Eleição 2026

Paulo, o Apóstolo, já explicou por que inexiste o candidato “nem-nem”

Paulo diz que o som da flauta não pode se confundir com o da cítara, ou todos se confundem. Os que se querem da terceira via o são de fato?

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Reprodução
Imagem de A Conversão de São Paulo, de Caravaggio
1 de 1 Imagem de A Conversão de São Paulo, de Caravaggio - Foto: Reprodução

Até agora, a possibilidade de haver um nome “nem-nem” na disputa eleitoral, como, à primeira vista ao menos, parece ser a pretensão de Gilberto Kassab, presidente do PSD, e de parte considerável do que chamo de “extremismo de centro”, “flopou”, deu errado. E por quê? Acho que temos de pensar a respeito. Na essência, a direita que se pretende democrática se tornou uma fraude real e conceitual. Preciso de algumas digressões aproximativas. E terminarei este texto com a Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios.

Polarização uma ova!

Poucas coisas me soam tão aborrecidas como a tese da “polarização” e a afirmação, que costuma vir em tom de censura, de que tanto Lula como Jair Bolsonaro apostaram na dita-cuja para impedir a renovação do processo político e manter intocados seus respectivos feudos. Vamos ver. Desconheço político, porque iria contra a natureza — talvez até a humana, mas disso não estou certo, e esta é uma ironia —, que declare a própria obsolescência, ainda que ela exista. Por que Lula e Bolsonaro pegariam o seu banquinho, como num quadro do antigo programa de Raul Gil, e sairiam de mansinho? Quem faz isso? Ademais, vale a máxima que circula por aí e que já encontrei num boteco de periferia: “Quem não tem competência não se estabeleça”.

Lula, por acaso, proibiu a emergência de algum nome progressista ou do centro democrático? A questão é outra: quem poderia ombrear com ele no terreno em que transita hoje? Vocês verão que Fernando Haddad, ministro da Fazenda, vai bem numa simulação nacional. Coloquem-se, no entanto, no lugar do líder petista e dos próceres do seu partido: alguém abriria mão de um pré-candidato com 25% na votação espontânea e 39% na simulação mais provável de primeiro turno? E que bate todos os possíveis adversários no segundo? Com a devida vênia, a política é diferente de uma brincadeira de roda.

Cadê a direita democrática?

Vamos para o outro lado da linha. Cadê a direita democrática? Escrevi aqui no sábado por que cravei, no dia 7 de julho do ano passado, que Jair escolheria um Bolsonaro para ser não apenas o seu candidato à Presidência, mas o seu sucessor na extrema direita. Parecia uma insensatez analítica, contra todas as probabilidades. E, no entanto, era a única coisa realmente óbvia. Já escrevi qual foi a leitura a que procedeu a família e que fazia todo o sentido do seu ponto de vista. Fosse eu um Bolsonaro, leitor — por mais que possa achar apavorante a suposição —, e teria feito a mesma coisa. E ouso dizer que você seguiria o mesmo caminho, qualquer que seja a sua posição ideológica.

A minha questão, neste ponto da análise, se volta para os pré-candidatos a candidatos “nem-nem”. Pergunto: eles realmente tentaram construir uma alternativa ao bolsonarismo? Esforçaram-se para se mostrar diferentes? Acenaram para outras prefigurações, para um outro futuro, para outra perspectiva? Deixaram claro, por exemplo, que a questão da democracia é inegociável e que não há espaço, e isso deveria ser escandalosamente óbvio, para o golpismo?

A resposta, infelizmente, é não.

Quantas chances deu Bolsonaro à direita democrática?

Não é preciso que vocês suponham que não vejo virtudes em Jair Bolsonaro. Não vejo. Mas se lhe reconheça a, como chamarei?, sinceridade ideológica. Contra ele se pode dizer tudo, menos que tenha escondido o que pensa. Jamais! Da defesa do fuzilamento de 30 mil, incluindo Fernando Henrique Cardoso, a espancar um filho gay — “e, se o filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um couro, e ele muda o comportamento dele” —, o homem disse tudo e mais um pouco. No auge da abjeção asquerosa, tratou o estupro como matéria de “merecimento”, mas não aplicável às mulheres feias… Faltou o quê?

