Claudia Meireles

Antonio Veronese recebe convidados em encontro sobre processo criativo

Ao lado da esposa, Veronese recebeu grupo de arte em uma tarde na qual revelou seu processo criativo e a força social de sua obra

atualizado

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Matt Ferreira/Especial para o Metrópoles
Brasília – DF (09-02-2025)Artista Antonio Veronese e Elizabeth Veronese recebem Lara Calaça e grupo de arte. Fotos: Matt Ferreira/Especial para o Metrópoles.
1 de 1 Brasília – DF (09-02-2025)Artista Antonio Veronese e Elizabeth Veronese recebem Lara Calaça e grupo de arte. Fotos: Matt Ferreira/Especial para o Metrópoles. - Foto: Matt Ferreira/Especial para o Metrópoles

Na segunda-feira (9/2), o artista plástico Antônio Veronese abriu as portas de sua casa, ao lado da esposa, Elizabeth Amorim Veronese, para receber um grupo de artistas e entusiastas convidados em uma vivência dedicada à arte, ao processo criativo e ao poder transformador da cultura.

O encontro foi marcado por conversas profundas sobre impulso artístico, violência social, memória coletiva e o papel do rosto humano como território infinito de expressão.

Em meio a cerca de 20 a 30 obras distribuídas pela sala — entre pinturas em óleo e acrílico — Veronese conduziu os visitantes por sua trajetória e por sua forma singular de criar, transformando a visita em um verdadeiro mergulho no universo da arte contemporânea.

A arte de Antonio Veronese

Ao longo da conversa, o artista explicou que seu processo criativo nasce do gesto livre, antes de qualquer racionalização. Enquanto muitos pintores planejam cada detalhe, Veronese começa pelo impulso — muitas vezes desenhando sem olhar, como forma de silenciar o lado lógico da mente.

Segundo ele, o hemisfério esquerdo, responsável pelo pensamento pragmático, costuma bloquear a criação com críticas internas. Já o direito, mais intuitivo, permite liberdade total.

“Se eu abrir os olhos, o lado racional diz que eu não sei fazer aquilo. Então, o deixo de lado e trabalho com o impulso. O primeiro gesto vem do nada. Depois, eu arrumo os defeitos mais evidentes.”

É dessa pulsão inicial que surgem, quase sempre, os rostos que se tornaram marca central de sua obra.

O artista contou que um de seus grandes painéis internacionais teve o desenho inicial feito às duas da manhã, dentro do ateliê, com as luzes apagadas — experiência que simboliza sua entrega ao inconsciente como motor da criação.

Antonio Veronese

Esse método ganhou força definitiva a partir de um dos projetos mais impactantes de sua carreira: a exposição 600 Meninos.

Os 600 rostos que mudaram sua trajetória

A ideia surgiu quando foi convidado a ocupar uma enorme sala no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Na época, o estado registrava cerca de 600 crianças e adolescentes assassinados por ano — um número que, segundo ele, havia se tornado banalizado.

Para devolver a essas vítimas o direito à memória, Veronese produziu 600 retratos em apenas 10 meses, inspirando-se nas máscaras mortuárias do Egito Antigo.

“Eu não conhecia aquelas crianças, mas quis dar a cada uma o direito de existir na memória coletiva. Foi como abrir a Caixa de Pandora. Nunca mais consegui sair do rosto humano.”

A repercussão foi intensa, com grande impacto público e até ameaças ao artista. Mas também abriu uma nova fase em sua produção.

Antonio Veronese recebe convidados em encontro sobre processo criativo - destaque galeria
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Acervo de Antonio Veronese se une com o décor da casa
Antonio Veronese é recohecido por suas obras que retratam rostos
 Pintor lituano teve forte influência no expressionismo
Obras de Antonio Veronese
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Obras de Antonio Veronese

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Acervo de Antonio Veronese se une com o décor da casa
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Acervo de Antonio Veronese se une com o décor da casa

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Antonio Veronese é recohecido por suas obras que retratam rostos
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Antonio Veronese é recohecido por suas obras que retratam rostos

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 Pintor lituano teve forte influência no expressionismo
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Pintor lituano teve forte influência no expressionismo

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O rosto como oceano de significados

Desde então, os rostos dominam sua obra — inicialmente carregados de dor e dramaticidade, refletindo a violência urbana brasileira, e mais tarde atravessados por outras emoções após seus 23 anos vivendo em Paris.

Para Veronese, o rosto humano é um universo inesgotável. Ele defende que não se deve limitar a interpretação do público com títulos explicativos. Assim como uma música pode fazer uns dançarem e outros chorarem, suas pinturas são convites à experiência individual.

“Se eu dou um nome à obra, eu encaminho o pensamento do outro. Se não dou, cada pessoa sente à sua maneira, de acordo com sua sensibilidade.”
Livro das obras de Antonio Veronese

A fase do vermelho e a liberdade do acrílico

Outro destaque do encontro foi a presença marcante do vermelho em muitas obras — cor que passou a dominar sua paleta a partir de 2010.

Para o artista, o vermelho simboliza vida, sangue, paixão e intensidade emocional, além de equilibrar visualmente as composições.

Nos últimos anos, Veronese também passou a explorar o acrílico, técnica que nunca havia utilizado anteriormente e que aparece em boa parte das obras expostas na residência.

