Reinaldo Azevedo - Colunista

Lula: multilateralismo ou barbárie. A melhor de 3 gestões e ainda Marx

Discurso anti-Lula é disco riscado do tempo da abolição, da República Velha, do suicídio de Getúlio, do golpe de 64, da prisão do petista…

atualizado

metropoles.com

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No tempo em que ainda havia toca-discos, havia também… os discos. E eles poderiam estar riscados, hipótese em que a agulha da vitrola (!!!) saltava sempre para a mesma fenda do sulco. Presa àquele obstáculo, ela poderia repetir infinitamente tal movimento se não houvesse uma intervenção, o que condenava o ouvinte a escutar, em “looping”, o mesmo fragmento da música eternidade afora, só perdendo para João Gilberto a ensaiar “O Pato”, isolado com Tom Jobim num sítio em Poço Fundo, como conta Ruy Castro em “Chega de Saudade: a história e as histórias da Bossa Nova”. A obsessão deveria ser um dever moral… Adiante.

Análises políticas podem ser como LPs (!!!) arranhados, sempre voltando ao mesmo lugar, ou mais repetitivas do que o “qüém-qüém” de João, mas não por amor à técnica e sim por preguiça intelectual ou adernamento ideológico. Resgatei o trema, como viram, de antes da reforma ortográfica feita sem minha autorização…

FIGURINHA REPETIDA
Uma metáfora destes dias pré-Copa: não existe figurinha mais repetida hoje em dia do que afirmar que Lula se tornou inatual. Seus programas seriam velhos — vocês sabem: essas “bobagens” como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e Farmácia Popular —, e ele viveria preso ao passado, tentando enxergar uma classe operária que já não existe mais.

Os metidos a sabichões, contaminados por uma corruptela de marxismo — não sabem disso porque supinamente ignorantes para entender a genealogia dos fragmentos que espalham —, inferem que ele próprio criou as condições de sua obsolescência justamente com programas que integraram um pedaço dos pobres à classe média (a brasileira ao menos), e esta, bem…, é conservadora. Assim, o líder petista teria gerado os termos de sua própria superação.

LERAM MARX? CLARO QUE NÃO!
Os mais otimistas poderiam até supor que esses bacanas se dedicaram ao texto “Tendência Histórica da Acumulação Capitalista”, de Marx, parte do Capítulo XXIV do Primeiro Tomo de “O Capital”, intitulado “A Chamada Acumulação Primitiva”, em que o autor desenvolve o conceito da “negação da negação” — página 825 do primeiro volume na espetacular edição da Civilização Brasileira, de 2024, com tradução de Reginaldo Sant’Anna.

Está lá, em síntese: o capitalismo destruiu (negou) a propriedade privada dos meios de produção a trabalhadores privados (a primeira negação), instituiu um modo de produção que deixou de ser individual para ser social (o capitalismo) à medida que todos vendem à sua força de trabalho ao capitalista. A vulnerabilidade dessa massa seria também a sua potência porque ela poderia realizar a sua própria expropriação (a “negação da negação”) por meio do socialismo…

Marx encerra assim esse texto, que conclui o capítulo: “Antes, houve a expropriação da massa do povo por poucos usurpadores; hoje, trata-se da expropriação de poucos usurpadores pela massa do povo”.  Sempre um otimista! Não aconteceu bem assim.

NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO DA NEGAÇÃO
Os que incidem na corruptela a que aludi talvez vejam, e não tento fazer graça, a “negação da negação da negação”… No caso: primeiro os capitalistas tomam a força de trabalho; depois esta se impõe aos capitalistas não exatamente pela revolução, mas pela reivindicação de direitos (para quem sabe do que trato: Segunda Internacional Socialista). A terceira negação estaria num certo enfaro dessa conversa de “direitos”.

Uma força exógena ao mundo do trabalho — infiro que sejam as redes sociais — convenceu alguns milhões que a única salvação está no “todos contra todos”. E que vença o melhor! Seria uma espécie de “Clube da Luta”, o espetacular filme de David Fincher, mas às avessas: os delírios terroristas hoje em dia se dariam em favor do sistema, não contra ele. Pois é… “Clube da Luta” já tem 27 anos. Tentar mudar o mundo fica parecendo perda de tempo de gente meio ultrapassada, não é mesmo?

