Reinaldo Azevedo - Colunista

Gramática prova Flávio golpista. Aberração de Caiado. Leite e o rabino

Uma simples análise de orações evidencia que o pré-candidato do PL continua golpista. Caiado precisa estudar. Uma sugestão para Leite

atualizado

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O pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, continua golpista, é claro!, mas, ora vejam, aqueles que se propõem a desafiá-lo não o reconhecem como tal, exceção feita a Lula. Ao contrário: Ronaldo Caiado, sagrado o candidato do PSD, prometeu se aliar ao Zero Um no segundo turno antes mesmo de o galo cantar no primeiro. Ora, ora… Eduardo Leite, preterido por Gilberto Kassab porque com suposto desempenho eleitoral mais modesto — como se o governador de Goiás fosse um nome realmente “pop” e “tech” — até chegou a esboçar um muxoxo, mas compareceu ao debate de novo com a conversa enjoada da polarização. Aliás, também o escolhido referiu-se a esse papo-furado. Meu Deus! A dita “polarização” é a “Loura do Banheiro” da política; é o “Homem do Saco” dos infantes indisciplinados. Ela droga as crianças, e ele os usa para fazer sabão… Que importa que não existam? É preciso crer. O “Unhudo” que mora numa caverna lá na minha Dois Córregos — e existe para arrancar a cabeças das pessoas más — é muito mais verdadeiro. Mas vamos devagar.

Comecemos com o Flávio golpista, como prova a gramática. No discurso durante o tal Cepac, afirmou este mimo:
“Se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer.”
Oração principal: “nós vamos vencer”.
Duas orações subordinadas adverbiais condicionais, coordenadas entre si:
– “Se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais” e
– “se os votos forem contados corretamente”.

Muito bem. Afirmemos a mesma coisa no pretérito perfeito do indicativo, já nos antecipando ao futuro do subjuntivo que vem no período, lidando com a hipótese, que, afinal, existe, de derrota de Flávio:
“Nós perdemos porque o nosso povo não pôde se expressar livremente nas redes sociais e porque os votos não foram contados corretamente”.

A oração principal, agora, é “nós perdemos”. E o que antes existia como condicional vira causa da derrota — com, pois, orações subordinadas adverbiais causais — também duas, igualmente coordenadas entre si:
– “porque o nosso povo não pôde se expressar livremente nas redes sociais” e
– “porque os votos não foram contados corretamente”

Flávio, um golpista na condicional enquanto não é derrotado, certamente será um golpista causal se perder porque, desde já, a simples conjectura o leva a não aceitar o resultado. Como seu pai. Como Trump.

Em entrevista à Folha, no dia 14 de junho do ano passado, afirmou que, vitorioso alguém de seu grupo e que desse o indulto a Bolsonaro e aos golpistas, o STF teria de aceitar, ou seria necessário empregar a força.

Alguém protestou?

Houve escarcéu na imprensa? Nem com a entrevista concedida em junho nem agora. É que, vocês sabem, os nossos valentes pensadores estão muito ocupados em saber se Erika Hilton está usurpando os direitos femininos. Não estou aqui a eximir ninguém de erros. Os cometidos pelos progressistas ganham logo a dimensão de um escândalo. Os dos reacionários parecem fazer parte da paisagem. Musil já pensou tudo isso em “O Homem Sem Qualidades”, na sua imaginária “Kakânia”, onde havia, sim, o risco de tomar “um gênio por um patife”, mas ao menos não se tomavam patifes por gênios…

A BESTEIRA DE CAIADO
Caiado é agora o candidato do PSD. Na sua primeira manifestação, mandou ver:
“O Brasil não suporta mais viver uma situação que tem sido uma constante nesses últimos anos: a polarização. Ela é sustentada por um projeto político, por aqueles que realmente se beneficiam dela. Meu primeiro ato vai ser exatamente ‘anistia ampla, geral e irrestrita’, replicando aquilo que Juscelino Kubitschek soube fazer com muita maestria a todos aqueles que se rebelaram realmente com uma verdadeira tentativa de golpe pela Aeronáutica, onde ele esse ‘me deixem trabalhar, e vamos realmente pacificar o Brasil.”

