Reinaldo Azevedo - Colunista

Ainda Lula X Flávio: clima de caça à corrupção atua contra “statu quo”

Dafafolha: Números de Lula na pesquisa e avaliação do governo não são ruins, mas “metafísica influente”, hoje, colabora com a oposição

atualizado

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Gráfico mostra aprovação do governo Lula - Metrópoles
1 de 1 Gráfico mostra aprovação do governo Lula - Metrópoles - Foto: Arte/Metrópoles

Dados os números do Datafolha, Lula (PT) é o favorito para vencer a disputa eleitoral deste ano, ainda que a diferença em relação a Flávio Bolsonaro (PL) tenha caído de 15 pontos em dezembro — 51% a 36% — para três agora: 46% a 43%, o que caracteriza empate técnico, já que a margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos. Jair havia acabado de definir o seu sucessor na extrema direita, e a transferência de, digamos, prestígio ainda estava em curso. Agora se consolidou. O presidente tem de se preocupar é com os cinco pontos que perdeu — e a tendência de queda se mostra também na simulação com outros nomes.

Mar de acusações de “statu quo”

Pode-se encontrar uma penca de razões para isso. A principal, parece-me, antecipei num texto no UOL no dia 14 de janeiro, quando os números eram mais sorridentes ao petista:

“O segundo erro importante que o governo pode cometer, com a eleição tão perto — e, portanto, tão longe — pode decorrer da certeza de que os adversários estão de tal sorte desarticulados que bastam bons resultados na economia para obter o reconhecimento do eleitorado, pouco importando as turbulências que vêm pela frente no Congresso, no Supremo, em qualquer parte. (…) Em primeiro lugar, não estão. Adicionalmente, noto que desconheço na história política — se houver, façam o favor de me lembrar — movimentos de instabilidade que joguem a favor do ‘statu quo’. Sempre acontece o contrário.”

Thiago Prado entrevistou o cientista político Alberto Carlos de Almeida no Globo deste sábado. Indagou quem mais sai perdendo com o caso Master. Almeida responde:

“O Lula. O Caso Master atinge o sistema como um todo e, hoje, quem simboliza tudo isso é o presidente, e não o Jair Bolsonaro e o seu filho. O escândalo reforça percepções como ‘todo político é ladrão, nada muda no Brasil’. As denúncias no INSS vão pelo mesmo caminho, é tudo ruim para o governo. Agora, ainda não é possível dizer que corrupção será o grande tema da eleição. Teremos que ficar atentos naquela pergunta típica das pesquisas: ‘Qual a sua maior preocupação?’. Esse dado oscila. Em 2005, por exemplo, o mensalão durou como escândalo que impactou a avaliação do Lula de meados do ano até novembro. Depois, o presidente passou a recuperar a popularidade e venceu a eleição.”

Discordo de algumas leituras que ele faz no curso da entrevista e endosso outras tantas. O que vai acima me parece exato, ainda que eu possa achar o resultado injusto. Coincide, como se nota, com o que eu mesmo havia afirmado em janeiro. A imprensa chegou primeiro ao escândalo do INSS por intermédio de uma série de reportagens deste Metrópoles, e é inegável que a Controladoria Geral da União e a Polícia Federal partiram para cima dos fraudadores. O dinheiro descontado está sendo devolvido. Gabriel Galípolo, presidente do BC, e o ministro Fernando Haddad (Fazenda), nesta gestão, estão na raiz da liquidação do Master, e há a investigação de natureza criminal conduzida pela mesma PF que pediu, e obteve, a quebra de sigilos de Fábio Luiz da Silva no outro caso citado, ainda que inexista evidência, até agora, de que tenha ligação com os descontos ilegais.

“Agitprop” e história

Ocorre que a extrema direita tem sido mais competente no trabalho de “agitprop” — de agitação e propaganda — nas redes. Lista escândalos que marcaram gestões petistas, como os ditos “mensalão” e “petrolão”, que, ora vejam!, foram investigados por… gestões petistas. E com autonomia — palavra, note-se, que não pode ser empregada para designar a Lava Jato. O que se viu ali foi uma série de aberrações e desmandos, que resultaram na condenação do próprio Lula. Até hoje o agora senador Sergio Moro (União Brasil-PR) não revelou em quais páginas de sua sentença estão as provas contra o líder petista. Nem poderia. Elas não existem.

