Tudo o que alunos do CED 7 de Ceilândia aprenderam numa só aula

Quando o PM entrou em sala de aula, sem autorização da professora, ele não sabia o quanto estava ajudando a turma a aprender lições de vida

Igo Estrela/MetropolesIgo Estrela/Metropoles

atualizado 14/11/2019 21:15

Os alunos do 9º D do Centro Educacional 7 (CED 7) de Ceilândia Norte tiveram uma aula de dignidade, coragem, altivez e respeito ao compromisso com a educação. Aprenderam também a diferença entre autoridade e autoritarismo, entre decência e escracho, tudo num só instante. Que não se esqueçam, porque é do que mais precisam nestes tempos terríveis em que vivemos.

Na segunda-feira (11/11/2019), o sargento Policarpo entrou em sala de aula, sem autorização da professora, para entregar advertências a alguns alunos. A professora pediu que ele se retirasse, ao que o PM retrucou que ela não tinha autoridade sobre ele.

A professora chamou, então, alguém da direção da escola e gravou o pedido:

— Alguém da direção, por favor, pode vir na sala do 9º D? O sargento Policarpo está me desautorizando na frente da turma toda, dizendo que eu não tenho autoridade sobre esta sala. Ele entrou para fazer advertências indevidas durante o meu período de aulas. Então, esse senhor está andando na minha sala, acabou de me desautorizar perante a minha turma, e isso é inadmissível. Eu falei para ele que a turma é minha, a sala é minha enquanto eu estiver aqui dentro. Ele está sorrindo, fazendo chacotas, sendo irônico. Então, por favor… e pedi pra ele sair da sala.

Ao que o sargento respondeu:

— Não, a senhora mandou eu sair da sala.

Professora:

— Sim, eu mandei você sair da sala.

PM:

— A senhora não tem autoridade para mandar eu sair da sala.

Professora:

— Eu tenho autoridade sim, sala de aula é minha, eu tenho autoridade, senhor Policarpo.

A atual diretora, Adriana Rabelo, publicou na página do CED 07, numa rede social, nota de apoio à professora que teve a sala invadida por um PM:

“Ontem tivemos um episódio nada agradável em nossa escola, que envolveu uma docente e um militar que a desautorizou em frente à turma. Como gestora, orientei a formalização da denúncia, o que foi feito pela professora em ata escolar com o acompanhamento da diretora do Sinpro. Encaminharemos formalmente a denúncia à direção disciplinar para as medidas cabíveis. Estamos prestando todo esclarecimento à SEDF. E reitero em nome desta gestão o apoio à professora.”

Fontes policiais informaram ao Metrópoles que a professora é candidata à eleição para a escolha da nova diretoria da escola e é contrária ao ensino militarizado. Nem sei o nome dela, mas já tem o meu voto.

(Ao contrário do que foi informado acima, a professora não é candidata à direção da escola nem a nenhum outro cargo).

O CED 7 aprovou, em fevereiro passado, a gestão compartilhada com a Polícia Militar por uma margem de votos que já antevia a resistência da comunidade à interferência policial na escola: 58% a favor, 41% contra.

Na sexta-feira passada (08/11/2019), a equipe de handebol sub-18 do CED 7 foi campeã nos Jogos da Primavera. Parabéns!

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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