Na minha cidade-satélite, tem gente de todo tipo. É o meu lugar

No meu CEP tem muito pobre, pobre, remediado e mais que remediado, tudo misturado. Tem gente que não gosta. Eu me sinto muito à vontade

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 17/02/2019 14:51

Depois de mais de 20 anos morando no Plano Piloto e no Sudoeste, há quase 10 moro numa cidade-satélite. Meu CEP fora da área nobre me mantém atada ao lugar de minha infância, um bairro popular onde os cachorros se sentam no meio do asfalto, os gatos moram na rua, os bêbados têm nome e, em dias frios, os vizinhos fazem pequenas fogueiras na calçada.

No meu CEP, o dia nasce de noite, mais ainda no horário de verão. As ruas acordam antes das 6h para chegar ao ponto de ônibus ou ir de bike para o trabalho. A bicicleta é meio de transporte desde muito antes de virar moda. Elas são roídas, descascadas, tortas e quase sempre têm alguém ou algo na garupa. Homens, mulheres, mais novos, mais velhos, mais magros, mais gordos – a bike é encantadoramente democrática no meu CEP.

Perto das 7h, as bicicletas levam as crianças à escola.

As mães saem de madrugada com bebês adormecidos ao colo. No meu CEP, há várias casas que cuidam de crianças, na falta das creches sempre prometidas, nunca realizadas.

Adolescentes sobem para a escola pública e descem aos magotes. São preponderantemente negros, embora muitos devam se considerar pardos. O que diferencia uns dos outros são os cortes de cabelo, o trançado, o penteado. Uniforme, tênis e mochilas são quase iguais.

O meu CEP tem um bêbado querido, que todos conhecem pelo nome, sabem onde ele mora e acompanham sua sequência de internações. De vez em quando, ele dorme na calçada de alguma casa e, não poucas vezes, já o vi aquecido com um lençol ou um cobertor, cuidado de algum compassivo morador.
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As calçadas do meu CEP têm menos de um metro de largura e, por estreitas, irregulares e perigosas, expulsam o pedestre para o asfalto. As ruas são uma mistura de gente, carro, bicicleta, carroça, cachorro, gato e lixo. No meu CEP, o serviço de limpeza pública funciona mal e porcamente, o que é quase um trocadilho.

No meu CEP, a polícia faz baculejo em negro de bermuda tactel estampada e chinelo; as crianças ainda vão ao mercadinho com a lista de compras que mamãe pediu.

De uns dois anos pra cá, o meu CEP anda triste. Já não se ouve mais funk em festas que duravam o fim de semana inteiro, mas ainda se escutam intrigantes fogos de artifício por volta do meio-dia.

Os bêbados do meu CEP se reúnem num mesmo lugar todos os dias e todas as tardes para beber, contar vantagem e, quando aparece um dinheiro extra, fazer churrasco em trempes de pedra. Bêbado inventa a felicidade em cada gole.

Do meu CEP, ouço ao longe a chegada e a partida dos aviões. Vejo-os quase na copa das árvores. Ficam me avisando o tempo inteiro que há sempre um voo à minha espera.

Aos sábados, passa a vendedora de biscoito fresquinho, o consertador de panela, o vendedor de bugigangas, o de pamonha e açaí (estranha combinação), o de rodo e vassoura, o de peixe, o de frango caipira e o de abacaxi docinho. As crianças brincam de bola no asfalto e de boneca na calçada.

No meu CEP, a moça do jogo do bicho põe a mesa e o banquinho num lugar bem movimentado. De noite, tem jantinha no boteco (arroz, feijão-tropeiro, mandioca, vinagrete e um espetinho). E a papelaria anuncia consultas ao SPC e Serasa para os endividados aflitos.

A distribuidora de bebidas fica ao lado da igreja evangélica que fica em frente ao mercadinho que fica ao lado do boteco que fica colado na padaria.

A padaria tem sonho gigante com bastante creme, coxinhas enormes e pirulito puxa-puxa.

No meu CEP tem muito pobre, pobre, remediado e mais que remediado, tudo misturado. Tem gente que não gosta. Eu me sinto muito à vontade. É o meu lugar.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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