Da tornozeleira à prisão: Bolsonaro completa 1 ano com medidas restritivas, mas influência mexe com Eleições 2026
Pré-candidatos da direita lutam pelo apoio de Jair Bolsonaro (PL) que, mesmo preso, mantém capital político em alta

Há um ano, em 18 de julho de 2025, Jair Bolsonaro (PL) passou a usar tornozeleira eletrônica por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Na avaliação do magistrado, havia risco de fuga para o exterior enquanto o ex-presidente era investigado por suposta tentativa de coagir autoridades estrangeiras e, paralelamente, respondia às investigações sobre a trama golpista.
As medidas cautelares impostas naquele momento proibiam Bolsonaro de se aproximar de embaixadas, utilizar redes sociais e sair de casa após as 19h.
A decisão marcou o início de uma sequência de desdobramentos que incluiu prisão domiciliar, condenação por tentativa de golpe de Estado, transferência para o sistema prisional, internações, novas decisões judiciais e disputas políticas em torno das Eleições de 2026.
Dentro desse cenário de medidas restritivas, prisão, questionamentos judiciais e luta pelo apoio político público de Jair Bolsonaro, o acirramento mais recente se dá entre os dois principais players do PL para cargos majoritários: Michelle e Flávio.
Esposa de Jair Bolsonaro e o filho mais velho trocaram farpas. Nos últimos dias, uma série de troca de acusações por meio da imprensa e das redes sociais culminou com uma carta escrita por Jair Bolsonaro. No documento, o ex-presidente reforçou o apoio à candidatura do filho para a Presidência.
Já Michelle disse que manterá a pré-candidatura ao Senado, após sinalizar a possibilidade de desistir. Embora o episódio pareça pacificado, nos bastidores o desgaste permanece.
O PL tenta colocar panos quentes para evitar um novo desgaste. Adversários, entretanto, acreditam que é apenas uma questão de tempo até as tensões eclodir novamente.
Veja linha do tempo:
Processo de coação
A primeira decisão que colocou Bolsonaro sob monitoramento ocorreu após a Polícia Federal apontar que o filho do ex-presidente, o então deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), articulava diretamente dos Estados Unidos a imposição de sanções contra o Brasil. Diante do que considerou risco de fuga, Moraes determinou o uso da tornozeleira eletrônica.
No curso dessa investigação, Bolsonaro chegou a ser indiciado pela Polícia Federal em 20 de agosto. Um mês depois, porém, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, deixou de denunciá-lo. Em parecer divulgado em 22 de setembro, Gonet concluiu que, até aquele momento, não havia elementos suficientes para demonstrar participação direta do ex-presidente na suposta coação de autoridades estrangeiras.
Já o julgamento desse processo foi concluído no mês passado. Eduardo Bolsonaro foi condenado a quatro anos e dois meses de prisão, além da perda do cargo de escrivão da Polícia Federal e da inelegibilidade por oito anos.
Vídeo levou à prisão domiciliar
Mesmo monitorado por tornozeleira eletrônica, Bolsonaro ainda não estava proibido de deixar a residência. A situação mudou após ele aparecer em uma chamada de vídeo em manifestações em apoio a ele no Rio de Janeiro.
Flávio Bolsonaro publicou o vídeo nas redes sociais e, em seguida apagou. Na ocasião, Bolsonaro já estava proibido de usar as redes sociais inclusive por meio de terceiros.
Para Alexandre de Moraes, a participação e divulgação nas redes configurou descumprimento das medidas cautelares impostas no inquérito que investigava a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Em 4 de agosto, o ministro determinou que o ex-presidente passasse a cumprir prisão domiciliar.
Pouco mais de um mês depois, teve início na Primeira Turma do STF o julgamento da ação penal sobre a tentativa de golpe de Estado. Bolsonaro respondeu pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado ao patrimônio da União, deterioração de patrimônio tombado e liderança de organização criminosa.
Julgamento da trama golpista
Sob a presidência do ministro Cristiano Zanin, a Primeira Turma do STF iniciou o julgamento de Jair Bolsonaro pela suposta tentativa de golpe de Estado.
Em 9 de setembro, o relator do processo, ministro Alexandre de Moraes, votou pela condenação de Bolsonaro. Ao longo de mais de cinco horas de manifestação, usou organogramas para sustentar que o ex-presidente exercia papel de liderança na organização criminosa. Segundo Moraes, a articulação teria começado em julho de 2021 e culminado nos atos de 8 de janeiro de 2023.
Durante o voto, o ministro afirmou que a organização criminosa, liderada por Bolsonaro, não aceitava a alternância democrática de poder e citou o plano conhecido como “Punhal Verde e Amarelo”, que, segundo ele, previa o assassinato do presidente eleito, do vice-presidente e do então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A divergência de Fux
A posição de Moraes foi acompanhada pela maioria da Primeira Turma. A exceção foi o ministro Luiz Fux, que votou pela absolvição de Bolsonaro em relação a todos os crimes imputados pela PGR.
