Adriana Villela recebia R$ 8,5 mil de mesada dos pais à época do crime

O valor corrigido, atualmente seria de R$ 21 mil. Juiz Rogério Santos Giordano tenta detalhar questão financeira entre acusada e vítimas

atualizado 01/10/2019 12:49

Rafaela Felicciano/Metrópoles

O juiz Paulo Rogério Santos Giordano, que comanda o julgamento de Adriana Villela, busca mais informações sobre a situação financeira da arquiteta e jornalista. Ela é denunciada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) como sendo a mandante do triplo homicídio da 113 Sul. O tema financeiro é o tópico principal sendo discutido neste momento.

Nesta terça-feira (1º/10/2019), o plenário do Tribunal do Júri de Brasília está com os 224 lugares lotados — e há uma fila de espera para entrar no recinto. O magistrado perguntou se, à época do crime, Adriana recebia algum tipo de ajuda dos pais, José Guilherme e Maria Villela. Ela disse que recebia R$ 8,5 mil em dinheiro, além de ajuda com custos fixos com carro e apartamento, plano de saúde e despesas extras de viagem.

Com a correção monetária, hoje em dia, o valor seria de R$ 21 mil. “O dinheiro era muito mais que suficiente. Sempre honrei receber isso”, completou Adriana. O questionamento do magistrado se dá para completar uma dúvida anterior dele, se os pais aceitavam ou queriam que a filha assumisse uma profissão mais rentável.

“Eu vi meus pais saírem do zero. Cresci com eles e os vi fazerem concurso e conquistarem tudo o que conquistaram. Eles queriam que eu tivesse um cargo público que me desse estabilidade e fosse artística apenas como hobby. Mas eu dizia que queria ser artista e não outra coisa”, explicou Adriana.

Choro

Em uma das respostas, a acusada começou a chorar, dizendo que os pais realmente não a apoiavam na carreira escolhida. “É isso que eu tenho para oferecer para o mundo.” E disse a José Guilherme e Maria Villela: “Vocês já ganham muito mais que eu e meu irmão precisamos. Tenho alma de artista e quero ser artista”.

Durante toda a explicação, Adriana não tirou os olhos dos jurados. “Nós tínhamos um relacionamento amoroso, mas também havia conflitos. Minha mãe não gostava do jeito que eu me vestia. Nem de que discordassem do que ela dizia. Ela era frágil e insegura e se tornou forte pelas perdas que teve.”

Segundo Adriana, era comum, quando jantavam juntos, Maria Villela olhá-la de cima abaixo, com olhar crítico sobre o modo como se vestia. “Isso era motivo de discórdia. Eu só queria ser amada e respeitada pelo jeito que eu sou.”

E apontou que o texto havia sido obtido de forma ilegal. “Essa carta foi apreendida ilegalmente dentro do escritório de advocacia. Foi eu mesma que assinei para que ela pudesse ser apresentada aqui, pela acusação.”

Novamente, com olhar fixo aos jurados, Adriana se dirigiu a eles: “Espero que vocês me ajudem a mostrar o que acontece nos porões da polícia”. O juiz perguntou se ela teve alguma briga mais séria com os pais, e Adriana ela disse que, na casa, eles respeitavam as opiniões um dos outros da maneira deles.

A carta

Logo nas primeiras palavras, Adriana citou a carta usada por Mabel de Faria, então delegada de uma divisão da Coordenação de Crimes Contra a Vida (Corvida). “Toda acusação que a doutora Mabel fazia naquela época era por causa de uma carta que ela achou da minha mãe para mim, em que a minha mãe era dura comigo. Ela foi a base usada pela delegada Mabel para construir toda uma acusação falsa.”

Neste momento, o juiz Paulo Rogério Santos Giordano pediu que ela falasse mais sobre essa carta escrita pela mãe, Maria Villela. “Em 2006 [o ano da carta], eu passava por um momento ruim. Era o ano em que eu revisava a tese do mestrado, minha mãe e meu irmão me ajudavam. Eu estava com suspeita de câncer na tireoide e, em algum momento, devo ter me desentendido com minha mãe.”

Lado financeiro

Adriana também detalhou a relação financeira existente entre os familiares. “Eles sempre me apoiaram. Meus pais faziam uma poupança e nela eles não mexiam. Eles me ajudavam quando entrava outros recursos, mas nunca me inteirei disso. Porque, quanto eles ganhavam, não era assunto dos outros, somente deles. Foi muito vexaminoso para mim ter que responder quanto eu ganhava de mesada.”

Para ela, a acusação do crime de parricídio é muito mais grave do que o de homicídio. “Porque ele mancha a imagem dos meus pais e isso não aconteceu. Ninguém da minha família poderia fazer isso.”

