controle. A gente sempre aconselha a não fazer isso, mas costumam ser casos assim em que o fogo se alastra bem rápido”, afirmou.

Só na primeira quinzena de setembro, aproximadamente 3 mil hectares foram destruídos pelo fogo. A área é maior que a de Águas Claras, que soma cerca de 2,7 mil hectares. A extensão de queimadas calculada pelos bombeiros apenas neste mês é maior do que a registrada em todo o ano passado, quando cerca de 3,5 mil hectares queimaram em Brasília.

A área tomada pelas chamas neste mês representa um terço do total computado no ano. Em 2019, 10 mil hectares foram destruídos pelo fogo – quatro vezes a extensão do Guará.

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