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Dia 8 de Março: goze como uma mulher
Entre tabus, cultura falocêntrica e falta de autoconhecimento, especialistas explicam por que o orgasmo feminino ainda é cercado de mitos
atualizado
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No dia 8 de Março, data que marca a luta histórica das mulheres por direitos, igualdade e autonomia, falar sobre prazer também é um ato político. Durante séculos, o desejo feminino foi silenciado, controlado ou tratado como tabu. Hoje, discutir sexualidade sob a perspectiva das mulheres é reivindicar protagonismo sobre o próprio corpo — inclusive na hora de gozar.
Significa conhecer o próprio corpo, respeitar seus limites, entender seus tempos e romper com padrões que colocam o prazer feminino em segundo plano. A autonomia, a informação e o autoconhecimento são ferramentas fundamentais para transformar a relação das mulheres com o próprio desejo — dentro e fora da cama.

Apesar disso, um estudo, publicado na revista Sexual Medicine pela Oxford University Press, descobriu que a taxa de orgasmo feminino durante o sexo variava de 46% a 58%. Já a taxa de orgasmo masculino era até 30% maior, variando de 70% a 85%.
Os pesquisadores descobriram que o problema persiste em todas as faixas etárias, mas não em todas as sexualidades, o que corrobora outras evidências de que mulheres que fazem sexo com mulheres têm orgasmos com mais frequência.
Outra pesquisa, esta realizada no Brasil, pelo aplicativo de relacionamento Happn e pela marca brasileira de sex care Pantynova, mostrou que menos da metade das mulheres relatam chegar ao orgasmo de forma consistente durante o sexo, enquanto mais de 70% dos homens afirmam o contrário.
A diferença se torna ainda mais evidente quando comparamos as experiências solo: enquanto mais de 80% das mulheres dizem sempre atingir o clímax na masturbação, apenas 35% relatam chegar lá durante o sexo com um parceiro. A pesquisa também revelou que, em média, 7% das mulheres nunca tiveram um orgasmo.

Mas, por que isso ocorre?
Antes de aprofundar a discussão, vale lembrar dois pontos essenciais. O primeiro é que o orgasmo não precisa ser tratado como linha de chegada obrigatória da relação sexual. O prazer pode existir de muitas formas, e reduzir a experiência íntima a um único momento final é limitar suas possibilidades. O segundo é que a ideia de que a penetração, sozinha, deveria ser suficiente para levar ao clímax não corresponde à realidade da maioria das mulheres.
Quando o orgasmo parece distante ou raro, um passo importante pode ser o investimento no autoconhecimento. Explorar o próprio corpo, entender quais estímulos despertam mais prazer e reconhecer seus limites ajuda a construir segurança e autonomia. A partir desse processo, torna-se mais fácil comunicar preferências e necessidades na relação com outra pessoa.
Segundo a psicóloga e sexóloga Ana Paula Nascimento, a raiz da questão também é cultural. Ela destaca que fomos socializados em um modelo que coloca o pênis e a penetração no centro da narrativa sexual. “Há uma construção social que reforça a penetração como momento máximo do sexo. No entanto, do ponto de vista biológico, a maior parte das mulheres não atinge o orgasmo apenas com a estimulação vaginal”, explica.

Já o ginecologista César Patez ressaltou que o chamado “gap” do orgasmo pode envolver uma combinação de fatores. Entre eles, estão educação sexual insuficiente, tabus internalizados, sobrecarga emocional, estresse, inseguranças relacionadas ao corpo, rotina exaustiva e falhas no diálogo entre o casal. Em outras palavras, não se trata apenas de uma questão física, mas de um fenômeno atravessado por aspectos emocionais, sociais e relacionais.
O profissional aponta, ainda, que a masturbação é vista como um “caminho mais seguro” para mulheres chegarem ao orgasmo por que o estímulo é direcionado. “Isso ocorre devido ao controle do estímulo ser total, permitindo que se concentrem em zonas erógenas mais sensíveis, principalmente; e não sofre efeitos de fatores externos, como preocupação de agradar o parceiro.”






















