STF recebe obra de Antonio Veronese em conscientização ao feminicídio
Painel Sete Marias, do artista Antonio Veronese, passa a integrar o acervo permanente da Corte como um manifesto contra violência de gênero

O acervo permanente do Supremo Tribunal Federal (STF) recebe, nesta quinta-feira (6/8), o painel Sete Marias, do artista plástico Antonio Veronese. O projeto será inaugurado no Hall dos Bustos do tribunal como um manifesto contra o feminicídio e a violência de gênero — temas que o artista considera uma das maiores urgências do país.
A cerimônia de inauguração, prevista para começar às 18h, contará com a presença do presidente do STF, ministro Edson Fachin.
A obra instalada na entrada principal da Corte é acompanhada por um texto do ministro aposentado Carlos Ayres Britto, que define o painel como uma denúncia “do que há de pior contra o que há de melhor sobre a face da Terra: o ser humano que designamos por… mulher”, em referência à violência praticada contra as mulheres.
Antonio Veronese concebeu a obra em resposta aos altos índices de feminicídio no país
Em entrevista à coluna Claudia Meireles, o artista revelou que Sete Marias nasceu de maneira inesperada. Inicialmente, ele havia sido convidado pela então presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, para produzir um painel sobre democracia destinado ao Salão Nobre da Corte. Durante o processo criativo, porém, uma estatística mudou completamente os rumos da obra.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles“Enquanto preparava esse trabalho, tomei conhecimento dos quatro feminicídios registrados diariamente no Brasil, além de outras 11 tentativas de assassinato contra mulheres todos os dias. Eu não consegui acreditar naqueles números. Aquilo me chocou profundamente”, conta.

A indignação foi tamanha que o projeto original passou por uma transformação quase involuntária. “O painel sobre a democracia começou, inconscientemente, a se metamorfosear em uma obra dedicada a denunciar o feminicídio. Deixou de ser uma homenagem à democracia para se tornar uma crítica contundente à covardia dos homens contra as mulheres.”
Para Antonio Veronese, o feminicídio representa uma das formas mais perversas de violência justamente porque acontece, na maioria das vezes, dentro de casa.
“O feminicídio é um dos, e talvez o pior dos, crimes, porque ele é cometido no foro íntimo de um casal, que é o lar deles, e pelo homem que deveria ser quem cuida da segurança e da proteção da mulher. É um crime de uma covardia sem limites, que envergonha os homens e envergonha o Brasil aos olhos do mundo”, destaca.
Mulheres sobreviventes
Ao contrário do que se poderia imaginar em uma obra sobre violência, Sete Marias não busca retratar mulheres vencidas pelas estatísticas. As sete figuras femininas representadas no painel carregam marcas da violência sofrida, mas permanecem de pé, em uma leitura que busca preservar a dignidade e a força para seguir em frente.
“Eu não queria fazer mulheres derrotadas pela violência. Eu optei por fazer mulheres que, apesar da violência, mantém a dignidade e seguem em frente mesmo diante do sofrimento e da história que passaram.”

Embora reconheça os avanços institucionais no enfrentamento à violência contra a mulher, o artista plástico acredita que a mobilização da sociedade ainda não acompanha a gravidade do problema. A arte entra justamente nesse espaço de sensibilização.
“A arte é um instrumento extraordinário para dar uma bofetada na indiferença, na frieza de uma parte da sociedade diante de dramas tão terríveis”, diz.
De acordo com Antonio, a instalação da obra dentro da principal Corte do país é uma representação da importância da pauta para a justiça brasileira.
“Eu recebi esse convite com extrema humildade e ciente da importância que essa instalação, que essa abertura do STF, tem para isso. Isso demonstra, de forma muito clara, o compromisso do tribunal no combate ao feminicídio”, destaca o artista, que enaltece ainda a sensibilidade do presidente do STF, ministro Edson Fachin, da ministra Cármen Lúcia e do ministro aposentado Carlos Ayres Britto para que a obra passasse a integrar o patrimônio da Corte.
Próximo destino: UNESCO
Após a inauguração da obra, o artista Antonio Veronese compartilha que segue para um novo projeto. Desta vez, para a UNESCO, em Paris.
“É um espaço maravilhoso, onde eu expus em 2008. Agora, seria a doação de um painel que será instalado em um espaço especial, ao lado de um painel de Pablo Picasso. É algo que me honra enormemente, e vou me dedicar a fundo a isso”, finalizou.
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