O atual presidente certamente não diria o que disse Jair Bolsonaro em reunião ministerial no dia 22 de abril de 2020, referindo-se à PF, na qual interveio, como denunciou o próprio Moro ao pedir demissão do Ministério da Justiça dois dias depois:

“E me desculpe: os serviços de informações nossos são uma vergonha! Uma vergonha! Que eu não sou informado. Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. Isso acabou! Eu não vou esperar f…rem. minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar!”.

E trocou! Inclusive o ministro. Controlou de tal maneira seu aparato de “segurança” que divide agora a Papudinha com Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, e Silvinei Vasques, ex-diretor da PRF. Alexandre Ramagem, ex-chefão da Abin, está foragido, e seu chefe, general Augusto Heleno, em prisão domiciliar… É bem verdade que essa plêiade de patriotas encontrou o seu destino porque tentou dar um golpe de Estado e foi contida pelo Supremo, ora tragado pelo olho do furacão, o que obviamente ajuda a alimentar a farsa de que tudo não passou de uma tramoia conspiratória contra o “capitão”.

A política como mar de lama

A política como “mar de lama” é uma tentação permanente no discurso da extrema direita: Carlos Lacerda em 1954; o golpe militar em 1964; o “contra tudo o que está aí” de 2013 a 2017, com a Lava Jato servindo de alavanca a partir de 2014. Os resultados são conhecidos. A título de ilustração: o AI-1, primeiro ato formal da ditadura militar, de 9 de abril de 1964, anunciava destinar-se a “assegurar ao novo governo a ser instituído os meios indispensáveis à obra de reconstrução econômica, financeira, política e moral do Brasil (…)”. Sempre a restauração moral!!! Lula sobreviveu ao tsunami noticioso do mensalão, reelegeu-se e elegeu Dilma. Ela foi tragada, na prática, pelo lavajatismo, ainda que sem acusação nenhuma de corrupção.

“Então progressistas não deveriam combater a corrupção?” Que bobagem! Ora, estou demonstrando que se fez justamente o contrário. Inexistem evidências de que Lula tenha interferido no trabalho regular da PF em seus três mandatos ou de que Dilma o tenha feito em seu mandato e meio. Bolsonaro, ele sim, quis e obteve o controle do que chamou, genericamente, de “serviço de informações”, para que, declaradamente, ninguém “f…sse” seus filhos e seus amigos.

Ocorre que o enfrentamento da corrupção tem um custo político junto a aliados encrencados que é, obviamente, explorado pelos adversários e cobra seu preço também em prestígio popular.

Situação de Lula e metafísica influente

É provável que se registre alguma surpresa na “rua petista” com o desempenho de Flávio. Na cúpula do partido, não. Havia, sim, alguns inocentes que achavam que, passado “o risco de Tarcísio, o resto é fácil”. Tratei do tema no texto anterior. Se o presidente tem motivos para se preocupar com a queda na pesquisa e com a ascensão de Flávio, este, por sua vez, deve estar sendo convidado a convir que a resiliência de Lula impressiona. A tal ala das “famílias enlatadas” da Acadêmicos de Niterói certamente não colaborou para elevar o prestígio do presidente — ainda que a maioria possa reprovar a abordagem —, mas creio ser apenas residual o efeito do conjunto de episódios.

