Demétrio Vecchioli

BRB abriu mão de cobrar Master por carteiras podres para não melar aquisição

BRB considerou que acionamento de cláusula de recompra das carteiras podres atrapalharia o “projeto Vértice”, de compra do Master

atualizado

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1 de 1 brbmaster - Foto: Arte/Metrópoles

O BRB tinha a opção de exigir que o Banco Master comprasse de volta as carteiras de crédito podres que havia lhe vendido. Documentos obtidos pela coluna, contudo, mostram que o Banco de Brasília abriu mão desse direito para não minar a liquidez do parceiro e não atrapalhar a obtenção de autorização do Banco Central para o negócio principal, que era comprar o Master como um todo. A transação acabou barrada pelo BC mesmo assim.

Paulo Henrique Costa, presidente do BRB à época das compras, foi preso nesta quinta-feira (16/4) pela Polícia Federal, sob suspeita de ter aprovado as transações em troca de propina.

A representação da PF cita que, de um lado, Costa teria colocado a presidência do BRB a serviço da manutenção da liquidez do Banco Master e, de outro, negociava receber R$ 146 milhões de propina de Daniel Vorcaro a partir da transferência de seis imóveis em São Paulo e em Brasília.

Esse movimento da presidência do BRB a favor da liquidez do Master, necessária para a compra do banco pelo BRB, é citado em um parecer assinado pelo diretor jurídico Jacques Veloso de Melo em 5 de maio de 2025:

“Ante a insuficiência do lastro [das carteiras do Master], informa-se o enquadramento nas hipóteses de indenização (recompra). Porém justifica-se que a recompra no atual estágio do Projeto Vértice poderia ensejar potencial prejuízo ao seu seguimento, ante a atual situação de liquidez do Banco Master“, escreve Veloso.

Os problemas da carteiras vendidas pelo Master durante o segundo semestre de 2024 e nos primeiros meses de 2025 já eram conhecidas pelo BRB desde fevereiro, quando foi instituído o Grupo de Trabalho de Avaliação do Processo de Conciliação da Carteiras Adquiridas.

Na época, o BRB já discutia a proposta enviada formalmente por Vorcaro na primeira semana de janeiro, oferecendo o Master para ser comprado pelo BRB. A negociação ganhou o nome de “Projeto Vértice” e só foi tornada pública em 28 de março, quando a proposta de aquisição do Master pelo BRB foi submetida ao BC.

Enquanto o Banco Central analisava o negócio, BRB e Master discutiam o que fazer para solucionar o problema das carteiras podres. E, como aponta a PF, Vorcaro e Costa negociavam suposto pagamento de propina.

Diretoria do BRB optou por não acionar cláusulas

Os contratos de compra previam a recompra – na prática, que o Master devolvesse o dinheiro e pegasse as carteiras de volta – se o Master não disponibilizasse documentos que comprovassem a boa e correta formalização dos direitos creditórios (empréstimos).

Até aquele momento no início de maio, porém, o Master, que já havia recebido mais de R$ 10,6 bilhões do BRB, só havia apresentado cerca de 400 contratos. Faltava demonstrar que outros 1,85 milhão de empréstimos que compunham as carteiras existiam de fato.

Por contrato, o BRB poderia exigir a recompra das carteiras. Mas isso acabaria com o pouco de liquidez que ainda restava ao Master, tornando-o insolvente.

A grosso modo: o Master não tinha dinheiro para a recompra.

As duas partes começaram a firmar um novo acordo ainda em fevereiro. O Master, entre outras coisas, deveria enviar em até 15 dias todos os documentos que comprovassem as aquisições de carteiras de terceiros (o que nunca aconteceu, até porque, como se sabe, as carteiras da Tirreno não existiam) e contratar uma auditoria independente.

O acordo, porém, só foi aprovado pela Diretoria Colegiada do BRB em 5 de maio, mesma reunião em que a diretoria comandada por Costa decidiu que, pelos próximos 120 dias, o banco não deveria acionar qualquer cláusula de recompra das carteiras do Master.

Auditoria insuficiente

Depois de negociar com a KMPG, a auditoria contratada foi a Deloitte, em um contrato criticado por Veloso. A auditoria envolvia somente as operações realizadas em 2024 (e a maior parte delas aconteceu em 2025) e com análise de apenas 357 contratos em um universo de 500 mil.

Apesar do intervalo de confiança baixo (93%), o contrato de auditoria foi aprovado pela Diretoria Colegiada do BRB em 15 de maio, na mesma reunião em que autorizou mais uma compra de R$ 750 milhões em carteiras do Master e pediu que mais R$ 750 milhões fossem comprados.

Também foi acordada uma espécie de garantia em cima de carteiras de crédito do Will Bank e do Master, ancoradas em cartão de crédito. Todo mês o Master emitiria Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) com vencimento sempre no dia 5 do mês seguinte ao das faturas, consolidas em um único contrato (3CB) registrado na B3.

O BRB compraria essa 3CB com deságio e, no dia do vencimento, o Master a recompraria, emitindo uma nova 3CB para o mês seguinte, lastreada nas novas faturas, que seria novamente comprada pelo BRB.

Já o rombo causado pelas carteiras podres vendidas pelo Master foi resolvido, como se sabe, com a substituição delas por ativos que, em tese, eram mais saudáveis.

O processo de substituição começou formalmente em 12 de fevereiro de 2025, quando o Master enviou e-mail solicitando a troca de uma carteira que havia sido vendida em dezembro. Novos pedidos foram feitos, na sequência, em 19 de fevereiro e 26 de fevereiro.

Nenhum dos pedidos justificava por que o Master queria “trocar” a carteira vendida. Na última dessas três trocas, empurrou para o BRB, por R$ 251 milhões, uma carteira podre que havia comprado da Tirreno um dia antes por R$ 143,8 milhões, lucrando R$ 107 milhões em um dia.

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