Um “Flávio moderado”? Ele deixou de ser da extrema direita carnívora?
Por que alguém se viabilizaria como candidato atacando as instituições e passaria a respeitá-las depois de chegar ao poder. Faz sentido?
atualizado
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Já escrevi textos antevendo que isto aconteceria e está em curso. Agora que não resta a menor esperança de que a extrema direita possa mudar de candidato — será Flávio e pronto; eu sempre disse que seria um Bolsonaro, e o texto de referência é de 7 de julho do ano passado —, começou o esforço em setores da tal “mídia” e em áreas do colunismo político para tornar “moderado” o dito “Zero Um”, com o quê, evidentemente, Eduardo, o irmão que zela pelo “fundamentalismo”, jamais concordaria ou concordará.
O escolhido para a tarefa é alguém do “sangue” justamente porque se rejeita, de saída, qualquer tese ou ideia de moderação. O pré-candidato do PL não retirou, por exemplo, a ameaça que fez ao Supremo em entrevista à Folha no dia 14 de junho: se um deles vencesse (e agora o candidato é o próprio) e optasse pelo indulto ou anistia e se o STF considerasse o troço inconstitucional, haveria um golpe porque a solução, disse, seria imposta com “o uso da força”. Alguém aí tem alguma ideia melhor de “moderação”?
O fato é que o tal “Flavinho Paz e Amor” está em construção — e, por óbvio, com a colaboração do próprio pré-candidato. Exceção feita a quando fala aos de sua grei — como no discurso na tal Cepac, nos EUA, para uma plateia de reaças —, ele, com efeito, tem evitado as bolas divididas. Deixa para Romeu Zema (Novo), que se diz um postulante à Presidência, os ataques frontais ao Supremo. Ronaldo Caiado (PSD) exacerba as teses mais agressivas na área de segurança. Em público, só falta o pré-candidato do PL cantarolar: “Eu sou/eu sou amor/da cabeça aos pés”. Cai quem quiser.
Na fila do gargarejo do evento nos EUA, em que ofereceu as terras raras brasileiras como quintal a Donald Trump, estava, já lembrei aqui, ninguém menos do que o foragido Alexandre Ramagem, posto ontem em liberdade pelo ICE. O candidato a suposto “homem das instituições” — ao menos na cabeça de alguns; ele mesmo nunca disse isso — abraçou-se a um fugitivo, condenado no Brasil a 16 anos, com trânsito em julgado. Moderação assim, é preciso convir, nunca se viu.
Enquanto dribla embates com o Supremo — também para não assustar “uzmercáduz”, e as pesquisas indicam, afinal, que o “Flávio fofo” está funcionando —, seus tentáculos na política se encarregam de exacerbar a retórica antitribunal, pregando a tal “maioria para impichar dois ministros”. Já observei aqui: o próximo mandato tem três indicações a fazer à Corte — a terceira só no finzinho de 2030. Que se nomeiasasem dois, fazem eles as contas, somar-se-iam quatro com dois impedimentos. E seis com os “20%” que Bolsonaro, o pai, afirmou que já tinha: André Mendonça e Nunes Marques. Para quê? Como disse o “Mito” num palanque em defesa dos golpistas, “para mudar o Brasil”.
Que coisa curiosa, não? Ver Flávio como ele efetivamente é causaria desconforto, quando menos, moral em muita gente. Então é preciso fazer uma operação mental para melhorá-lo para que a adesão não traga à memória aquilo que foi o governo do seu pai: “Ah, ele é diferente; é mais político”. Alguém tem notícia de que tenha abjurado de alguma das crenças do genitor, que são as da família?
Não, definitivamente, o pré-candidato do PL não pertence à “direita vegetariana”, mas à “carnívora”. Explico rapidamente os termos.
UMA BREVE EXPLICAÇÃO
Fez muito sucesso nos anos 90 o livro “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”, de Plinio Apuleyo Mendoza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Vargas Llosa. O sobrenome do último é mais do que parentesco: é filho de Mario, escritor do primeiro time que se perdeu na política, sem nunca ter reencontrado plenamente o rumo. A meu juízo, nem o da literatura que já tinha feito.
O livro faz uma crítica severa às esquerdas latino-americanas e às correntes ditas populistas. É um libelo de provocações, algumas divertidas, outras completamente… idiotas. A “Teoria da Dependência”, por exemplo, de FHC e Enzo Faletto — “Dependência e Desenvolvimento na América Latina: Ensaio de Interpretação Sociológica” é o nome do livro, redigido em 1967 e publicado em 1969 — foi considerada por eles uma tese de referência do esquerdismo e do populismo latino-americanos. É de uma supina burrice. Só pode dizê-lo quem não leu. Ao contrário: o texto contestava alguns dogmas esquerdistas de então, sem deixar de ser, de fato, de esquerda.
Em 2007, publicaram um segundo volume: “A Volta do Idiota”. E é ali que fazem uma distinção entre o que chamam de “esquerda carnívora” e “esquerda vegetariana”: a primeira seria radical, intolerante, antimercado e anti-institucional; a outra manteria o discurso progressista, com medidas que buscam ser redistributivistas, sem romper as regras do jogo democrático. Não é difícil saber quem estaria onde, segundo os autores: Hugo Chávez e Evo Moralez, por exemplo, no primeiro grupo; Lula e Michelle Bachelet no segundo. De toda sorte, para o trio, seriam todos “idiotas”. O Brasil de Lula perto de governos que eles incensaram é um verdadeiro milagre do capitalismo. O tempo se encarregou de tornar os dois livros proselitismo típico de perfeitos idiotas ultraliberais.
Tomei emprestados da classificação que fizeram os conceitos “vegetariano” e “carnívoro” para designar ideologias. Se bem que, no caso, sem que a extrema direita brasileira deixe de se carnívora, dela se pode dizer ser também herbívora…
A ATRAÇÃO POR CANDIDATOS A TIRANOS
Pois é… Há quem não consiga se livrar da tentação de ter um autoritário para chamar de seu, não é? Pesquisem depois. Platão, o próprio, tentou educar Dionísio II, de Siracusa, para que fosse o rei filósofo (ilustração, criada por IA)… Adivinhem se deu certo. A experiencia frustrada é narrada na “Carta Sétima” — a única das 13 sobre a qual há pouca dúvida de que seja realmente sua. Justamente porque narra o desastre de sua experiência como “mestre” do “bom tirano”…
Há quem, com efeito, não aprenda nada nem esqueça nada. Já cheguei a ouvir, eu juro!, sobre Flávio a mesma ladainha que era repetida, então, nos idos de 18, sobre Jair: “Acaba se enquadrando…” Estranha lógica essa: o sujeito reivindica o poder justamente atacando as instituições e se espera, depois, que, com a força que lhe confere o cargo, passe, então, a respeitá-las. Não há risco de acontecer. Essa extrema direita que está aí, por óbvio, vegetariana não é. Pode, reitero, até ser herbívora nos modos, mas é carnívora nos dons do pensamento e na prática política.