A “metafísica influente”, para empregar uma expressão de Umberto Eco — as duas grandes investigações em curso e o STF tragado por uma delas — joga, evidentemente, em favor da “narrativa” da extrema direita. Ela pode fazer aqui o que faz mundo afora: apresentar soluções simples e erradas para problemas difíceis. A resposta dos progressistas e dos conservadores realmente democráticos — hoje, não lotariam uma Kombi, no tempo em que havia Kombis — é sempre de mais difícil compreensão. Exemplos rápidos? Vamos conter a violência? Pois não! Penas maiores e pilhas de corpos. Simples, não? E errado. Há problemas no Supremo? A resposta é fazer maioria no Senado para impichar ministros. Simples, não? E errado. É preciso cortar gastos? Congelem-se mínimo e aposentadoria e se passe a faca em Saúde e Educação. Simples, não? E errado. É claro que essa última “solução” não será apresentada em campanha…

Avaliação do governo e de Lula

A avaliação do governo no Datafolha variou dentro da margem de erro. É considerado ótimo ou bom por 32% dos entrevistados, mesmo índice de dezembro. Dizem ser ruim ou péssimo, 40%, ante 37% na jornada anterior. O regular caiu de 30% para 26%, e resta evidente, pois, que a diferença migrou para o juízo negativo. Não custa notar: “regular” não é expressão de hostilidade. Há 58% que tendem a aprovar o governo, embora 26% o façam com restrições. Isso que escrevo se traduz na apreciação que faz o eleitorado do trabalho de Lula propriamente: em dezembro, era aprovado por 49% e reprovado por 48%, agora, respectivamente, 47% e 48%, variando na margem de erro. Pode não ter acontecido nada, o que evidencia que episódios momentosos, como o Carnaval, tiveram efeito não mais do que residual.

Comparar esse desempenho com seus mandatos anteriores não faz sentido. O Brasil é outro; a arena dos debates sofreu uma alteração drástica; a relação do Congresso com o Executivo é hoje mediada por emendas impositivas (até as que não o são no papel o são na prática); a direita realmente democrática é quase uma abstração, e a extrema direita que aposta na desinstitucionalização saiu do armário — ou do bueiro, como queiram. Vocês encontram os dados com facilidade: Lula é dos governantes mais bem-avaliados em regimes democráticos.

Foco da campanha

Ajustar o foco da campanha é sempre importante. Desta vez, mais do que das outras. A primeira eleição de Lula mirou na ”esperança contra o medo”; a segunda, nos feitos econômicos, o que se repetiu na campanha de Dilma I e, com menos sucesso, na seguinte. O Bolsonaro de 2018 tinha a seu favor o aluvião de 2013 a 2018, com a Lava Jato servindo de cabo eleitoral. O Lula de 2022 era a voz da institucionalidade contra o método de governar pelo caos.

Escreverei um texto específico a respeito das campanhas. Antecipo alguma coisa: à diferença de parcela considerável da crônica política, acho que a avaliação que se faz do governo não é compatível com a qualidade da gestão. Mas a voz que conta é a de Sua Excelência o Eleitor: ao incumbente caberá, por óbvio, jogar ainda mais luzes sobre os seus feitos e indagar o oponente sobre suas prefigurações: o que quer para os brasileiros, em especial para aqueles que mais dependem de políticas públicas. Por mais que o filho, Flávio, reproduza as características do pai, o “mito” não é ele. Jair perdeu a eleição como incumbente, o único a lograr tal feito depois da instituição da reeleição, e Lula a venceu com o PT isolado, depois de 580 dias na cadeia, condenado sem provas. As circunstâncias históricas parecem favoráveis ao petista.

Flávio terá de se equilibrar entre ser e não ser o pai. Tem de sê-lo para manter a ordem unida, mas não a ponto de antecipar instabilidade institucional — o que, note-se, ele já prometeu fazer. Em eventos para a sua própria grei, carrega no discurso reacionário. Em ambientes mais, digamos, elevados, tenta ser a versão um tanto caroável daquele que lhe deu vida também política. Qualquer que seja o resultado, tudo o mais constante dentro de um orbital de inconstância — vale dizer: exceção feita a eventos formidáveis —, a margem do vitorioso será mais uma vez muito estreita.

“Assim é por causa da polarização, Reinaldo?” Esse é o conceito mais influente e mais estúpido que sequestrou a análise política no Brasil. Mas isso fica para outro artigo. Neste momento, ficamos com Gregório de Matos:

“Começa o mundo enfim pela ignorância,/
E tem qualquer dos bens por natureza/
A firmeza somente na inconstância.”

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