Mãe de Marizelli: “Realizou o sonho dela e da família ao ser bombeira”

Segundo Conceição Dias, a meta de vida da militar morta em serviço era entrar para a corporação: "Uma pena que aproveitou pouco"

Vinicius Santa Rosa/MetrópolesVinicius Santa Rosa/Metrópoles

atualizado 17/09/2019 18:51

Debaixo de uma chuva de pétalas, muitas lágrimas, cantos religiosos e palmas, o corpo de Marizelli Armelinda Dias, 31 anos, soldado do Corpo de Bombeiros Militar do DF (CBMDF), foi enterrado no Cemitério de Taguatinga, no fim da tarde dessa segunda-feira (16/09/2019). A emoção tomou conta das mais de 200 pessoas que compareceram ao local. A mãe de Marizelli, Conceição Dias, falou com carinho da filha — segundo ela, um exemplo na família. “Ela foi uma menina que nunca me deu trabalho. O pai faleceu quando tinha 10 anos e eu tive que criar sozinha”, lembrou.

Conceição (na imagem em destaque, de branco) afirmou que Marizelli tinha paixão pelo o que fazia. De acordo com a mãe, ser bombeira era uma meta de vida da filha. “Realizou o sonho dela e da família ao ser bombeira. Uma pena que aproveitou pouco”, disse, sempre chorando muito. Para o futuro, Conceição ainda não consegue imaginar o que fazer, principalmente em relação aos netos — Marizelli deixou um menino e uma menina. “A vida continua. Tem que continuar batalhando. Para mim, ela era tudo, mas, agora, temos que seguir sem ela.”

A militar morreu após ter sido atingida por uma árvore e fios de alta tensão, enquanto atendia a uma ocorrência de incêndio, nesse domingo (15/09/2019), na QNL 2, em Taguatinga. O governador Ibaneis Rocha (MDB) decretou luto oficial de três dias.

Agradecimento

Pouco antes de o túmulo ser fechado, a irmã de Marizelli, Mariza Dias, fez um agradecimento ao Corpo de Bombeiros. “Era a segunda família dela. Sem vocês, a gente não teria conseguido fazer nada. Agradeço do fundo da minha alma e tenho certeza que minha mãe também”, disse, emocionada.

Mariza lembrou o amor que a irmã tinha pela profissão. “Amava a todos da corporação. Passava horas pensando nas músicas para todos cantarem. Falava muito do trabalho comigo todos os dias”, lembrou. O corpo de Marizelli foi velado desde as 14h desta segunda-feira (16/09/2019), no 2º Grupamento do CBMDF, no centro de Taguatinga. Depois, os companheiros saíram em cortejo para o cemitério de Taguatinga. Durante o caminho, militares em cima dos carros do Corpo de Bombeiros jogaram pétalas de flores — gesto repetido no enterro por aeronaves da forças de segurança do DF.

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Homenagens

Ainda no batalhão, o comandante-geral do Corpo de bombeiros, Carlos Edmilson Ferreira dos Santos, se emocionou ao falar de Marizelli. “Peço a Deus que a acolha com muito carinho e a todos nós bombeiros que a gente siga em frente. Essa é a nossa missão: vida por vidas.”

Durante as homenagens, o soldado Adriano Lima, 25, que ingressou na corporação com Marizelli, conta que ela sempre foi um exemplo. “Ela ficou no mesmo pelotão que o meu. Quem conhecia a história dela sabia da dificuldade que ela passou para estar aqui. Era uma guerreira”, disse o amigo.

Adriano lembra que Marizelli era mãe de dois filhos pequenos. Por isso, tinha uma rotina pesada tanto dentro como fora do batalhão. “Era quem mais trabalhava tanto antes como depois de estar conosco. Mesmo assim, era quem cantava e animava todos nós”, lembra. Os companheiros de profissão assinaram um capacete que foi colocado no caixão, durante o enterro.