A acusada falou sobre a pressão sofrida, à época do crime, com Mabel de Faria. A delegada era a então chefe de uma divisão da Coordenação de Crimes Contra a Vida (Corvida). “Imaginei que a doutora Mabel me levaria para a delegacia. Não foi isso que ela fez: me levou para a Colmeia, onde passei alguns dias, sem ter feito nada para isso”, contou Adriana.

“Mas não reclamo. Lá, eu fui muito melhor tratada do que na Corvida. Toda acusação que a doutora Mabel fazia naquela época era por causa de uma carta que ela achou da minha mãe para mim, em que a minha mãe era dura comigo. Ela foi a base usada pela delegada Mabel para construir toda uma acusação falsa.”

Relacionamento

Antes, neste nono dia do julgamento que já é o mais longo com um só réu na história da Justiça brasiliense, as primeiras palavras de Adriana foram sobre o relacionamento que mantinha com os pais e como eles a viam. “O meu pai e minha mãe sempre foram pessoas com as quais eu sempre pude contar e, ainda hoje, aqui, eu conto com eles. Até pelos meus advogados”, afirmou Adriana Villela.

“Certa vez, eu disse a eles que meu desejo e minha maior ambição é que meu trabalho criativo ajudasse muitos a melhorar de vida. E eu fiz isso um pouco. Até que, de repente, a vida me deu um tropeção e meus pais foram assassinados.”

De acordo com Adriana, apesar de ser “uma filha bastante rebelde”, o pai, José Guilherme, admirava isso nela. “Sem dúvida, eu devo ter desrespeitado eles algumas vezes na minha vida. Mas, especialmente quando esse crime aconteceu, a minha família vivia um momento de muita felicidade. Eu havia acabado de terminar o meu mestrado e meu pai dizia que finalmente eu estava no meu lugar.”

Filha

A filha de Adriana, Carolina Villela, que acompanha o julgamento presencialmente desde o primeiro dia, falou com a imprensa nesta terça-feira (01/10/2019). “É bom ouvir as histórias de família com detalhes. Minha mãe faz isso muito bem. Acredito que isso esclareça muito da relação familiar, que foi muito exposta e era de muito amor e muito afeto.”

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Carolina Villela, filha de Adriana, acusada de ser mandante do crime da 113 Sul

Carolina foi a primeira pessoa a abrir o apartamento e encontrar os corpos do avós e de Francisca Nascimento Silva no chão. Perguntada sobre como se recorda daquela cena, ela não quis comentar. “Às vezes, é difícil falar sobre isso. É um período muito traumático das nossas vidas, mas, graças a Deus, é um ciclo que está se fechando para a gente voltar a ter paz”, respondeu Carolina, 35 anos, agente da Polícia Civil.

Sem respostas à acusação

A defesa de Adriana Villela informou que ela não vai responder nem MPDFT nem assistentes de acusação. Foi um pedido de ordem assim que iniciou a sessão. Ela só falará com juiz, defesa e jurados. O procurador Maurício Miranda registrou protesto de que o contraditório fica prejudicado com a decisão.

Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, advogada da acusada, explicou. “Nós entendemos que a prova está pronta e ela vai responder quem tem que responder. Pra as outras partes, ela não vai responder. Pode haver tumulto e isso é ruim para o processo. Isso é uma orientação técnica”, disse

Kakay confirmou a importância desta terça-feira, uma vez que Adriana vai falar. “Ela foi massacrada durante todo esse tempo de uma forma cruel e injusta, sem nenhum fiapo de provas contra ela. Com versões desencontradas e polícias divididas além de prisão de delegada. Com uma farsa que foi o tom dessa investigação. É extremamente importante que a ré faça a autodefesa.”

Caso

Segundo a acusação, Adriana contratou Leonardo Campos Alves, porteiro do edifício onde moravam os pais, para matar os advogados e a empregada do casal, por R$ 60 mil. Ele, por sua vez, teria prometido dar R$ 10 mil a Francisco Mairlon Barros Aguiar para executar o crime. Sobrinho de Leonardo, Paulo Cardoso também foi acusado pelo esfaqueamento do trio. Os três foram condenados e estão presos.

O advogado de Adriana, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, afirmou à imprensa que os depoimentos selecionados pela acusação são “quase um ato desesperado do Ministério Público”. “Entendo que é desleal, porque deveria ter explicado minuciosamente que são depoimentos posteriores à confissão”, afirmou.

Os advogados também reproduziram algumas mídias e documentos, como um depoimento no qual o irmão de Adriana, Augusto Villela, fala à PCDF. “A Adriana tem conflitos normais com a mãe. A tônica dos conflitos não era dinheiro”, frisou. A arquiteta e jornalista é acusada de ser a mandante do triplo homicídio de José Guilherme, Maria Villela e da empregada do casal, Francisca Nascimento Silva. Eles foram mortos a facadas – 73 no total –, em 28 de agosto de 2009.

Mais lidas
Últimas notícias