Caiado precisa estudar. Sugiro que leia o livro “Utopia Autoritária Brasileira”, lançado no ano passado pelo professor Carlos Fico (Editora Crítica). Juscelino só tomou posse em razão não de um, mas de dois “golpes da legalidade” desfechados pelo Marechal Lott, ministro da Guerra. O presidente enviou, de fato, em março de 1956, um projeto de anistia para o Congresso, que foi aprovado em maio. Consequência da impunidade? Um golpe branco foi desfechado em 1961, com o parlamentarismo. E o de fato chegou em 1964. Ademais, comparar os respectivos tempos históricos é de uma estultice abissal. Só se cura com leitura. A dica está aí.

Caiado se esqueceu, como se nota, de indagar se, com a institucionalidade de hoje e com a Constituição que temos, a anistia ou o indulto seriam constitucionais. Não seriam. Também ele prometeria atropelar o STF e impor a solução pela força, como Flávio?

LOURA DO BANHEIRO E HOMEM DO SACO
A “Loura do Banheiro”, como sabem, drogava as crianças na escola, sorrateira e vil. Os homens do saco puniam as crianças más, especialmente os moleques (ao menos no meu tempo), sequestrando-as para fazer sabão. Assim é com a polarização, esse ser maligno.

Caiado a criticou. E a sua reposta, ora vejam!, é se colocar no polo bolsonarista, com a sua “anistia”. Tenho até certo constrangimento em contestar.

Leite também entrou nessa, embora descontente com a indicação do parceiro de partido:
“Embora essa decisão [escolha de Caiado] desencante a mim como a tantos outros brasileiros pela forma como insistem em fazer política no nosso país, eu não vou discutir essa decisão. Mas isso não significa ausência de convicção. Existe, sim, no Brasil um desejo forte, talvez ainda silencioso, mas muito real. por mais equilíbrio, por mais sensatez, por mais respeito. O desejo por uma política que não precisa gritar para ser ouvida, que não precisa dividir para existir, que não trate quem pensa diferente como inimigo. O Brasil está cansado, muito cansado, de uma disputa que aprisiona o debate entre os extremos. E, com toda a franqueza, a decisão tomada pelo partido tende a manter esse ambiente de polarização radicalizada, que tanto limita o nosso país. Eu acredito em um outro caminho. Eu Acredito em um centro liberal, democrático de verdade, não como uma posição de conveniência, mas como compromisso com a conciliação, com o diálogo, com a construção de soluções reais”.

Pois é… Olhem aí a Loura do Banheiro e o Homem do Saco, a ameaçar as crianças assustadas, a tal polarização. Quem é esse sujeito indeterminado do “insistem”? Leite é um homem inteligente, sem dúvida, capaz da ponderação. Mas a quais “extremos” ele se refere? Só há um, governador! O daquele que diz que não aceita um resultado que lhe é adverso; o daquele que pretende anistiar golpistas — e Caiado está junto; o daquele que diz que imporia ao STF uma solução de força.

Seria muito bom que um político com miolos e com bibliografia — até ousaria lhe sugerir alguma coisa — entendesse que os números ridículos que obtêm no primeiro turno os que se dizem contrários à “polarização” traduzem a soma de duas ausências: vocês se apresentam como não sendo “nem Lula nem Bolsonaro”: o famoso “nem-nem”. Não é possível alguém se definir por duas negações, por suas ausências.

ENCERRO
Dá para saber qual é a de Caiado, e ele já deixou claro com quem estará num eventual segundo turno entre Lula e Flávio. Leite não mais disputa essa possibilidade. Eu prometo pensar no nome dele para 2030 se disser amanhã: “Eu estarei com quem não flertar com o golpe; nem com o golpe da anistia”.

Mas ele teria a coragem de dizê-lo? Eu acho que não porque soaria como declaração de voto em Lula. Pergunto: se Lula é o não golpe, por que não?

Já leu o rabino Hillel, meu caro governador? “Se eu não for por mim, quem será por mim? Se eu for apenas por mim, o que sou eu? Se não agora, quando?”

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