A amiga

A soldado Ana Ramirez conhecia Marizelli desde antes de as duas se tornarem militares. Elas eram amigas quando faziam cursinho preparatório para a prova do CBMDF. “Ela estava sempre alegre e disposta. Mesmo quando tinha problemas pessoais, sempre tentava ficar feliz”, lembra.

Quando as duas conseguiram ser aprovadas, continuaram juntas no mesmo batalhão. “Ela era boa com tudo e ainda ajudava os outros. Às vezes, eu ficava com medo de altura e a Marizelli que falava para seguir em frente”.

Na memória de Ana Ramirez, vão ficar as músicas que Marizelli criava. “Estava sempre empenhada. As músicas dela parece que revigoravam a energia de todo mundo. Ela dava tudo de si”.

Apuração

O governador do DF, Ibaneis Rocha, esteve presente na solenidade e lamentou o ocorrido. “Foi um caso que deixou a cidade triste. Deixa todos nós enlutados. Uma família humilde, deixa duas crianças pequenas que não sabemos qual será o futuro”, disse.

O emedebista afirmou ainda que acompanhará toda a apuração da morte de Marizelli, apesar de considerar o caso uma fatalidade. “É dever nosso aguardar todos os laudos periciais para entender o que aconteceu. Temos uma das corporações mais bem preparadas do país. E estamos empenhados para sempre oferecer a todas as corporações as condições de trabalho.”

Diante do ocorrido, Ibaneis confirmou que o DF está de luto oficial por três dias. “Esperamos que Deus conceda paz a essa família. Um evento como esse vai marcar minha vida, minha história. Quem entra nos bombeiros não entra para fazer carreira: entra por carinho e vocação”, concluiu.

O Secretário de Meio Ambiente do Distrito Federal, Sarney Filho, compareceu ao velório para dar condolências. “Sou um ambientalista e reconheço o trabalho do Corpo de Bombeiros. Minha presença aqui é pessoal e para prestar minhas homenagens”, afirmou.

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Fatalidade

Mais cedo, o comandante-geral do CBMDF, coronel Carlos Emilson, também lamentou a morte da soldado da corporação Marizelli. Ele classificou o caso como uma “fatalidade”. Segundo o bombeiro, a soldado foi integrada recentemente à corporação e tinha o treinamento necessário para o serviço, além de portar todos os equipamentos de proteção indispensáveis para a ocorrência.

“Participei da formatura dela e é difícil falar. Estava equipada e bem treinada, já que temos procedimentos rigorosos. São aquelas coisas que não dá para entender. Foi uma fatalidade”, lamentou o coronel.

O comandante informou que toda a guarnição foi atendida por um capelão, recebeu auxílio psicológico do subcomandante do Corpo de Bombeiros. Em seguida, por causa do abalo emocional, todos foram dispensados do serviço. Assim, outra companhia ficou responsável pela área de Taguatinga Norte. “É uma situação bem pesada, por mais que a gente se prepare para isso”, declarou o comandante.

Coronel Emilson afirma que todas as providências durante o socorro à Marizelli foram tomadas, o que incluiu a disponibilização de um helicóptero que acabou não sendo usado. A corporação também está dando auxílio para a família. A militar deixou dois filhos: um menino e uma menina.

Nota da CEB

Em nota, a Companhia Energética de Brasília (CEB) disse que a queda de uma árvore originou o acidente que matou Marizelli. “Não existem informações da perícia que determinem se a bombeira recebeu alguma descarga elétrica”, ressaltou. A empresa destacou ainda que, quando há algum distúrbio na rede, os equipamentos de proteção do sistema atuam imediatamente, desligando a energia.

“Assim que ocorreu o acidente, os bombeiros acionaram nossa central de operações. Estávamos com uma equipe nas imediações e essa equipe chegou no local em menos de 15 minutos, se colocando à inteira disposição para dar apoio no que fosse necessário”, assinalou o órgão.

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