Fábia Oliveira

Marília Toledo sobre musical de Gal Costa: “Dramaturgia muito potente”

Em conversa com a coluna, a dramaturga e diretora falou sobre o sucesso da peça sobre Gal, que aposta em uma abordagem que foge do óbvio

atualizado

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À frente de grandes sucessos dos palcos brasileiros, Marília Toledo segue explorando histórias de artistas icônicos com profundidade e sensibilidade. Em conversa exclusiva com a coluna Fábia Oliveira, a dramaturga e diretora falou sobre o sucesso de Ney Matogrosso – Homem com H e da recém lançada Gal, O Musical, que aposta em uma abordagem que foge do óbvio e mergulha no universo íntimo da cantora.

“Acho que a gente criou uma dramaturgia muito potente que foge do usual, porque a gente criou personagens míticos que fazem parte do inconsciente da Gal Costa”, explicou.

Acostumada a lidar com figuras tão presentes no imaginário popular, Marília reconhece o tamanho da responsabilidade ao levar essas histórias para o palco: “É uma responsabilidade tremenda, porque as pessoas já têm a Gal delas, né? Cada um tem a sua própria imagem do que foi a Gal, como se relacionava com ela”, afirmou.

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Na construção da narrativa, aspectos pessoais da cantora também tiveram forte impacto. A proposta é apresentar não só a trajetória pública, mas também os conflitos internos da artista, criando uma conexão mais profunda com o público.

Leia a entrevista completa com Marília Toledo:

Ney Matogrosso – Homem com H está em cartaz com grande sucesso. Como foi transformar uma figura tão icônica quanto Ney em dramaturgia sem cair na caricatura?
Foi fácil transformar a dramaturgia da vida do Ney numa dramaturgia bastante potente, sem caricaturas e sem clichês, porque a vida dele é extremamente potente, com grandes viradas, ganchos, um antagonista muito evidente, que foi o próprio pai, e perdas amorosas para a AIDS. Então, era uma história muito dada. Parece que a história do Ney Matogrosso está totalmente inserida na jornada do herói, que a gente geralmente usa para estruturar os nossos roteiros e nossos textos de teatro de biografias musicais, no caso. Então, em nenhum momento a gente sentiu que estava esbarrando em coisas caricatas ou estereotipadas.

Gal, o musical estreia em março. O que o público pode esperar dessa Gal que você está construindo nos palcos?
Bom, o público pode esperar se emocionar profundamente. Acho que a gente criou uma dramaturgia muito potente que foge do usual, porque a gente criou personagens míticos que fazem parte do inconsciente da Gal Costa. Então, ao mesmo tempo que a gente conta a história da vida dela, a gente leva o público para dentro da cabeça dela, o que a Gal sentiu, o que a Gal pensava, com partes do inconsciente dela que interagem a peça inteira com a Gal. Até um determinado momento, no primeiro ato, ela não se dá conta disso. Ela é influenciada por eles e os influencia sem se dar conta. E, no segundo ato, ela começa a perceber essas figuras do inconsciente e a dialogar com elas. Então, a gente tem dois eixos paralelos de narrativa: um que é a vida dela e o outro que é a vida interna dela. Está extremamente emocionante. A atriz que interpreta a Gal, Walerie Gondim, é um fenômeno! Ela está parecidíssima com a Gal Costa, não só visualmente, mas também vocalmente. E é uma atriz de grande potência. Então, eu acho que a emoção é o que vai dominar.

Há alguma descoberta sobre Gal Costa que te emocionou pessoalmente durante a pesquisa?
O que mais me emocionou foi a história da ausência do pai dela. O Arnaldo se casou com a Mariah e, quando a Gal nasceu, a Mariah descobriu que ele tinha outra família com seis filhos e eles se separaram. E a Gal não conhece o pai. Ela vê o pai uma única vez, de costas, subindo num bonde, e ele morre quando ela ainda era adolescente, por volta dos 14 anos. Então, isso marcou bastante a vida dela. Essa questão toda emocional que a Gal teve ao longo da vida, na nossa interpretação, tem muito a ver com essa ausência paterna. Foi bastante comovente para a gente lidar com essa ausência.

Existe uma responsabilidade maior ao contar histórias de artistas que são tão presentes no imaginário brasileiro?
É uma responsabilidade tremenda, porque as pessoas já têm a Gal delas, né? Cada um tem a sua própria imagem do que foi a Gal, como se relacionava com ela. Cada um tem a sua canção de Gal preferida. Então, para a gente é muito curioso quando perguntam do repertório e sentem falta de alguma. A gente teria que ter 200 horas de musical. Então, é uma responsabilidade para Walerie Gondim, principalmente, interpretar alguém tão icônico. Gal era realmente um ícone. E então a gente trata com muito respeito. Eu acho que o que a gente fez foi pesquisar incessantemente. A gente continua pesquisando porque a pesquisa jamais para. Assim como no musical do Ney, a gente também até hoje faz mudanças e vai adaptando com coisas que a gente sente que fazem mais sentido. Então, é tratar com muito respeito e entender que tem, sim, responsabilidade. Mas todo mundo da minha equipe está se dedicando como eu nunca vi. A gente está todos há mais de um ano mergulhados nessa história e nessa figura. E, inclusive, fomos para Salvador fazer as audições para respeitar o local de origem da Gal. Trouxemos baianos para interpretar as figuras mais importantes da vida dela. Então, realmente, a palavra que impera aqui é respeito.