Para Fux, a investigação não demonstrou de forma suficiente a participação direta do ex-presidente na articulação de um golpe de Estado. Um dos principais argumentos apresentados foi a inexistência de um documento que comprovasse as reuniões em que a trama teria sido discutida.
O ministro também entendeu que não seria possível caracterizar organização criminosa armada, por considerar que o grupo não usou armas de fogo, além de afirmar que a denúncia não descrevia uma associação estável e permanente, requisito necessário para esse tipo penal.
Apesar da divergência em relação a Bolsonaro, Fux votou pela condenação do delator Mauro Cid e do general Walter Braga Netto pelo crime de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Condenação
Dois dias depois, em 11 de setembro, a Primeira Turma concluiu o julgamento. Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão, tornando-se o primeiro ex-presidente da República condenado por crimes contra a democracia. Os outros sete integrantes do chamado núcleo 1 da trama golpista também foram condenados por maioria.
Enquanto o acórdão não era publicado para abertura do prazo de recursos, Bolsonaro permaneceu em prisão domiciliar por decisão de Alexandre de Moraes, já que continuava submetido às medidas cautelares do inquérito sobre a suposta coação de autoridades estrangeiras. Esse cenário mudou em 22 de novembro.
A tentativa de romper a tornozeleira
Na madrugada de 22 de novembro, um alerta de violação da tornozeleira eletrônica levou agentes responsáveis pelo monitoramento até a residência do ex-presidente.
Segundo relato encaminhado ao STF por uma servidora da Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal (Seape-DF), o equipamento apresentava danos em seu invólucro. Questionado, Bolsonaro afirmou que havia usado um ferro de solda por “curiosidade”.
“Meti um ferro quente aí. Curiosidade.”
Ao ser perguntado sobre o equipamento utilizado, respondeu:
“Foi ferro de soldar […]. Não rompi a pulseira, não.”
Veja vídeo:
A inspeção constatou danos na tornozeleira, e Bolsonaro informou que havia iniciado a tentativa de violação na tarde do dia anterior.
Na mesma manhã, o ex-presidente foi preso e levado para a Superintendência da Polícia Federal, em Brasília. Poucos dias depois, Alexandre de Moraes rejeitou os embargos de declaração apresentados pela defesa contra a condenação, por considerá-los protelatórios, e determinou o início do cumprimento da pena.
A partir daquele momento, a prisão deixou de decorrer das medidas cautelares e passou a ter como fundamento a condenação criminal.
Da PF para a Papudinha
Bolsonaro permaneceu na Superintendência da Polícia Federal por cerca de um mês. Nesse período, foi internado para uma cirurgia de hérnia inguinal, passou a virada do ano no hospital e retornou à custódia da PF em 1º de janeiro.
Após novos episódios relacionados às condições da cela — entre eles uma pancada na cabeça dentro do quarto onde estava custodiado — Alexandre de Moraes determinou, em 15 de janeiro, a transferência do ex-presidente para o Núcleo de Custódia da Polícia Militar no Complexo Penitenciário da Papuda, conhecido como Papudinha.
Na véspera da decisão, Michelle Bolsonaro foi recebida por Moraes. O encontro teria sido intermediado pelo vice-presidente da Câmara, Altineu Côrtes (PL-RJ), em uma tentativa de convencer o ministro a restabelecer a prisão domiciliar.
Ao optar pela transferência para a Papudinha, Moraes destacou que o espaço oferecia melhores condições que a Superintendência da Polícia Federal. Segundo a decisão, a unidade contava com quarto, sala, cozinha, lavanderia, banheiro e área externa, além de permitir banho de sol, exercícios físicos, fisioterapia, visitas autorizadas e acesso a uma televisão com canais abertos de jornalismo.
Retorno à prisão domiciliar
Ao longo do ano, Bolsonaro enfrentou uma série de problemas de saúde que exigiram idas ao hospital e atendimento médico particular em casa. O ex-presidente passou por oito complicações que exigiram idas ao Hospital DF Star.
Algumas comorbidades ainda são reflexos da facada que o ex-presidente sofreu durante a campanha presidencial em 6 de setembro de 2018.
Entre 16 de agosto de 2023 e 4 de maio de 2024, ele enfrentou uma série de complicações de saúde que exigiram frequentes saídas da prisão para exames e cirurgias. O quadro clínico iniciou-se em 16 de agosto com investigações de refluxo e soluços, seguido por uma cirurgia de pele e diagnóstico de anemia em 14 de setembro, e uma internação às pressas em 16 de setembro por soluços, vômitos e queda de pressão.