Arte como denúncia: o painel das Sete Marias

Entre os trabalhos comentados está o painel Sete Marias, criado para um espaço institucional em Brasília.

Embora o projeto inicial abordasse a democracia, a violência contra a mulher se impôs como tema central diante dos dados alarmantes de feminicídio no Brasil. O painel retrata sete mulheres sobreviventes da violência, com marcas sutis nos corpos — quase imperceptíveis — que simbolizam traumas, resistência e dignidade.

“Está quase sendo criminalizado o fato de ser mulher no Brasil. Isso precisa ser assunto central da sociedade.”
Antonio Veronese apresentando suas obras aos convidados

Uma carreira que atravessa fronteiras

Ítalo-brasileiro, Antônio Veronese vive na França desde 2004 e construiu uma das trajetórias internacionais mais expressivas da arte contemporânea brasileira.

Com 74 exposições individuais pelo mundo, é considerado por críticos franceses como um dos 10 pintores vivos que já deixaram sua marca na história da arte.

Seu trabalho de denúncia social nas décadas de 1980 e 1990 lhe rendeu a menção honoris causa do Supremo Tribunal de Justiça, por indicação do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas (ILANUD).

Entre suas obras de maior projeção, estão:

  • Save the Children, símbolo dos 50 anos da ONU;
  • Just Kids, obra-símbolo da UNICEF;
  • La Marche, exposta no Parlamento do Brasil desde 1995;
  • Famine, exibida desde 1994 na FAO, em Roma.

Veronese já expôs em diversos países, incluindo Brasil, Estados Unidos, França, Alemanha, Japão, Suíça, Portugal e Dubai, além de ter representado o Brasil nas comemorações dos 50 anos da ONU e em encontros internacionais de direitos humanos.

Aproximar a arte das pessoas

O encontro faz parte de uma série de vivências culturais idealizadas por Lara Calaça, que busca aproximar o público da arte por meio de visitas a artistas, coleções privadas e instituições.

“Esse encontro surgiu de uma conversa que eu tive com o próprio artista. Ele me mostrou todo o seu conceito, como surgem as suas obras por meio do material, da figura e do olhar. E aquilo me encantou. Porque atrás de toda aquela figura abstrata, tem um significado muito maior do que isso”, disse Lara, em entrevista à coluna Claudia Meireles.

“Ele expressa as suas obras com o olhar. Isso me deixou encantada. E achei que esse conhecimento não devia ficar só comigo. Achei que eu deveria compartilhar também”, compartilhou Lara Calaça, que teve, com esse evento, o intuito de aproximar a arte através de significados. “Eu acho que a arte transforma. A partir da arte a gente pode trazer esse novo significado e olhares – e quem sabe um mundo novo”, concluiu.

A proposta é transformar a experiência artística em algo acessível, sensível e humano – criando conexões diretas entre criadores e espectadores.

Durante o bate-papo, Veronese destacou a importância de iniciativas como essa para fortalecer a cultura e ampliar o repertório das pessoas.

Segundo ele, o contato com a arte desde a infância influencia profundamente a formação emocional, intelectual e social.

“A diferença na sensibilidade de quem cresce com arte é enorme.”
Os pratos foram preparados como verdadeiras obras de arte

Um encontro de escuta, emoção e troca

Ao final da visita, o clima era de gratidão e encantamento. Veronese se mostrou emocionado com o interesse dos participantes, ressaltando a qualidade das perguntas e a sensibilidade do grupo.

O que começou como uma visita transformou-se em uma conversa profunda sobre criação, dor social, beleza, política, memória e humanidade.

Mais do que observar quadros, os convidados puderam compreender que cada rosto pintado carrega um gesto de impulso, uma história invisível e uma tentativa constante de traduzir o que palavras não alcançam.

Confira quem esteve presente no encontro do grupo de arte com Antonio Veronese e Elizabeth Veronese, pelas lentes de Matt Ferreira:

Lara Calaça, Antonio Veronese, Elizabeth Veronese e Cleucy Estevão
Ministro do Tribunal de Contas da União Antonio Anastasia com o artista Antonio Veronese
Patrícia Vaz
Ana Paula Gontijo, Luciana Fonseca e Márcia Nabut
Cleucy Estevão e Denise Zuba
Ana Paula Gontijo e Junio Cesar
Obras de Antonio Veronese
Bertha Pellegrino, Patrícia Vaz e Isabel Banhos
Lara Calaça e o ministro do Tribunal de Contas da União Antonio Anastasia
Isabel Banhos, Luciana Fonseca, Elizabeth Veronese e Cleucy Estevão
Momento de conversa de Antonio Veronese e convidados
Isabel Banhos, Elizabeth Veronese e Claudia Meireles
Elizabeth Veronese e Cleucy Estevão
Patrícia Vaz e Virna Smith
Cleucy Estevão, Junio Cesar, Claudia Meireles, Márcia Nabut e Denise Zuba
Denise Zuba admira uma das obras
Lara Calaça e convidadas
Claudia Meireles em momento de conversa com os convidados
Luciana Fonseca, Junio Cesar e Ana Paula Gontijo
Denise Zuba, Bertha Pellegrino e Cleucy Estevão
Antonio Veronese e Claudia Meireles
Assinatura de Antonio Veronese em uma de suas obras

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