De volta a 68: festa de ex-alunos do Ciem reúne brasilienses ilustres
Cinquenta anos depois, estudantes do extinto colégio idealizado por Anísio Teixeira promovem reencontro em Brasília

Embalados pelas lembranças de maio de 1968, um grupo de amigos decidiu ir em busca de antigos alunos do extinto Centro Integrado de Ensino Médio (Ciem), escola ligada à Universidade de Brasília (UnB) e com projeto pedagógico de Anísio Teixeira.
Era para ser uma reunião pequena, mas o reencontro se transformou em um grande evento, que reunirá políticos, empresários, atletas e cientistas reconhecidos nacional e internacionalmente.
A lista de convidados inclui desde atletas, como o ex-corredor de Fórmula 1 Alex Dias Ribeiro e o bicampeão mundial de vela Cristiano da Rocha Miranda Pontes, até políticos, como o ex-presidente da República Fernando Collor de Mello. Foram chamadas 300 pessoas, e 150 confirmaram presença. A festa será neste sábado (26/5), na fazenda do economista Bernardo Figueiredo, na Fercal.Apesar de um extenso currículo com participações no alto escalão dos governos Collor, Lula e Dilma, o anfitrião se apresentou no grupo de WhatsApp criado para reunir os ex-colegas como o irmão da Maria Inês, a musa. Ela era considerada, como sugere Bernardo, uma das moças mais bonitas da escola.
Sem política, religião e futebol
A ideia surgiu em um encontro casual entre três ex-alunos: o jornalista Hélio Doyle, o engenheiro Ageu Ramos e o arquiteto Tom Rebello. Por iniciativa do trio, todos os convidados foram incluídos, desde fevereiro, em um grupo no WhatsApp.
Para evitar conflitos, ficou acertado que não poderia haver discussões sobre política, religião e futebol. Os integrantes tampouco poderiam usar a rede para fazer propagandas. Há, entre os convidados, vários empresários, médicos, arquitetos, pesquisadores e um pastor evangélico. Afinal, são 50 anos e uma infinidade de posições ideológicas.
“O Ciem foi um marco na vida de todos os que passaram por lá. Seria, ainda hoje, uma escola revolucionária. Cinquenta anos depois, ainda nos sentimos ligados ao Ciem e nos reencontramos com saudades e emoção”, disse Hélio Doyle.
A perspectiva do reencontro inspirou os ex-alunos. O engenheiro Ageu Ramos escreveu um livro em comemoração ao evento, que vai ser distribuído aos participantes. Uma das missões mais difíceis para a organização coube ao pesquisador Felipe Parente, irmão do presidente da Petrobras, Pedro Parente: reunir as sugestões e organizar a playlist da festa.
São mais de 1 mil canções, que vão de Valesca Popozuda à música instrumental russa. O destaque, no entanto, são os clássicos nacionais e internacionais da década de 1960. California Dreamin’, de The Mamas & The Papas, por exemplo, era um hino na época e fará parte das canções para embalar o churrasco, que começará ao meio-dia e só acabará às 20h.
Congraçamento
Uma vez por mês, os estudantes do Ciem deixavam as salas de aula para imersões nos clubes brasilienses. Os dias de diversão eram chamados de congraçamentos, nome que batizou a festa deste sábado (26/5). “São sexagenários revivendo a adolescência. Você consegue imaginar animação maior?”, disse Lourdinha Rollemberg Mollo, irmã do governador Rodrigo Rollemberg.
Para atualizar os ex-colegas sobre o que viveram nas últimas cinco décadas, vários integrantes do grupo aceitaram o desafio de escrever pequenas biografias. Um dos relatos mais impactantes foi o do diplomata George Ney de Sousa Fernandes, atual ministro-conselheiro da Embaixada do Brasil em Montevidéu. Ele descreveu o que passou em 2011, durante uma rebelião na Líbia, quando, sob constante bombardeio, precisou ajudar 600 brasileiros então vivendo na região a sair do país.
O ex-piloto de Fórmula 1 Alex Dias Ribeiro lembrou como a experiência no colégio impactou a sua carreira. “Entrei no Ciem em 1966, como piloto de autorama. Saí de lá piloto revelação do automobilismo, depois de construir um carro de corrida na Camber, uma oficina de fundo de quintal, derivada do Clube de Mecânica das Práticas Educativas Vocacionais do Ciem”, compartilhou no grupo. Ribeiro competiu até a década de 1980.
“Volta e meia, contava aos meus filhos e seus amigos que eu estudei num colégio, há 50 anos, que, se fosse implantado hoje tal qual era, seria simplesmente revolucionário”, escreveu a professora Luana Le Roy.
Ela listou características disruptivas em forma de perguntas: “Velocidade própria? Cada um no seu ritmo? Cada um fazia seu próprio horário? Não tinha cobrança e coação? Cada um era responsável pela sua formação e aproveitava o que o colégio oferecia por interesse próprio? Cada um podia escolher quando faria as provas? Aprendiam fazendo experiências sozinhos, nos laboratórios? Prova com apenas três perguntas? Assistiam a aulas teóricas se quisessem? E dava certo?”.
Conheça alguns dos ex-alunos:
O projeto
O Ciem foi uma iniciativa única capitaneada por Anísio Teixeira. Em pleno regime militar, o colégio tinha como princípio formar cidadãos com capacidade crítica. Não por acaso, foi um dos pontos de maior efervescência política durante os anos de chumbo na capital do país.
Foi o berço do líder estudantil Honestino Guimarães, preso e morto anos depois. Funcionou de 1964 até 1971, quando a escola foi definitivamente fechada, após diversas intervenções dos militares na direção e condução da unidade de ensino.
Hoje, o prédio abriga o ambulatório do Hospital Universitário de Brasília (HUB). O local preserva um dos principais símbolos daquele período para os estudantes: a caixa-d’água. Era no alto do reservatório que muitos jovens conversavam e fugiam da perseguição de infiltrados do regime militar no colégio. Não por acaso, uma foto da caixa-d’água ilustra o grupo de WhatsApp criado para reunir os ex-estudantes 50 anos depois.

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