No final do ano, entre 24 de dezembro e 1º de janeiro, passou por quatro procedimentos médicos, incluindo correção de hérnia inguinal e bloqueios do nervo frênico. Logo em seguida, em 6 de janeiro, uma queda na cela da Superintendência da PF resultou em traumatismo craniano leve constatado em exames no dia 7 de janeiro.
Em 13 de março, após apresentar calafrios e vômitos, foi internado com broncopneumonia bacteriana, recebendo alta e a autorização de prisão domiciliar pelo ministro Alexandre de Moraes em 27 de março, antes de realizar, por fim, uma cirurgia no ombro direito em 1º de maio, com alta definitiva em 4 de maio.
Após esse quadro de broncopneumonia, Bolsonaro voltou a cumprir pena em prisão domiciliar. Veja imagens
Desde 27 de março, quando retornou ao regime domiciliar, passou a enfrentar novos questionamentos sobre a manutenção do benefício. Primeiro, por manter uma arma registrada em seu nome. Mais recentemente, pela divulgação de uma carta escrita por ele e publicada nas redes sociais pelo filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República.
A influência política permaneceu
Mesmo durante todo o período de restrições judiciais, Bolsonaro preservou protagonismo dentro da direita e continuou exercendo influência sobre as articulações eleitorais para 2026.
Ainda em agosto de 2025, quando cumpria prisão domiciliar preventiva, transformou sua residência em Brasília em um centro de articulações políticas. Ao longo de 100 dias, recebeu visitantes em 62 ocasiões, somando 69 pessoas.
As visitas, autorizadas previamente por Alexandre de Moraes, serviram para discutir candidaturas, alianças e estratégias eleitorais do PL. Mesmo preso, Bolsonaro continuou sendo o principal avalista das decisões do partido em diversos estados.
A situação mudou apenas após o endurecimento das restrições impostas pelo STF. Na nova modalidade de prisão domiciliar, ficaram autorizadas apenas visitas de filhos e advogados.
Após a divulgação da carta em redes sociais, Flávio Bolsonaro perdeu o direito de visitar o pai por 90 dias, reduzindo o contato entre ambos justamente no período que antecede as eleições de outubro de 2026. A medida criou dificuldades para as articulações políticas conduzidas diretamente pelo senador.
A carta divulgada por Flávio
Advogado e filho de Jair Bolsonaro, Flávio visitou o pai quando ele ainda cumpria prisão domiciliar e obteve uma carta de apoio à sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto.
O documento foi divulgado nas redes sociais com o título “Carta aos brasileiros“, apresentado como uma manifestação do principal líder eleitoral do PL em favor da candidatura do senador.
A publicação teve repercussão imediata no Supremo. Alexandre de Moraes considerou que poderia haver descumprimento das medidas cautelares impostas ao ex-presidente e encaminhou o caso para manifestação da PGR.
A defesa afirmou que Bolsonaro não tinha conhecimento de que a carta seria divulgada publicamente. Como consequência, Moraes determinou a suspensão das visitas de Flávio ao pai. Bolsonaro permanece em prisão domiciliar humanitária.
A dependência de Bolsonaro para decisões
As articulações políticas em torno de Jair Bolsonaro também expuseram fissuras dentro da própria família e do PL, partido com o maior fundo eleitoral do país.
Em fevereiro deste ano, após visitar o pai na Papudinha, Flávio Bolsonaro confirmou sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto. A decisão foi apresentada como resultado de uma conversa com o ex-presidente, reforçando a ideia de que, mesmo preso, Bolsonaro seguia como principal fiador das candidaturas da direita.
Michelle Bolsonaro, por sua vez, também passou a afirmar que suas decisões políticas continuariam sendo tomadas em conjunto com o marido.
A disputa ganhou novos contornos em junho. A ex-primeira-dama publicou um vídeo no qual acusou Flávio Bolsonaro de humilhá-la e maltratá-la. A manifestação tornou público um racha entre os dois principais nomes do partido para as eleições de 2026 e expôs divergências dentro do próprio clã Bolsonaro. Veja vídeo:
Flávio respondeu afirmando que as declarações não o afetaram. Diante da crise, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, tentou intermediar uma reconciliação entre os dois pré-candidatos. Michelle chegou a ameaçar desistir da disputa por uma vaga no Senado.
Apesar do desgaste, Bolsonaro continuou sendo o principal árbitro das decisões do grupo político. Michelle permaneceu ao lado do marido e afirmou que decidirá sua candidatura ao Senado apenas após consultá-lo. Com o início das convenções partidárias marcado para 20 de julho, o aval do ex-presidente — agora transmitido principalmente por meio da ex-primeira-dama — continua sendo considerado decisivo para as estratégias eleitorais da direita.