Na Presidência, durante a pandemia, disse o que disse e fez o que fez. Foi o STF — sempre ele, o hoje malquerido… — a garantir a vacinação e o distanciamento social, ou o flagelo de 693 mil mortos por Covid-19 até dezembro de 2022 teria assumido uma perspectiva muito além da bíblica… Diante da perspectiva da derrota eleitoral, enfiou goela abaixo do país duas PECs inconstitucionais, que estouraram as contas públicas, e largou o buraco para quem o sucedeu. Não aceitando a derrota certa, tramou um golpe de Estado. O acontecimento mais espalhafatoso, mas não o mais grave, deu-se no dia 8 de janeiro de 2019.

Santo Deus! Quantas foram as chances que teve a direita democrática, em existindo, de se distanciar de Bolsonaro? Se todo o horror que se viu no período de enfrentamento da pandemia não lhe pareceu o bastante — “Aqui todo mundo vai morrer; não adianta fugir disso, fugir da realidade; tem que deixar de ser um país de maricas” —, houve as evidências da tentativa golpista, o 8 de janeiro, tudo o que se revelou depois…

Essa tal direita buscou se reinventar, afastar-se do capitão, evidenciar que era mesmo outra coisa, que não condescendia com a barbárie? A resposta é escancaradamente “não”!

O Deus que vela pela ideologia conservadora — uma fantasia, claro!; houvesse, seria o ranzinza do Velho Testamento, não o do “Jesus Cristinho” de Manuel Bandeira — mandou um outro barco para a direita democrática, se ela existisse: as tarifas de Trump, com a punição imposta aos ministros do Supremo pelo governo dos EUA. Que chance fantástica, não? Enquanto os Bolsonaros aplaudiam o presidente norte-americano, os governadores Ratinho Jr. (PR), Ronaldo Caiado (GO) e Eduardo Leite (RS) tiveram a chance de fazer a diferença. E até poderiam ter dito: “Não gostamos de Lula, mas o que Trump faz é inaceitável; isso prejudica os brasileiros.” Até Silas Malafaia passou uma carraspana em Eduardo Bolsonaro. Mas não esses senhores. Romeu Zema (MG), que se pretende mais bolsonarista do que Flávio, tampouco. Preferiram atacar Lula. O mesmo fez Tarcísio de Freitas (SP), que ainda apostava que seria o ungido. Foi além: recomendou ao presidente brasileiro que cedesse primeiro e negociasse depois. Leite foi mais discreto, mas fugiu da assertividade contra a aberração trumpista.

Resultados são explicáveis

Voltemos à tese estúpida da polarização. Lula pode escolher o que ele próprio pensa e tem grande influência nas escolhas de seu partido. Os Bolsonaros fazem o seu jogo quando exibem consciência do capital eleitoral que têm e se impõem no PL e na extrema direita. Ora, por que, então, existindo uma direita democrática, ela não buscou se diferenciar do bolsonarismo? Ao contrário: rendeu-se. Ou não vimos os peessedistas Ratinho Jr. e Caiado e o “novista” Romeu Zema a defender, por exemplo, a anistia a Bolsonaro? No fim das contas, acabam por apoiar os mesmos valores, embora se queiram, sei lá como escrever, “mais limpinhos”… A isso chamei no passado de ambição de se ter um “bolsonarismo sem Bolsonaro”. Ora, o capitão e seus filhotes perceberam: “Querem os nossos votos, mas pretendem se mostrar moralmente superiores a nós”. Não colou.

