Mario Sabino

O governo Lula e a sem-vergonhice do sigilo de 100 anos

O governo Lula impôs sigilo de até 100 anos sobre processos de liberação de bets. Dá trabalho ser transparente, sabe como é

atualizado

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1 de 1 Bets - Foto: Bluecinema/Getty Images

O governo Lula impôs sigilo de até 100 anos, sigilo de 100 anos na elipse popular, sobre processos de liberação de bets, esse negócio feito sob medida para empobrecer ainda mais os pobres e para funcionar como lavanderia de dinheiro sujo.

A sem-vergonhice é dupla porque, na campanha presidencial, o chefão petista criticou o expediente usado recorrentemente por Jair Bolsonaro para esconder o que era inconveniente mostrar.

Para ficar em poucos exemplos das centenas de caso, Bolsonaro decretou sigilo de um século sobre o seu cartão de vacinação, sobre as visitas recebidas por Michelle Bolsonaro no Palácio do Alvorada, sobre o acesso dos filhos dele ao Palácio do Planalto e sobre a suas próprias reuniões com pastores que negociaram verbas com prefeitos em nome do Ministério da Educação, entre outras visitas bastante dignas do caráter nacional brasileiro.

Para não falar, é claro, do clássico da vigarice: o sigilo sobre os gastos dos cartões corporativos da Presidência da República.

Lula assumiu dizendo que acabaria com a picaretagem perpetrada a pretexto de proteger dados pessoais, revogou vários sigilos decretados por seu antecessor — mas logo passou a agir como Bolsonaro, em prova adicional de que são farinha do mesmo saco.

Abro parêntese. O mesmo saco brasileiro nos impede de ter aquele lenitivo do meu amigo Flaubert, que ando frequentando com certa regularidade nos últimos tempos desta minha existência outonal. Ele disse a um amigo que “o melhor dos governos é aquele que agoniza, porque vai ceder lugar a outro”. Fecho parêntese.

Entre os casos registrados desde 2023, o chefão petista impôs sigilo de 100 anos à agenda de Janja, sua amada, mas não dos brasileiros,  e à lista de integrantes do Batalhão de Guarda Presidencial que davam expediente no 8 de janeiro de 2023.

As informações sobre os gastos com cartões corporativos não têm segredo secular — o acesso é apenas “reservado”. A alegação é de que é para proteger “a segurança” do presidente e do seu entorno com direito ao privilégio.

Parece melhor, mas não é. Deixar para o sucessor imediato revelar o dado, se é que ele faria isso, é como jogar para outro século.

A CGU costuma ser eloquente na defesa de que o governo Lula é transparente e coisa e tal. Que as negativas de acesso ocorrem quando há necessidade do trabalho adicional de tarjar dados pessoais sensíveis. E que está desenvolvendo uma ferramenta de IA para realizar essa tarefa.

A historieta do trabalho adicional também foi justificativa para o Ministério da Fazenda negar o acesso da imprensa ao recente processo de aprovação de uma bet de origem russa (terroir nobilíssimo) banida em vários países. E tome o sigilo de 100 anos.

Dá muito trabalho, sei. Como dizia Delúbio Soares (o companheiro de tantas lutas e faturas quer ser deputado federal), “transparência demais é burrice”.

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