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Antonio Veronese recebe convidados em encontro sobre processo criativo
Ao lado da esposa, Veronese recebeu grupo de arte em uma tarde na qual revelou seu processo criativo e a força social de sua obra
atualizado
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Na segunda-feira (9/2), o artista plástico Antônio Veronese abriu as portas de sua casa, ao lado da esposa, Elizabeth Amorim Veronese, para receber um grupo de artistas e entusiastas convidados em uma vivência dedicada à arte, ao processo criativo e ao poder transformador da cultura.
O encontro foi marcado por conversas profundas sobre impulso artístico, violência social, memória coletiva e o papel do rosto humano como território infinito de expressão.
Em meio a cerca de 20 a 30 obras distribuídas pela sala — entre pinturas em óleo e acrílico — Veronese conduziu os visitantes por sua trajetória e por sua forma singular de criar, transformando a visita em um verdadeiro mergulho no universo da arte contemporânea.
A arte de Antonio Veronese
Ao longo da conversa, o artista explicou que seu processo criativo nasce do gesto livre, antes de qualquer racionalização. Enquanto muitos pintores planejam cada detalhe, Veronese começa pelo impulso — muitas vezes desenhando sem olhar, como forma de silenciar o lado lógico da mente.
Segundo ele, o hemisfério esquerdo, responsável pelo pensamento pragmático, costuma bloquear a criação com críticas internas. Já o direito, mais intuitivo, permite liberdade total.
“Se eu abrir os olhos, o lado racional diz que eu não sei fazer aquilo. Então, o deixo de lado e trabalho com o impulso. O primeiro gesto vem do nada. Depois, eu arrumo os defeitos mais evidentes.”
É dessa pulsão inicial que surgem, quase sempre, os rostos que se tornaram marca central de sua obra.
O artista contou que um de seus grandes painéis internacionais teve o desenho inicial feito às duas da manhã, dentro do ateliê, com as luzes apagadas — experiência que simboliza sua entrega ao inconsciente como motor da criação.
Antonio Veronese
Esse método ganhou força definitiva a partir de um dos projetos mais impactantes de sua carreira: a exposição 600 Meninos.
Os 600 rostos que mudaram sua trajetória
A ideia surgiu quando foi convidado a ocupar uma enorme sala no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Na época, o estado registrava cerca de 600 crianças e adolescentes assassinados por ano — um número que, segundo ele, havia se tornado banalizado.
Para devolver a essas vítimas o direito à memória, Veronese produziu 600 retratos em apenas 10 meses, inspirando-se nas máscaras mortuárias do Egito Antigo.
“Eu não conhecia aquelas crianças, mas quis dar a cada uma o direito de existir na memória coletiva. Foi como abrir a Caixa de Pandora. Nunca mais consegui sair do rosto humano.”
A repercussão foi intensa, com grande impacto público e até ameaças ao artista. Mas também abriu uma nova fase em sua produção.
O rosto como oceano de significados
Desde então, os rostos dominam sua obra — inicialmente carregados de dor e dramaticidade, refletindo a violência urbana brasileira, e mais tarde atravessados por outras emoções após seus 23 anos vivendo em Paris.
Para Veronese, o rosto humano é um universo inesgotável. Ele defende que não se deve limitar a interpretação do público com títulos explicativos. Assim como uma música pode fazer uns dançarem e outros chorarem, suas pinturas são convites à experiência individual.
“Se eu dou um nome à obra, eu encaminho o pensamento do outro. Se não dou, cada pessoa sente à sua maneira, de acordo com sua sensibilidade.”

