Demétrio Vecchioli

Fundo de Vorcaro recomprou ações e deu lucro rápido a empresa de Ciro

Após vender parte de empresa a Ciro Nogueira, fundo ligado a Vorcaro comprou dela ações em empresa de energia solar

atualizado

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Senador Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro - Metrópoles
1 de 1 Senador Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro - Metrópoles - Foto: Reprodução/Metrópoles

Um fundo de investimentos atribuído à família Vorcaro comprou a maior parte do patrimônio que pertencia à Green Investimentos SA, empresa que por sua vez tinha a CNLF Empreendimentos Imobiliários, ligada ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), como uma de suas sócias. A transação, que funcionou como recompra do que havia sido vendido ao político meses antes, deu liquidez formal à Green durante período em que o líder do PP teria recebido R$ 300 mil mensais de “uma empresa do grupo Master”.

O pagamento mensal, citado em decisão do ministro André Mendonça do STF, foi admitido pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, em entrevista ao Acorda Metrópoles na manhã desta segunda-feira (11/5). Pouco depois ele foi destituído da função de defensor de Ciro.

Na representação que deu origem à operação contra o senador na semana passada, a PF atribuiu o pagamento mensal aos dividendos da Trinity Energias Renováveis, que distribuiu R$ 12 milhões de lucro aos seus acionistas em 2024, referentes ao exercício de 2023. Os 20% que cabiam à Green Investimentos SA (R$ 2,4 milhões) foram recebidos em julho, conforme seu presidente relatou ao primo Daniel Vorcaro em mensagens interceptadas pelos investigadores.

Só essa transação renderia R$ 720 mil a Ciro Nogueira, de acordo com a PF. Isso porque a CNLF, formalmente administrada por um irmão do senador, havia comprado por R$ 1 milhão, em abril de 2024, uma participação de 30% na Green Investimentos SA que até então pertencia ao fundo Green Energia FIP Multiestratégia.

De acordo com os investigadores, a orientação de Daniel Vorcaro ao primo era para que a participação da empresa de Ciro no negócio ensejasse a percepção de dividendos “sem que a operação ingressasse no radar de eventuais mecanismos de fiscalização”. Só que a Trinity não distribuiu lucro em 2024 ou 2025, conforme apurou a coluna.

Pelo contrário: teve prejuízo. Sem receber esses dividendos, a Green Investimentos não teria receita para distribuir aos acionistas, entre eles a CNLF, de Ciro Nogueira.

Em 11 de fevereiro de 2025, porém, o mesmo fundo que havia vendido uma parte da Green Investimentos para a CNLF de Ciro aprovou comprar a totalidade das 642.897 ações da Trinity que formalmente pertenciam à mesma Green, conforme documentação acessada pelo Metrópoles. O balanço da Trinity apontava que essas ações valiam R$ 5,5 milhões ao final de 2024.

O valor final da transação não foi detalhado pelo fundo, mas serviu para dar transferir dinheiro do fundo ligado a Vorcaro ao caixa da Green Investimentos, dando liquidez à empresa e possibilitando eventual pagamento de dividendo aos sócios. Entre eles, a empresa da família de Ciro Nogueira.

O Metrópoles revelou no fim de semana que Ciro Nogueira comprou um triplex de R$ 22 milhões em São Paulo três meses depois de virar sócio de Daniel Vorcaro e 26 dias antes da “Emenda Master”, que teria sido encomendada pelo banqueiro e ampliava o seguro do FGC para R$ 1 milhão por investidor.

BRGD também não distribuiu lucro

Outra empresa citada pela PF na investigação sobre a relação entre Vorcaro e Ciro Nogueira, a BRGD SA distribuiu somente R$ 440 mil em dividendos ao seu então único acionista, um fundo de investimento, entre 2023 e 2024.

Em conversas com o Daniel Vorcaro, descobertas pela PF e citadas na decisão do ministro André Mendonça, seu primo Felipe pergunta se “é para seguir com o pagamento dos 300k para o pessoal que investiu na BRGD” e, na falta de resposta, reforça: “É para continuar pagando a parceria BRGD/CNLF 300k mês?”. “300k” é uma forma coloquial de se referir a R$ 300 mil.

A BRGD é uma empresa do mesmo grupo econômico da ForGreen, e, em 2024, era 100% detida pelo fundo Brazil Clean Energy I FIP em Infraestrutura, liquidado compulsoriamente no fim de 2024, após sua administradora (a LAD Capital) renunciar e o único cotista não indicar um substituto.

Quando isso aconteceu, todas as ações da BRGD foram entregues diretamente ao único cotista, que não é informado na documentação enviada à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Oscar Vorcaro, pai de Felipe, havia sido diretor da empresa e assinava por ela.

No fevereiro de 2024, um oficial de Justiça tentou notificar a BRGD em sua sede formal em Nova Lima (MG) e o recepcionista do prédio disse “nunca ter ouvido falar no nome da empresa”. Outra duas funcionárias disseram que a firma chegou a ocupar duas salas no edifício, mas haviam saído há mais de dois anos. O site da BRGD está inativo e, seu perfil no Instagram, inativo desde 2022.

Em maio de 2024 – um mês depois de Ciro se tornar sócio dos Vorcaro -, uma assembleia da BRGD alterou o comando da empresa. Saiu o diretor Antônio Terra de Oliveira Neto e Marcelo Tavares Faria foi eleito diretor-presidente. Os dois são sócios de Felipe Vorcaro na ForGreen, empresa de energia solar que nega qualquer relação com o esquema investigado.

Pela decisão de Mendonça da semana passada, foram suspensas por tempo indeterminado as atividades da CNLF, da BRGD, da Green Investimentos e da Green Energia FIP.

O que dizem os envolvidos

Conrado Gontijo, novo defensor de Ciro Nogueira, disse que sua primeira tarefa é de se inteirar do teor das peças do caso e não comentou as informações citadas na reportagem. Gestora do Green Energia FIP, a LAD Capital informou, em fato relevante, que renunciou ao posto.

O grupo ForGreen, que assumiu perante o mercado ter a BRGD e a Green Investimentos dentro de seu organograma, disse não ter relação com as empresas. Segundo o ForGreen, Marcelo Tavares Faria é presidente e único diretor da BRGD, mas sua atuação “não inclui alçada sobre a área financeira”. Da mesma forma, Antonio Terra também não tinha essa alçada quando respondia pela empresa.

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