Mario Sabino

CV e PCC: Trump ajuda Flávio, acua Lula, mas não nos faz pensar

Trump deu um presente à campanha de Flávio Bolsonaro, colocou Lula em sinuca, mas o país vai ignorar como chegou a ter crime tão organizado

atualizado

metropoles.com

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Alice Rabello
Montagem com Lula, Trump e Flávio Bolsonaro -- Meetrópoles
1 de 1 Montagem com Lula, Trump e Flávio Bolsonaro -- Meetrópoles - Foto: Alice Rabello

Ontem, no programa Contexto, veiculado pelo canal do Metrópoles no YouTube, eu disse que achava que Donald Trump não entraria de sola na campanha eleitoral brasileira, inclusive por não ser nome simpático a todo mundo.

Em artigo no dia anterior, afirmei que, se houvesse apoio declarado do presidente americano a Flávio Bolsonaro, a tentativa de influenciar no resultado seria bem mais leve do que a que se desenhava havia um ano.

Errei na futurologia, como foi demonstrado na sequência imediata: o governo dos Estados Unidos anunciou que passará a classificar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas.

É como se Washington houvesse atendido a um pleito de Flávio, que disse ter conversado sobre o tema com Trump no encontro de ambos na Casa Branca.

Na realidade, os Estados Unidos já vinham estudando designar CV e PCC como terroristas já fazia tempo, dados os tentáculos internacionais de ambos no universo em expansão do narcotráfico.

O anúncio, contudo, saiu sob medida para beneficiar o bolsonarista em momento difícil, e as próximas pesquisas dirão se o objetivo foi atingido. Ajuda Flavio a mudar do assunto Dark Horse e atinge o ponto mais vulnerável do governo Lula: a segurança pública, maior preocupação dos eleitores.

Imbuído de uma razão insuficiente para obnubilar a sua leniência no combate ao crime organizado, Lula sempre se opôs ao que os americanos tomassem tal medida.

O chefão petista a tem como atentatória à soberania nacional, uma vez que permite aos Estados Unidos interferir no dia a dia de instituições financeiras e de cidadãos brasileiros, além de, no limite, abrir caminho para eventuais ações militares contra terroristas fora do território americano.

Lula está diante da dificuldade de continuar no discurso em defesa da soberania, sem passar a imagem de ser defensor das organizações criminosas que entraram na mira de Washington.

À saída do seu encontro com Trump, apesar de CV e PCC terem sido assunto, o próprio Flávio afirmou não acreditar que o presidente americano iria tentar influenciar na eleição presidencial.

A minha impressão, e caberia aos correspondentes nos Estados Unidos apurar, é que a decisão de classificar os grupos criminosos como organizações terroristas de maneira inopinada, sem qualquer aviso prévio a Brasília, foi muito mais uma decisão de Marco Rubio, secretário de Estado, com o apoio do vice-presidente J.D. Vance.

Lembre-se de que Flávio conversou com ambos no dia seguinte ao seu encontro com Trump. Mais ideológicos do que o presidente americano, Rubio e Vance teriam saído da conversa com a conclusão que a melhor forma de ajudar Flávio seria incluir CV e PCC na legislação americana sobre terrorismo. Se essa for a hipótese correta, Trump teria apenas dado sinal verde.

Fato é que o próprio candidato bolsonarista e o seu entorno foram pegos de certa surpresa.

Pergunta-se, agora, até que ponto a medida será para valer, uma tentativa de forçar o Brasil a se submeter à nova doutrina de segurança nacional dos Estados Unidos, que voltou a enxergar o hemisfério ocidental como quintal, ou se não passa de jogada político-eleitoreira.

A legislação americana de combate ao terrorismo prevê que os Estados Unidos podem excluir de todas as operações com dólar bancos e corretoras culpadas ou suspeitas de participar de lavagem de dinheiro para terroristas.

Além disso, empresas que paguem a intermediários de terroristas também podem ser alvos de sanções e, logicamente, cidadãos suspeitos de ter vínculos com o terror podem ter banida a sua entrada nos Estados Unidos.

Os bolsonaristas estão felizes com o que apontam como panaceia para enfrentar o crime organizado no Brasil, e muitos são levados a pensar que a medida americana diminuirá o número de latrocínios motivado por roubo de celular, em sinapses para mim insondáveis.

São os mesmos que acreditam que a experiência de engenharia social levada a cabo por Nayib Bukele em El Salvador, um país com a população da cidade do Rio de Janeiro, é aplicável ao Brasil.

Ingenuidades e ilusões à parte, não se ignore o terreno sobre o qual elas se erigiram: PCC e CV só surgiram e se multiplicaram, ocupando extensas áreas urbanas e infiltrando-se na política, por causa da irresponsabilidade ideológica, da desídia, da incompetência e da cumplicidade das autoridades brasileiras do inteiro espectro político, e isso desde há muito.

É sobre este ponto que deveríamos refletir neste momento — de como chegamos a ter crime tão organizado e tão tentacular, que possibilitou ao governo Trump designá-los como terroristas, movido não importa por qual motivo, e de como deveríamos empreender um esforço nacional para reverter esse quadro. Mas, como de hábito, não refletiremos sobre o que importa.

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