E não é que já há ovelhas que querem o lobo Flávio como o seu pastor?
Já está em curso na extrema direita flaviana a máxima de que só um resultado seria legitimo na eleição. Ah, todo mundo já ouviu isso antes
atualizado
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Escrevi aqui um texto em que afirmo que o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL, pertence à “extrema direita carnívora”, não à “vegetariana”, ainda que todas possam ser herbívoras. É o próprio objeto da crítica que certifica a premissa do sujeito que analisa, não é mesmo?
Alexandre de Moraes, do STF, atendeu a pedido do ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, e abriu inquérito para investigar se Flávio cometeu crimes de injúria e calúnia contra o presidente Lula em razão de post publicado nas redes no dia 6 de janeiro, que segue no ar, em que afirma, com a candura das flores: “Lula será delatado. É o fim do Foro de São Paulo: tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, suporte a terroristas e ditaduras, eleições fraudadas.”
Explica-se: Maduro havia sido sequestrado por Donald Trump sob o pretexto de que liderava um tal “Cartel de Soles”, que comandaria o narcotráfico, suposta ameaça aos EUA. Não tenho nada de bom a dizer sobre o ex-presidente da Venezuela. Trata-se de uma figura detestável. Mas atenção! O Departamento de Justiça norte-americano já admitiu que nunca existiu um Cartel de Soles, embora a acusação que tenta ligá-lo às drogas permaneça, a despeito de não haver evidências. Era um ditador asqueroso, sim. Cada coisa em seu lugar. Adiante.
A injúria praticada por Flávio é autodemonstrável. Pode haver algum debate sobre a calúnia, embora, no contexto, me pareça dada porque a falsa imputação é bastante específica. O “carnívoro” queria o quê?
Nota técnica: o Artigo 145 do Código Penal confere ao ministro da Justiça a prerrogativa de determinar, de ofício, que a PF abra inquérito para investigar crimes contra a honra do presidente da República. André Mendonça, hoje no STF, sabe disso porque ele apelou a tal expediente quando era titular da pasta e avaliou, em janeiro de 2021, que Jair Bolsonaro fora ofendido. Como Flávio é senador e tem prerrogativa de foro no STF, foi preciso encaminhar o pedido ao tribunal. Não cabia a Moraes nem mesmo fazer juízo de admissibilidade: abra-se o inquérito, como se faria em qualquer outro caso, sem filtro nenhum. Apenas se estabelece que a questão tramitará no tribunal.
Flávio é advogado e deveria saber disso. É bem verdade que se especializou em vender chocolates em dinheiro vivo e em conseguir empréstimos fabulosos no BRB para comprar mansão — ao tempo em que o notório Paulo Henrique Costa era presidente do banco. Faz sentido: entende de mansões (no caso, suspensas…).
É claro, no entanto, que Flávio não poderia deixar de seguir a trilha carnívora do pai. E já que bater em Alexandre de Moraes, hoje em dia, excita mais o ódio do que a inteligência, mandou ver contra o ministro, em razão de um despacho óbvio: “Está muito claro qual é a estratégia. Já que agora Alexandre de Moraes não está mais no TSE, ele vai querer desequilibrar as eleições lá do Supremo. […] Essa prática não dá para aceitar em outras eleições, agora em 2026.”
Como o Inquérito das Fake News não goza hoje de grande prestígio em setores conservadores da imprensa — acho, obviamente, as críticas erradas, mas cada qual escolha o que achar melhor —, o pré-candidato do PL resolveu pegar uma carona:
“Nós já vimos esse filme antes. Foi dada uma autorização para o ministro Alexandre de Moraes cometer uma série de atrocidades (…). A pretexto de defender a democracia, ele atropelou vários direitos e garantias individuais de parlamentares do espectro da direita.”
E há quem se derreta na imprensa. Momento lindo! Os carneiros estão a se sentir muito seguros com a garantia que lhes fornecem os lobos de que estarão protegidos. Há algo de profundamente perturbador nessa relação (ilustração do alto produzida por IA).
O pré-candidato do PL, como é evidente, já está, a exemplo do pai, a criar fantasmas que acusar a ilegitimidade da eleição caso venha a ser derrotado. Repete o que afirmou na Cepac, a conferência dos reaças, nos EUA: “Se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer”. Já submeti neste Metrópoles esta maravilha a uma análise sintática.
REFRESCANDO A MEMÓRIA

Em janeiro de 2021, o então titular da Justiça, André Mendonça, ordenou que a PF abrisse um inquérito contra dois cidadãos comuns de Tocantins, sem direito a foro especial, porque tiveram a ousadia de publicar, em dezembro de 2020, um outdoor protestando contra a presença do mandatário em Palmas (acima).
E o que se dizia no dito-cujo? Isto:
“Cabra à toa, não vale um pequi roído. Palmas quer impeachment já!” e “Aí mente! Vaza Bolsonaro, o Tocantins quer paz”.
Mendonça achou isso terrivelmente ofensivo! E os responsáveis, creiam, foram investigados. Não deu em nada. Mas eis aí os defensores da liberdade de expressão, não é mesmo?
Flávio é carnívoro. Mas já há quem se mostre disposto a crer na força do seu cajado para proteger as ovelhas…

