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Expert alerta sobre riscos de pornografia feita com IA
Tecnologia promete reduzir danos, mas especialista alerta para riscos ainda maiores à saúde mental e aos relacionamentos
atualizado
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Com o avanço acelerado da inteligência artificial, um novo debate tem ganhado espaço: o consumo de pornografia gerada por IA seria mais ético por não envolver atores reais? Embora a ideia pareça, à primeira vista, uma solução para questões como exploração na indústria adulta, especialistas alertam que o cenário é bem mais complexo — e pode trazer riscos ainda maiores.
Do ponto de vista da sexualidade, a sexóloga Erika Thinen é direta ao contestar essa percepção. “Isso não se sustenta. A pornografia continua existindo, mas com recursos infinitos”, afirma.

Segundo ela, o problema não desaparece — apenas se transforma. Com a tecnologia, o conteúdo pode se tornar ainda mais envolvente e difícil de regular. “Os riscos são muito maiores, com um potencial de danos na saúde mental, no desenvolvimento da sexualidade e nos relacionamentos, sem precedentes. Ela pode ser ainda mais envolvente, viciante e alienante do que a pornografia tradicional”, explica.
Esse impacto também se estende à forma como o desejo é construído. A possibilidade de criar conteúdos hiperpersonalizados, com cenários e corpos idealizados, pode distorcer a percepção da realidade. “Não há limites para o que pode ser gerado com as IAs: imagens realistas, experiências imersivas, ‘situações perfeitas’. Isso cria expectativas irreais”, diz a especialista.
Como consequência, pode surgir dificuldade em estabelecer conexões genuínas. “Isso pode gerar cada vez mais dificuldade para sentir desejo e se relacionar com pessoas reais, além de provocar desinteresse e problemas de conexão emocional”, completa.
Mesmo sem a presença de atores, as questões éticas continuam e, em alguns casos, se tornam ainda mais delicadas. Um dos principais pontos envolve o uso indevido de imagem por meio de deep fakes. “As questões éticas são muitas, e os riscos são infinitamente maiores que na pornografia tradicional. O uso de rostos reais é uma grave violação da privacidade”, alerta.
Além disso, há impactos econômicos relevantes: “O fato de não usar atores reais desvaloriza o trabalho de profissionais da indústria. A pornografia não vai acabar, mas o valor econômico vai mudar de mãos — de atores, atrizes e produtoras para empresas de tecnologia”.
Diante desse cenário, o debate sobre pornografia com IA vai muito além da substituição de pessoas por algoritmos. Ele envolve saúde mental, relações afetivas, direitos de imagem e até a reorganização de uma indústria inteira. A promessa de uma alternativa “mais ética”, portanto, ainda está longe de ser consenso — e exige uma discussão mais profunda sobre limites, responsabilidade e impacto social.
