QUEM ESTÁ FALANDO?
Sem descartar, por princípio, que Lula possa ter sido superado pela “negação da negação da negação”, obrigo-me a indagar: quem está a apontar a obsolescência do líder petista? O pesquiseiro que sequestrou a inteligência dos idiotas com um conceito de polarização que opõe a extrema direita fascistoide ao centro? Bem, ou os polos já não são os mesmos, ou o centro virou a nova extrema esquerda, dado que se sabe onde está a extrema direita que pode efetivamente vencer a disputa eleitoral, mas não onde se encontra a extrema esquerda viável nas urnas.

De novo: quem está a apontar a “negação da negação da negação”? Colunistas cansadinhos da “patrulha dos identitários”? É a sério isso? Movidos pela covardia e pelo medo de perder o empreguinho, sustentam estes que os verdadeiros culpados por aberrações como bolsonarismo e afins seriam os radicais de esquerda das universidades (Santo Deus…), que não aceitariam as contraditas conservadoras…

Dadas as suas palavras, a gente fica com a impressão de que os reaças, pobrezinhos!, constituem uma minoria de discriminados por uma massa tomada por valores politicamente corretos, que reprime o debate. Nessa perspectiva, Flávio Bolsonaro, lá de sua mansão especular, movido desde os subterrâneos por delírios de chocolate ao leite, seria, assim, uma voz da resistência.

VAMOS A QUEM REALMENTE ESTÁ FALANDO
Esse disco riscado é mais antigo do que se pensa. A agulha estava nessa fenda do sulco quando se debateu o fim da escravidão; na resistência da República Velha; nos dias que antecederam o suicídio de Getúlio; nas tentativas de golpe durante o governo Juscelino; no golpe de 1964; na deposição de Dilma; na condenação sem provas de Lula pela Lava Jato; na eleição de Bolsonaro; na intentona do Biltre…

E, claro, em todas essas circunstâncias, rematados reacionários, como agora, também e especialmente na imprensa, falaram em nome da “modernidade” quando, de fato, lastimavam avanços, ainda que modestos, do bem-estar dos pobres. Nota: os poucos veículos que se opuseram à quartelada de 64 fecharam as portas. Sabem como é… Ou progresso ou bomba atômica, disse um de seus luminares em 1963… O “liberalismo” à moda brasileira pode ser uma ideia de, como direi?, lesa humanidade!

O MAIS MODERNO DE TODOS
Pois é… Vou na contramão, se me permitem — e, se não, também. Esse é o mais moderno e avançado dos três governos Lula e das cinco gestões petistas.Nunca, como desta feita, o mundo esteve diante do dilema “multilateralismo ou barbárie”, e Lula, o centrista, é o único líder de uma grande democracia que encarna os valores desse multilateralismo. Dizê-lo obsoleto ou, por consequência, às políticas sociais (no caso, no âmbito interno), corresponde a fazer profissão de fé no reacionarismo. Que Flávio e seus “umpa-lumpas” o façam, convenham, é o esperado. Que colunistas entrem nessa — e aqui me refiro apenas aos que fazem questão de ostentar uma trajetória “progressista” —, bem, aí é do balacobaco.

Os que se alinham à direita, e existem, fazem o que se espera. Nada de novo sob o sol. E que se note: uns e outros têm todo o direito de pensar o que pensam, como tenho eu o de apontar o que vejo. Assim entendo o conflito. “Ah, e quem discorda de você, Reinaldo?” Já ouviram falar de “flor de sal”? Torna tudo mais saboroso.

ENCERRO
Já perdi três empregos por pensar o que penso. Mas nunca pedi a cabeça de terceiros por pensarem o que pensam. Não sou a Rainha de Copas. Nem o rei. Só o Rei. Para os íntimos. Mas o que realmente me mobiliza está aquém e além de mim.

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