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Vinicius Passarelli

"Vai envolver Milton Leite", diz em áudio suspeito de envolvimento com PCC

Milton Leite e o ex-presidente SPTrans foram alvo de mandado de prisão em operação contra infiltração do PCC no transporte público de SP

Richard Lourenço/Rede Câmara
Imagem colorida mostra Milton Leite, homem negro, grisalho, de terno preto, na mesa da presidência do plenário da Câmara Municipal, falando ao microfone com o dedo indicador em riste e olhando para sua direita - Metrópoles

Áudios anexados a investigação da Polícia Civil de São Paulo mostram pessoas apontadas como ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) mencionando o ex-presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (União), e o ex-presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira, em conversas sobre o sistema de transporte municipal da capital.

Os dois foram alvo de mandado de prisão temporária nesta quinta-feira (17/8) no âmbito da Operação Vectura Corrupta, da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo (MPSP), contra um suposto esquema de infiltração do PCC no transporte público de São Paulo.

O nome de Milton Leite é citado em áudios trocados entre José Daniel Satilite, apontado como operador e laranja do PCC, e o advogado Cícero José dos Santos Filho, também investigado por elo com a facção.

Segundo a polícia, a conversa se deu pouco tempo depois da Operação Fim de Linha, deflagrada em abril de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo. No diálogo, Daniel diz a Cícero que havia comentado com outro advogado sobre a situação da UPBus, empresa que teve o contrato suspenso pela prefeitura de São Paulo após a investigação, e diz que seria necessário envolver Milton Leite para resolver a questão.

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“Eu comentei com o doutor Milton, referente à substituição da UPBus pela nossa empresa lá. Querendo ou não, vai envolver o Milton Leite, né? Falei: ‘ah, doutor, então beleza. Qualquer coisa a gente dá um toque no Milton Leite também, né?’”, diz Daniel.

A Polícia Civil afirma no documento que, embora Milton Leite não esteja dentre os contatos de Daniel, seu nome teria surgido justamente no contexto da investigação da Operação Fim da Linha, onde foi apontado por policiais militares como o verdadeiro dono da empresa Transwolff. Tanto a empresa como Milton Leite negam o vínculo.

A investigação ainda aponta que, no diálogo com o advogado, Daniel demonstra “extrema preocupação” em dar ciência a Milton Leite dos fatos envolvendo a UPBus. No mesmo diálogo, Daniel diz que, antes de efetivar uma eventual troca de empresas, teriam que “iniciar a conversa com o ‘Levi da São Paulo Transportes’.

“Referente lá ao Levi, da São Paulo Transportes, o Lima tá indo lá. Na primeira reunião. Vamos ver o que que vai dar. Eu acho que vai envolver Milton Leite, o pessoal todo”, diz outro trecho captado pela polícia. “Vai ter que esperar iniciar a conversa lá com o Levi lá da SP Transporte”, diz outro trecho.

Milton Leite e a defesa de Levi dos Santos foram procurados para comentar sobre os áudios. O espaço segue aberto para manifestação.


Operação Vectura Corrupta

  • Deflagrada peplo Ministério Público de São Paulo (MPSP) e pela Polícia Civil nesta quinta-feira (17/9), a Operação Vectura Corrupta mira um esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) com empresas de transporte público no estado.
  • Ao todo, as autoridades cumprem 16 mandados de prisão e 18 mandados de busca e apreensão. Entre os alvos, está o ex-presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (União).
  • A operação desta quinta-feira é um desdobramento de outra operação, deflagrada em agosto de 2024 e batizada de Decúrio. Na ocasião, as autoridades identificaram uma rede de comunicação entre integrantes da PCC e trocas de mensagens sobre a atuação do grupo.
  • A investigação cita a “contaminação, pelo crime organizado, de empresas de transporte coletivo de passageiros na Capital e no interior”. No município de São Paulo, ao menos 12 das 22 empresas de transporte coletivo seriam, em tese, controladas pelo PCC.
  • Essa infiltração, segundo as autoridades, ocorria por meio de uma estrutura organizada que combina o uso de empresas de fachada, direcionamento de licitações, apoio político e lavagem de capitais.
  • Os criminosos também utilizariam os sócios formais das concessionárias e empresas de ônibus como “laranjas” para ocultar os verdadeiros proprietários das empresas, que seriam integrantes do PCC. Além disso, o grupo também teria promovido ajustes prévios para direcionar licitações e obter contratos emergenciais em diversos municípios. Há registros de acordos para que as empresas passassem a ser administradas por membros da facção logo após vencerem as licitações, mediante repasse de propinas a agentes públicos.

O que dizem os envolvidos

Segundo Milton Leite, as alegações apresentadas pela polícia sobre encontros com Oliveira, ex-SP Trans, tinham relação com o período em que ele, então presidente da Câmara de Vereadores, assumiu interinamente a cadeira de prefeito da capital. Ele nega qualquer envolvimento com o PCC.

“Eu me reunia porque era vice-prefeito e eu tive essa designação pelo Bruno Covas, em resolver a questão dos transportes”, declarou.

O ex-vereador reforçou que irá se apresentar nas próximas 24 horas: “Eu vou me apresentar, eu pedi 24 horas para poder me apresentar. Não estou me escondendo não”, afirmou.

A defesa de Levi dos Santos Oliveira afirmou que foi surpreendida com a notícia da prisão e que aguarda acesso aos autos para adotar as medidas cabíveis.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirma que a intervenção determinada na empresa Transwolff, em abril de 2024, foi uma medida para proteger o sistema municipal de transporte.

Na mesma ocasião, a administração municipal também determinou a intervenção na UPBus, “mesmo sem qualquer solicitação da Justiça”. A administração municipal diz que sempre agiu com rigor, inclusive encerrando contrato a fim de preservar o interesse público e garantir que a população não fosse prejudicada.

Também em nota, a Câmara Municipal de São Paulo disse acompanhar os desdobramentos das investigações promovidas pelo MPSP, em conjunto com a Polícia Civil e o Poder Executivo, e aguarda as conclusões.

O Metrópoles aguarda um posicionamento do União Brasil. Além disso, busca a defesa dos demais alvos da operação. O espaço está aberto para manifestação.