Como foi trabalhar com Manoel Carlos em Momentos em Família? Alguma lembrança especial dos bastidores?
Na verdade, eu não trabalhei diretamente com o Manoel Carlos porque eu não escrevi. Eu não era colaboradora da novela, da dramaturgia da novela. Eu fiz o “Momentos em Família”, que eram episódios de um minuto, como se fossem curtas-metragens que aconteciam antes da novela, com atores que não estavam na novela. Eram histórias de família e eram sem diálogos. Eram cenas muito bonitas. E foi dirigido pelo João Daniel Tikhomiroff, da Mixer, e ele que encabeçou esse projeto. Então, eram curtas-metragens de um minuto que eram bastante impactantes por trazer histórias bonitas de família, entre pais e filhos, principalmente. Eu não tive relação com o Manoel Carlos, infelizmente.

Existe um tipo de história que você ainda sonha em contar nos palcos?
Ah, existem infinitas histórias que eu tenho vontade de contar nos palcos, né? A gente tem uma cultura riquíssima, não só de artistas que a gente poderia pensar em biografar musicalmente, mas também literatura. A literatura do país é riquíssima. E eu, como dramaturga, também tenho vontade de contar histórias minhas, histórias próprias. Então, é infinito o desejo de trazer histórias para o palco.

Você construiu uma carreira forte em um meio ainda dominado por homens. Já sentiu barreiras por ser mulher?
Sempre barreiras por ser mulher, sempre, do começo até hoje. Eu sinto que a mulher tem que sempre falar mais alto para ser ouvida, para ser respeitada. Em alguns momentos, a gente tem que deixar claro, em salas de reunião, que existe machismo imperando. É uma discussão longa, mas eu sempre tive que me impor demais para conseguir conquistar o meu espaço profissional e pessoal também. Eu acho que é impossível encontrar uma mulher que não tenha esbarrado com machismo, esbarrado com preconceito, esbarrado com a questão de estar empregada no momento em que engravida e como os homens encaram isso, de que você vai ter que sair de licença-maternidade. Isso é um peso na sociedade ainda. Então, a gente sente vergonha por estar grávida e por ser um transtorno, por ter que se ausentar. Assim, de diversas maneiras, em diversas camadas e instâncias, eu já senti barreira. E a gente fala disso no musical da Gal Costa o tempo inteiro. É um musical que aborda explicitamente o machismo e a misoginia.

Que conselho você daria para jovens dramaturgas e roteiristas que estão começando agora?
Olha, o meu conselho seria aprender a produzir. Eu só consegui vingar como dramaturga pelo fato de eu ter aprendido desde o meu primeiro espetáculo, que foi o “Amídalas”, um musical infantojuvenil que escrevi em parceria com o Rodrigo Castilho e com músicas do Chico César. Eu falei para o Rodrigo, quando a gente escreveu o texto, que, se a gente não aprendesse a produzir, ninguém iria produzir. Nós tínhamos 21 anos, na época, então quem é que ia confiar e pegar um texto de dois moleques para botar na lei e sair captando?! Foi uma experiência bastante importante para a gente. A gente aprendeu a colocar na lei de incentivo, a ir atrás de patrocínio e montamos. E, felizmente, ganhamos um prêmio APCA e o prêmio Ofensa, que existia na época. Foi um espetáculo premiado e que fez história. A gente fez muito sucesso em SP e depois foi para o Rio de Janeiro, onde repetiu o sucesso. Marcou uma geração ali com músicas belíssimas do Chico César, que depois virou o CD. Então, se eu não tivesse aprendido a me produzir, a produzir as minhas peças, eu talvez não tivesse chegado onde eu cheguei. Acho que o artista hoje tem que saber se colocar no mercado, sem ficar dependendo de alguém gostar do seu trabalho e decidir fazer e montar por você. Então, o meu conselho é esse: aprendam os mecanismos de incentivo que existem no país e, principalmente, editais, para poder se inserir no mercado.

Se pudesse escolher um artista vivo para criar um musical amanhã, quem seria?
Seria o Caetano Veloso. Eu já até tentei adquirir os direitos, mas não tive sucesso. Eu adoraria contar a história do Caetano.

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