Gráfico com simulações de março para a eleição presidencial de 2026 - Metrópoles

No cenário mais provável de primeiro turno testado pelo Datafolha, Lula (PT) aparece com 38% das intenções de voto; Flávio (PL), com 32%; Ratinho Jr. (PSD), com 7%; Romeu Zema (Novo), com 4%; Renan Santos (Missão), com 3%, e Aldo Rebelo (PDC), com 2%. Não quero que ninguém fique chateado comigo, mas o empate técnico até de Ratinho com Santos beira a humilhação. Quando aparecem na simulação, Caiado e Leite têm, respectivamente, 4% e 3%. O Missão é o partido do MBL. O movimento é forte e muito organizado nas redes, mas não dispõe de um governo de Estado, por exemplo. É inequivocamente de direita, navega nas águas do antissistema, é estridentemente antilulista e antipetista, mas teve a prudência, até onde acompanhei, de se opor à anistia para Bolsonaro, embora a tenha defendido para os demais presos do 8 de janeiro — que, de fato, são bem poucos.

Por que lideranças que dispõem de máquinas políticas consideráveis empatam com o nome de um partido recém-criado, ainda que de um movimento robusto? Ousaria dizer que é porque as diferenças tornadas públicas entre o MBL e o bolsonarismo — por menos que se possa gostar do “Missão” — conseguem ser mais claras em pontos específicos do que aquelas exibidas, por exemplo, pelos nomes do PSD ou por Zema. Não se trata de um elogio ao Missão, mas de um juízo certamente demeritório àqueles que se apresentam como “nem-nem” sem que o sejam. De fato, eles estão e um dos lados — e um dos “nens” é, pois, falso.

Segundo turno

Simulação de segundo turno de março para as eleições presidenciais

“Ah, mas veja o segundo turno… Lula empata, na margem de erro com Flávio (46% a 43%) e também com Ratinho Jr. (45% a 41%)”. É o antipetismo/antilulismo que eleva a esse nível a votação do governador do Paraná. Ocorre que só disputa o segundo turno quem passa pelo crivo do primeiro. E ninguém prende a mão dos eleitores com as algemas da tal “polarização” para impedir que escolham uma alternativa. Acontece que 32% querem, de cara, o bolsonarismo-raiz quando escolhem o filho do ex-presidente já na primeira jornada. A direita que pretende ter uma identidade não bolsonarista teve oportunidades verdadeiramente espantosas de mostrar a que veio. E não mostrou. E não mostra. Deveria ter tido a coragem de combater a barbárie, inclusive institucional, mas preferiu se aliar a ela. Deixou-se fagocitar.

Há um dado na pesquisa Datafolha a que se deve ficar atento. O teto de Lula no segundo turno, nesta simulação de fevereiro ao menos, é de 46%. O de Flávio é de 43%. É o percentual que obtém o dito “Zero Um” contra o atual presidente e também contra Fernando Haddad se este viesse a disputar, o que só aconteceria em hipóteses escalafobéticas. O ministro da Fazenda é menos conhecido do que o presidente, e nem por isso Flávio cresce.

Também isso reforça que a dita “polarização” que tanto enche de horror certos setores da análise política é, sim, uma imposição. Mas é uma imposição de Sua Majestade o Eleitor.

Paulo, o Apóstolo dos Gentios

Ora, para que o eleitor possa escolher, então, produtos diferentes da gôndola ideológica, é forçoso que haja a oferta de… produtos diferentes. Se essa linguagem parece excessivamente reificadora para tratar de eleição, a gente pode apelar à Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios (e aos corintianos, sempre… Vai, Curíntia!):

“Da mesma sorte, se as coisas inanimadas, que emitem som, seja flauta, seja cítara, não formarem sons distintos, como se saberá o que se toca com a flauta ou com a cítara?
Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha?
Assim também vós: se, com a língua não pronunciardes palavras bem inteligíveis, como se entenderá o que se diz? Porque estareis como que falando ao ar.”

Paulo, o Apóstolo dos Gentios, explicou por que inexiste terceira via ou candidato nem-nem.

Os que assim se pretendem dizem não tocar nem cítara nem flauta. E isso já seria ruim.

Mas a verdade é que tocam flauta para Bolsonaro e para o bolsonarismo.

A tragédia, então, se rebaixa como farsa.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?