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Alto ou baixo? Médicos explicam se a altura impacta na longevidade
Com base em estudos, os médicos Alexandre Lucidi e Otávio Morais esclareceram se a altura tem relação com a longevidade
atualizado
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Enquanto “zapeava” Reels no Instagram, a coluna Claudia Meireles se deparou com o vídeo da participação da geneticista e bióloga molecular Mayana Zatz em um podcast (veja aqui). No bate-papo, ela comenta que está estudando as pessoas centenárias. Durante a investigação, a especialista fez um apontamento sobre as mulheres que atingiram os 100 anos terem pequena estatura, isto é, em torno de 1,5 metro. “Todas são baixinhas”, disse.
Diante da declaração de Mayana, a coluna entrevistou dois médicos para saber se, de fato, a altura tem relação com a longevidade, sendo eles, o geneticista atuante em neurogenética e neuroimunologia Alexandre Lucidi; e Otávio Morais, especialista em endocrinologia, longevidade e reposição hormonal do Instituto Nutrindo Ideais.
Tendo por base algumas publicações científicas, Lucidi salienta: “Pessoas mais baixas apresentam menores taxas de mortalidade e menos doenças crônicas (com a dieta representando um fator de confusão), especialmente após a meia-idade”. De acordo com o médico, corpos menores têm um consumo energético mais eficiente, o que reduz o desgaste físico ao longo do tempo e pode contribuir para uma maior longevidade.
“Estudos realizados em animais também indicam que indivíduos menores dentro de uma mesma espécie geralmente vivem mais, sugerindo que corpos menores envelhecem de forma mais lenta e eficiente”, pondera o geneticista.
Entre as referências, consta um estudo de Thomas T. Samaras, publicado em 2003. Segundo Alexandre Lucidi, o autor da pesquisa “explorou a relação entre altura e mortalidade”, ao sugerir que pessoas mais baixas tendem a dispor de uma vida longeva.
Com relação à alimentação, o médico explica: “Os fatores relacionados à dieta envolvem etiologia multifatorial e não determinam, isoladamente, um padrão de herança mendeliano, ou seja, como um gene é transmitido de geração em geração. Portanto, como os indivíduos se comportam e as escolhas que fazem também determinam resultados.”
O especialista em genética ressalta a respeito de “ser difícil generalizar resultados”. Ele aponta existir publicações que descrevem menor incidência de doenças crônicas, a exemplo de condições cardiovasculares e diabetes entre pessoas de menor estatura. “Talvez, isso ocorra porque corpos menores tenham menor estresse cardiovascular e uma relativa menor demanda energética, defendem alguns pesquisadores”, complementa.

Contraponto
Em contrapartida, o médico Otávio Morais buscou embasamento em um estudo de 2019, desta vez da Maastricht University Medical Centre, na Holanda. A pesquisa mostrou que mulheres com altura superior a 1,79 metro e peso adequado tiveram 31% mais chance de viver até os 90 anos. Quanto aos homens, esses indicadores não foram determinantes, mas sim o tempo dedicado à atividade física. Os que praticaram ao menos 90 minutos diários de exercício apresentaram 39% mais de probabilidade de atingir os 90 anos.
Otávio acrescenta que, embora a prática regular de atividade física beneficie ambos os sexos, as mulheres precisam de 60 minutos diários para alcançar resultados similares aos dos homens. “As mulheres apresentaram maior longevidade: 34,4% viveram até os 90 anos em comparação a 16,7% dos homens”, cita. No ponto de vista do especialista em endocrinologia, esse estudo destacou “a interação entre fatores como altura, peso e exercício na promoção da saúde ao longo da vida.”
Outra investigação científica mencionada pelo médico é do UK Biobank Study. Os pesquisadores britânicos descobriram que características corporais — como menor massa de gordura e maior teor muscular — estavam associadas a menores riscos de mortalidade. “Os dois estudos sublinham que, independentemente da altura, a composição corporal saudável e um estilo de vida ativo são essenciais para uma maior expectativa de vida”, sustenta Otávio Morais.

Observação do geneticista
Atuante em neurogenética e neuroimunologia, o geneticista Alexandre Lucidi enfatiza ser “fundamental” avaliar a diversidade populacional nos estudos científicos sobre altura e longevidade. “Muitas vezes, amostras selecionadas refletem uma população específica, exposta a condições ambientais particulares (como uma dieta, por exemplo) e podem não representar a variabilidade presente na população geral, especialmente em países como o Brasil, que dispõe de grande miscigenação genética e cultural”, defende.
“Portanto, é necessário compreender as amostras utilizadas e as análises antes de generalizar os resultados. Nem todos os estudos podem ser reproduzidos ou aplicados sem a discussão adequada sobre as limitações e o contexto em que foram conduzidos”, argumenta o médico. Ele prossegue ao dizer ser primordial “reconhecer que a genética representa a diversidade natural entre os indivíduos, que possibilitou a evolução física e cognitiva da humanidade.”

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