Censura na Bienal: reação organizada mostra a resistência na prática

Da Justiça a Felipe Neto, manifestações e medidas contra ordem homofóbica do prefeito do Rio evidenciam alcance da arte e da diversidade

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atualizado 10/09/2019 11:16

O prefeito de Rio de Janeiro fez um vídeo falando em boicotar um quadrinho em que dois caras se beijavam na feira Bienal do Livro. Esta ação desencadeou fortes reações: extremamente patéticas da parte de quem o apoiava e admiravelmente eficientes e organizadas por parte da resistência. E eu só consigo pensar em Bacurau!

O Rio passa, desde o começo do ano, um dos períodos mais caóticos da sua existência, tanto que seu prefeito teocrático quase sofreu impeachment. Tentando desviar o foco da trágica situação da saúde e da educação, ele resolveu fazer o tal vídeo denunciando o perigo que corriam as crianças – igual ao presidente ao fazer comentários sobre Bachelet e Brigitte Macron.

Não demorou para que ele fosse denunciado por censura e desrespeito ao artigo 5º da Constituição Federal. Não satisfeito, o bufo pastor decidiu mandar fiscais ao evento recolherem todo e qualquer livro de matéria imprópria – leia-se de qualquer temática LGBT. E aqui entra uma importante e controversa personagem, o youtuber Felipe Neto. Ele resolveu comprar todos os livros com histórias ou personagens LGBTs.

Comprou 14 mil livros e anunciou que os distribuiria gratuitamente na própria Bienal no dia seguinte para quem quisesse. Os livros foram distribuídos enrolados em plástico preto e com adesivo dizendo “este livro é impróprio”, como era feito no tempo da ditadura militar. No sábado (07/09/2019), o prefeito trapalhão ainda enviou 20 homens para recolherem os livros, mas o povo se organizou direitinho e realizou a doação de modo eficiente a terminar antes que os trogloditas chegassem. No fim, o que aconteceu foram 20 baratas tontas em um lugar onde havia crianças e adolescentes cercadas de livros.

A ação de Felipe Neto foi extremamente elogiada, mas não sem ressalvas, pois, em seu canal, ele já emitiu opiniões extremamente estúpidas sobre a questão LGBT. Mas, sobre ele, repito as palavras de uma moça no Twitter: “Felipe Neto, se algum dia critiquei, provavelmente eu estava certo, mas que ele está fazendo um belo trabalho para rever seu passado, isso ele está”.

O que realmente importa é isso: fazer antigos homofóbicos se sensibilizarem a ponto de se tornarem simpáticos ao que é justo e não que sejam fuzilados em praça pública, afinal, precisamos acreditar que pessoas podem se tornar melhores do que são, pois sem esse sentimento, perdem sentido os livros.

Em relação a este cristianismo maligno que tantos tentam usar para justificar seus atos de violência, mais uma vez recorro ao Twitter: “Nunca esqueça o que Jesus diz sobre gays no Novo Testamento: nada.”

Ainda aconteceu uma batalha judicial sobre a questão. Um desembargador deu liminar corretamente proibindo o prefeito de recolher o material, por ferir os princípios da Constituição brasileira, mas o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro derrubou-a autorizando a ação. No domingo (08/09/2019), o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, terminou cassando a decisão do presidente do TJRJ a pedido da Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge. Pelo menos nesta situação, prevaleceu a Justiça (com j maiúsculo) em detrimento de quem erroneamente exerce o poder.

E para falar de poder nas últimas semanas, é preciso citar Bacurau. O diretor Kleber Mendonça Filho disse em uma entrevista que queria fazer seu filme sobre uma comunidade que é atacada violentamente sem qualquer precedente. As pessoas na Bienal do Livro mostraram como é que se reage a este ataque, acredito que, não por coincidência, inspiradas pelo que passa na tela de cinema, pois mesmo que não tenham visto, o longa retrata o que está todo mundo sentindo e talvez não tenha dito ainda.

Esta é a Arte que os políticos do nosso país não querem ver chegar às crianças. Criança que lê não tem medo de monstros de papel e tem mais chance de abraçar o real sentimento cristão, ou minimamente humano. O dos direitos humanos.

Especial

A Amazon liberou para baixar gratuitamente vários títulos com tema LGBTI+ na sua plataforma. A ação vai até o dia 10 de setembro. Não precisa ter um Kindle para baixar, basta baixar o aplicativo e pronto! Boa leitura.

SOBRE O AUTOR
Ítalo Damasceno

Formado em direito pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Escreveu sobre cultura em portais do Distrito Federal. É roteirista e já fez curso com o novelista Aguinaldo Silva. Recebeu o prêmio Beijo Livre de Direitos Humanos LGBT 2017 na categoria Mídia, pela coluna Vozes LGBT.

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