
Ilca Maria EstevãoColunas

Símbolo do luxo silencioso, Loro Piana entra em administração judicial
A grife italiana Loro Piana, do grupo LVMH e uma das queridinhas dos adeptos do chamado quiet luxury, entrou em administração judicial
atualizado
Compartilhar notícia

Uma suposta exploração do trabalho de funcionários sem registro formal levou a marca italiana Loro Piana a entrar em administração judicial. A medida, que deve durar um ano, é resultado de uma investigação que começou após uma denúncia. Dessa forma, um gestor externo será responsável por verificar se a grife cumpre os requisitos referentes à cadeia produtiva.
Famosa pela abordagem discreta, a Loro Piana é um dos símbolos do chamado “luxo silencioso” (quiet luxury) e, pouco mais de um ano atrás, também esteve envolvida em uma polêmica sobre lã extraída por indígenas peruanos sem remuneração. Vem entender o caso!

Loro Piana x suposta exploração de trabalho: o que houve?
Em maio, um homem chinês denunciou o próprio chefe alegando ter sido espancado ao cobrar salários atrasados equivalentes a cerca de R$ 58 mil. Com isso, a polícia passou a investigar fábricas nos arredores de Milão. A Itália, segundo dados da consultoria Bain, comporta cerca de 50% dos pequenos produtores de luxo em todo o mundo.
Em duas oficinas sob comando de chineses, a investigação descobriu irregularidades trabalhistas que incluem condições insalubres – como uma jornada de trabalho de até 90 horas semanais – e dormitórios ilegais dentro da fábrica. Em tese, elas atuavam sob o selo de uma empresa que havia sido contratada por uma fornecedora de jaquetas de cashmere da Loro Piana.
Como resultado, as atividades das duas oficinas foram suspensas. Os responsáveis também receberam multas e sanções administrativas que, somadas, chegam a quase R$ 1,4 milhão. Apesar da definição de administração judicial, a Loro Piana não chegou a ser diretamente investigada criminalmente.
Dois responsáveis pelas oficinas foram processados, além de dois italianos acusados de violar normas de segurança e saúde. Já entre os 21 trabalhadores identificados entre três oficinas de origem chinesa e duas empresas intermediárias, 10 não tinham o registro profissional necessário e sete se enquadram como imigrantes ilegais.


O que acontece agora
A administração judicial imposta pela justiça italiana não tem caráter punitivo, mas preventivo, já que a grife teria “facilitado negligentemente” a situação. A supervisão da medida serve para evitar possíveis interferências e pode ser encerrada antes do prazo de um ano se for verificado que os requisitos legais foram cumpridos.
Para a polícia italiana, a Loro Piana falhou em prevenir ou combater a exploração laboral na própria cadeia de suprimentos, já que aspectos como as capacidades técnicas e condições de trabalho de fornecedores deveriam ser verificadas pela marca, que lucra alto com os produtos fabricados. Em maio, inclusive, empresas de moda na Itália chegaram a assinar um acordo para combater a exploração trabalhista.
A grife, que não comentou o assunto ao ser procurada pela imprensa, afirmou em comunicado estar em colaboração com as autoridades locais e diz ter encerrado o vínculo com o fornecedor em questão em até um dia após descobrir as irregularidades, em 20 de maio.
A empresa intermediária, ligada às oficinas acusadas de exploração trabalhista, fornecia à grife italiana uma média anual entre seis mil e sete mil jaquetas. Pedidos com mais de 100 exemplares custavam à marca o equivalente a R$ 690 reais por unidade. O valor chegava a quase R$ 750 por jaqueta se a remessa fosse inferior a 100 itens. Ao consumidor final, os produtos são vendidos por um preço bem superior, na casa dos milhares de euros.


Relevância da marca
Ao lado de etiquetas como The Row (das gêmeas Mary Kate e Ashley Olsen, ex-atrizes) e Bottega Veneta, a Loro Piana é uma das marcas queridinhas do público adepto do chamado “quiet luxury”. A expressão é como foi apelidada a prática de usar itens caros de marcas de luxo com aparência discreta, que não evidencia o preço de maneira óbvia.
Conhecida pelo trabalho com cashmere e por não realizar desfiles, a label apresenta as coleções discretamente, além de não ter diretor criativo e nem fazer parcerias com outras marcas. Em 2013, teve 80% da operação comprada pelo conglomerado de luxo francês LVMH, direto da família fundadora, que passou a deter 20%.
Com receita anual em torno de 2,5 bilhões de euros (ou R$ 16,1 bilhões), a grife é o terceiro maior selo de moda e artigos de couro da LVMH, atrás somente da Louis Vuitton e da Dior, que ocupam o primeiro e o segundo lugar do ranking, respectivamente.
A própria Dior, assim como a Armani, figurou entre as outras marcas de moda que enfrentaram investigações similares de questões trabalhistas recentemente. Só no mesmo tribunal responsável pelo caso da Loro Piana, em Milão, foram cinco marcas desde 2023.
