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Ilca Maria Estevão

Além da Riachuelo, veja marcas de moda acusadas de apologia ao nazismo

Recentemente, a varejista foi criticada na web após um tuíte expor um conjunto associado a uniformes usados em campos de concentração

, 18/09/2023 15:10, atualizado 18/09/2023 19:21
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Tomaz Silva/Agência Brasil/@myapacioni/X/Reprodução
Na imagem com cor, roupa usada por detentos de campos de concentração e roupas da loja Riachuelo - Metrópoles

A moda é um fenômeno complexo que transcende a mera funcionalidade de vestir roupas. Trata-se de um “espelho” da sociedade, que reflete não apenas as tendências estéticas, mas também os valores, assim como contextos históricos e sociais de uma época. Um exemplo recente que ilustra essa complexidade é a controvérsia em relação a um pijama listrado lançado pela varejista Riachuelo. Em diferentes momentos, outras marcas já foram acusadas de apologia ao nazismo.

Imagem colorida do filme O Menino do Pijama Listrado - Metrópoles
No famoso filme O Menino do Pijama Listrado, é possível ver a similaridade em relação à vestimenta

Contextualização das listras

As listras desempenharam um papel sombrio na história do Holocausto, especialmente nos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Os prisioneiros eram forçados a vestir uniformes listrados como parte de um sistema de identificação.

As roupas eram projetadas para categorizar os prisioneiros com base em diferentes critérios, como a cor das listras e o formato dos triângulos costurados nos uniformes. Os judeus, por exemplo, frequentemente usavam uniformes com listras azuis e triângulos amarelos, enquanto os presos políticos tinham listras e triângulos vermelhos.

Além disso, as listras eram frequentemente associadas a trabalhos forçados, fome, doenças e condições desumanas nesses ambientes; por isso, quando estampadas em uniformes, são um lembrete sombrio da crueldade praticada durante esse período da história. Assim, quando se olha uma roupa similar, a memória vem à tona.

Na imagem com cor, Judeus celebram a libertação de Auschwitz, depois de terem escapado da morte no campo de horror - Metrópoles
As listras eram um símbolo de desumanização e opressão
Na imagem com cor, Judeus celebram a libertação de Auschwitz, depois de terem escapado da morte no campo de horror - Metrópoles
A diferenciação dos uniformes era uma parte da estratégia nazista de dividir os prisioneiros, tornando mais fácil a identificação dos grupos, para puni-los
Na imagem com cor, Judeus celebram a libertação de Auschwitz, depois de terem escapado da morte no campo de horror - Metrópoles
No dia 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho libertou o campo de extermínio nazista de Auschwitz

Peças encontradas

O pijama da Riachuelo, à primeira vista, pode parecer uma mera peça de roupa com listras, já que a estampa é frequentemente usada na moda. No entanto, a estética particular desencadeou uma polêmica um tanto quanto preocupante à rede brasileira de fast fashion.

A produtora cultural e gerente de projetos Maria Eugênya, que tem expertise em cultura material, consumo e semiótica psicanalítica pela Universidade de São Paulo (USP), fez uma crítica relevante na rede social X (conhecida durante anos como Twitter). Ela associou o conjunto ao uniforme de prisioneiros judeus em campos de concentração nazistas usados durante o Holocausto na Segunda Guerra Mundial.

O assunto reverberou na web, e um debate sobre a semelhança foi aberto. A controvérsia levanta questões profundas sobre como a moda pode ser interpretada e como os significados podem variar de pessoa para pessoa. Veja abaixo alguns posicionamentos:

Na imagem com cor, print de um tweet - Metrópoles
Após o post, milhares de internautas responderam à analogia
Na imagem com cor, print de um tweet - Metrópoles
Teve quem ressaltou a conscientização geral sobre o assunto
Na imagem com cor, print de um tweet - Metrópoles
Alguns usuários apontaram um “efeito manada” sobre a temática. As peças em questão já foram retiradas das lojas da Riachuelo

Outros exemplos

Quando marcas incorporam a padronagem em coleções sem considerar a sensibilidade histórica e cultural, elas cometem um erro grave. Engana-se quem pensa que só a Riachuelo lançou peças comparadas a uniformes de campos de concentração.

As marcas Calma, Souq Urban e Urban Outfitters são exemplos, entre muitos outros casos, em que as empresas causaram indignação ao não considerar o contexto histórico das roupas que produzem. Isso levanta questões importantes sobre a falta de pesquisa e de sensibilidade das empresas de moda em relação à responsabilidade social.

Na imagem com cor, um homem branco segurando peças de roupas - Metrópoles
A etiqueta Calma São Paulo também recebeu críticas após a repercussão das peças da Riachuelo
Na imagem com cor, uma vitrine com roupas - Metrópoles
Internautas apontaram ainda a vitrine da loja Souq, com coleção Solarium, que traz as listras em versão alfaiataria
Na imagem com cor, foto de divulgação de uma peça da loja Lança Perfume -Metrópoles
A Lança Perfume lançou uma coleção de roupas com tema militar alemão, em 2018

A moda é, definitivamente, uma forma de expressão pessoal, que, inclusive, pode refletir a identidade e até as crenças de alguém por meio das roupas escolhidas. Portanto, para algumas pessoas, vestir um traje que remete ao uniforme de campos de concentração pode ser profundamente perturbador e ofensivo.

A complexidade dessa situação ressalta como a moda pode representar uma batalha de criações e interpretações. É necessário que as marcas se eduquem e se fundamentem em noções básicas da história ao desenvolver roupas, para que não desonre as vítimas de um contexto trágico como o nazismo, por exemplo.