Reinaldo Azevedo - Colunista

Flávio empatado com Lula: erros essenciais da análise e dos políticos

Datafolha: se a eleição fosse hoje, o presidente teria 46% das intenções de voto, e o dito “Zero Um”, 41%: dois erros essenciais de leitura

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Arte Metrópoles
Montagem com fotos de Lula e Flavio Bolsonaro - Metr[opoles
1 de 1 Montagem com fotos de Lula e Flavio Bolsonaro - Metr[opoles - Foto: Arte Metrópoles

Pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (7/3) pela Folha aponta um empate técnico no segundo turno entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) e entre o petista e Ratinho Jr. (PSD) se a eleição fosse hoje: 46% a 43% na primeira hipótese e 45% a 41% na segunda. Nota: o governador do Paraná teria de passar pelo filtro do primeiro turno, o que hoje não se afigura possível. Foram ouvidas presencialmente 2.004 pessoas entre os dias 3 e 5 deste mês, com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos.

Também com Tarcísio de Freitas (Republicanos), o resultado fica na margem — 45% a 42% para o petista —, mas o governador de São Paulo não vai disputar a Presidência. O dado mais importante da pesquisa: não há chance de outro nome substituir o dito “Zero Um”: com qual argumento? De saída, note-se: os números remetem a evidências que eu diria estruturais — e que expõem alguns erros clamorosos de analistas e autoenganos perigosos de políticos — e a outras que são conjunturais. Lembre-se: a conjuntura que concorre para plasmar conceitos e que dura no tempo vira estrutura. Tratarei neste primeiro texto sobre a pesquisa das questões estruturais. Vamos ver.

A primeira evidência estrutural

No dia 7 de julho do ano passado, escrevi um texto no UOL intitulado O ‘Projeto Tarcísio’ traduz a ambição de ter um bolsonarismo sem Bolsonaro. Sustentei ali, contra tudo que parecia ser óbvio e contra um verdadeiro aluvião analítico tarcisista que o candidato de Jair seria alguém que carregasse seu sobrenome. Sintetizei:

“Não quero chocar ninguém, mas o fato é que, havendo um Lula eventualmente vitorioso contra um Bolsonaro qualquer, o clã seguirá liderando a oposição. No caso do triunfo de Tarcísio contra o petista, o capitão seria apenas o segundo em Roma. Depois de algum tempo, isso valeria muito menos do que ser o primeiro numa vila”.

No dia 4 de novembro, Eduardo Bolsonaro afirmou no podcast “Market Makers”: “Quem vai ser o candidato [de Bolsonaro], eu não sei, mas eu também vejo vitória na derrota (…) Ainda que viesse a perder, nós conseguiríamos manter acesa a chama do conservadorismo.”

Sobre a candidatura de Tarcísio, ponderou o autoexilado, alimentando o discurso antissistema:

“De fato, existe o projeto do establishment, que quer enterrar o Bolsonaro e o bolsonarismo, para colocar adiante um candidato que seja pintado de direita (…) Qual é o secretário conservador, qual é o secretário bolsonarista do governador Tarcísio de Freitas? O Tarcísio sendo eleito, isso seria uma vitória da direita? Não. Isso daí é visto com bons olhos pelo pessoal da Faria Lima por causa da gestão do Tarcísio (…)”

Convenham: Eduardo vendeu o que não pode entregar sobre o tratamento que Trump dispensaria ao Brasil e chamou para si a responsabilidade do tarifaço e da punição a ministros do Supremo, o que trouxe, sim, contratempos para o seu grupo e deu a Lula a oportunidade de fazer o óbvio: falar em nome da soberania. Mas é sempre errado apostar na sua burrice, não?

Sua estratégia manteve a sucessão da extrema direita ao menos nas mãos da família — se vai levar também a presidencial, isso é o que se vai ver. Onde muitos viram a sua derrota, vi a sua vitória. E ninguém tem o direito de duvidar de que abomino os valores que essa gente encarna. Mas não costumo chamar de idiotas aqueles de quem discordo simplesmente por discordar deles. Ele venceu a parada ao não entregar o bastão do reacionarismo a Tarcísio para que este o usasse em benefício da própria glória.

Quando escrevi o texto de 7 de julho, amigos me mandaram mensagens: “Tá maluco? Tem acompanhado as andanças de Tarcísio pela Faria Lima?” Respondi assim a uma delas:

“Pior para ele. Se preciso, o bolsonarismo que pensa, ainda que coisas vis, cola esse pessoal a Fernando Haddad. A turma da Faria Lima serve para governar, não para fazer campanha”.

A segunda evidência estrutural

Nunca achei, pois, que Tarcísio seria o candidato de Bolsonaro. E, como costumo dizer e afirmei no aludido texto de julho, quem me contou isso foi Mary Shelley em Frankenstein: criaturas são toleradas pelo criador, mas não para tomar o seu lugar ou para disputar os seus espaços. Não por acaso, citei em meu primeiro texto neste Metrópoles a peça Júlio César. Na história e no drama shakespeariano, César estava embevecido demais com a própria obra para perceber uma conspiração. Que se saiba, Bolsonaro só leu até hoje a autobiografia do torturador Brilhante Ustra, mas há outros mais versados a seu redor. Eduardo, por exemplo, está muito longe de ser uma anta nas péssimas ideias que prodigaliza. Assim, vamos para o segundo engano no qual, bem…, nunca incidi.

Sempre considerei uma tolice — já escrevi e deixei registrado em dezenas de vídeos — a suposição de que vencer Flávio no segundo turno seria como “Ver o Sol amanhecer/ E ver a vida acontecer/ Como um dia de domingo”. Não! Isso é música da dupla de craques Sullivan e Massadas nas vozes de Gal e Tim. Inexiste candidato fácil com nome “Bolsonaro”. Até o Jair Renan poderia dar algum trabalho. O fato de eu achar que isso expressa parte considerável dos erros cometidos pelas elites políticas brasileiras — de todos os matizes, note-se — e pode implicar um desastre civilizacional não me leva a negar a realidade. Qualquer um que contasse com a anuência do ex-presidente seria necessariamente competitivo.

Não se pode contar hoje a história que não houve nem um dia a que não haverá. Há as conjecturas. Alinho-me entre aqueles, e voltarei ao ponto em outros textos, que consideram que Tarcísio poderia ser, sim, um nome mais difícil de Lula roer — na hipótese de não ser roído pelo adversário: galvanizaria do mesmo modo o antipetismo; teria não apenas trânsito, mas o apoio explícito (ainda que meio envergonhado), da mídia; criaria ondas de entusiasmo no empresariado que acabariam ganhando tração popular e teria um ativo (ou passivo…) de explicações a dar muito menor do que o de Flávio: rachadinha, Fabrício Queiroz, Adriano da Nóbrega, a incrível loja de chocolates; o controle que ele (o senador) efetivamente tem da “insegurança pública” do Rio…

Mas daí a considerar que se devora Flávio com a facilidade com que se consome uma caixa de “Língua de Gato” da Kopenhagen, bem, vai uma grande diferença.

Este texto tratou de enganos, desenganos e incompreensões que chamei “estruturais”. Há as questões de conjuntura. Elas também não sorriem para os progressistas. Você, a exemplo deste escriba, não gostaria de ver a extrema direita de volta ao poder? Então as notícias não são boas para nós. Na verdade, são péssimas.

De toda sorte, reconhecer o problema é sempre o primeiro passo para buscar a resposta adequada. Já se errou bastante até aqui.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?