A fase do vermelho e a liberdade do acrílico
Outro destaque do encontro foi a presença marcante do vermelho em muitas obras — cor que passou a dominar sua paleta a partir de 2010.
Para o artista, o vermelho simboliza vida, sangue, paixão e intensidade emocional, além de equilibrar visualmente as composições.
Nos últimos anos, Veronese também passou a explorar o acrílico, técnica que nunca havia utilizado anteriormente e que aparece em boa parte das obras expostas na residência.
Arte como denúncia: o painel das Sete Marias
Entre os trabalhos comentados está o painel Sete Marias, criado para um espaço institucional em Brasília.
Embora o projeto inicial abordasse a democracia, a violência contra a mulher se impôs como tema central diante dos dados alarmantes de feminicídio no Brasil. O painel retrata sete mulheres sobreviventes da violência, com marcas sutis nos corpos — quase imperceptíveis — que simbolizam traumas, resistência e dignidade.
“Está quase sendo criminalizado o fato de ser mulher no Brasil. Isso precisa ser assunto central da sociedade.”

Uma carreira que atravessa fronteiras
Ítalo-brasileiro, Antônio Veronese vive na França desde 2004 e construiu uma das trajetórias internacionais mais expressivas da arte contemporânea brasileira.
Com 74 exposições individuais pelo mundo, é considerado por críticos franceses como um dos 10 pintores vivos que já deixaram sua marca na história da arte.
Seu trabalho de denúncia social nas décadas de 1980 e 1990 lhe rendeu a menção honoris causa do Supremo Tribunal de Justiça, por indicação do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas (ILANUD).
Entre suas obras de maior projeção, estão:
- Save the Children, símbolo dos 50 anos da ONU;
- Just Kids, obra-símbolo da UNICEF;
- La Marche, exposta no Parlamento do Brasil desde 1995;
- Famine, exibida desde 1994 na FAO, em Roma.
Veronese já expôs em diversos países, incluindo Brasil, Estados Unidos, França, Alemanha, Japão, Suíça, Portugal e Dubai, além de ter representado o Brasil nas comemorações dos 50 anos da ONU e em encontros internacionais de direitos humanos.
Aproximar a arte das pessoas
O encontro faz parte de uma série de vivências culturais idealizadas por Lara Calaça, que busca aproximar o público da arte por meio de visitas a artistas, coleções privadas e instituições.
“Esse encontro surgiu de uma conversa que eu tive com o próprio artista. Ele me mostrou todo o seu conceito, como surgem as suas obras por meio do material, da figura e do olhar. E aquilo me encantou. Porque atrás de toda aquela figura abstrata, tem um significado muito maior do que isso”, disse Lara, em entrevista à coluna Claudia Meireles.
“Ele expressa as suas obras com o olhar. Isso me deixou encantada. E achei que esse conhecimento não devia ficar só comigo. Achei que eu deveria compartilhar também”, compartilhou Lara Calaça, que teve, com esse evento, o intuito de aproximar a arte através de significados. “Eu acho que a arte transforma. A partir da arte a gente pode trazer esse novo significado e olhares – e quem sabe um mundo novo”, concluiu.
A proposta é transformar a experiência artística em algo acessível, sensível e humano – criando conexões diretas entre criadores e espectadores.
Durante o bate-papo, Veronese destacou a importância de iniciativas como essa para fortalecer a cultura e ampliar o repertório das pessoas.
Segundo ele, o contato com a arte desde a infância influencia profundamente a formação emocional, intelectual e social.
“A diferença na sensibilidade de quem cresce com arte é enorme.”

Um encontro de escuta, emoção e troca
Ao final da visita, o clima era de gratidão e encantamento. Veronese se mostrou emocionado com o interesse dos participantes, ressaltando a qualidade das perguntas e a sensibilidade do grupo.
O que começou como uma visita transformou-se em uma conversa profunda sobre criação, dor social, beleza, política, memória e humanidade.
Mais do que observar quadros, os convidados puderam compreender que cada rosto pintado carrega um gesto de impulso, uma história invisível e uma tentativa constante de traduzir o que palavras não alcançam.
Confira quem esteve presente no encontro do grupo de arte com Antonio Veronese e Elizabeth Veronese, pelas lentes de Matt Ferreira:






















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