Três histórias trágicas de um tempo solitário, narcísico e cruel

As duas irmãs que cavaram um fosso ao redor da casa, um entregador que teve um AVC e ninguém o socorreu e a insana busca por um like

Reprodução/TV GazetaReprodução/TV Gazeta

atualizado 14/07/2019 9:44

Durante quase 10 anos, as duas irmãs acordavam no meio da madrugada para cavar a terra ao redor da casinha de duas águas num bairro popular de Maceió (AL). Com uma pá de pedreiro abriam um fosso de mais de um metro de profundidade desde a casa até os muros do terreno e jogavam a terra nas ruas próximas.

Havia esmero na tarefa: Maria Rita, 76 anos, e Maria José, idade não revelada, deixavam o chão liso como o assoalho de terra batida das casas da roça de antigamente.

A casinha emergiu do fosso como quem quer viver longe do mundo, flutuando sobre as coisas chãs. É uma morada, mas parece um barquinho ancorado na única terra que restou depois do apocalipse. Dizem que as duas irmãs têm transtornos mentais. O serviço social encontrou na casa uma geladeira, um fogão e colchões. Não viu a dor nem o medo nem o desespero – a terra levou.

Na mesma semana em que as duas Marias foram retiradas da casinha ilhada, o motoqueiro Thiago Dias, 33 anos, teve um AVC quando chegava a um prédio de Perdizes, bairro da zona oeste de São Paulo, para entregar um vinho num apartamento. Desceu da moto, mas não conseguiu entrar no prédio. Desabou na calçada, o corpo enrijecido. Reclamava de muita dor de cabeça e tremia de frio.

Arquivo Pessoal

Antes de perder a consciência, pediu aos que o socorriam para avisar o Rappi, empresa para a qual trabalhava, e a irmã, Daiane. O aplicativo de compras e entregas tratou Thiago com a frieza das máquinas: era preciso dar baixa no pedido. E só. A Polícia Militar mandou o caso para o Corpo de Bombeiros que pediu para avisar o Samu, que disse não ter previsão de chegada. E não apareceu.

Quem socorreu Thiago foi a irmã, que atravessou a zona oeste de Uber. Desesperada ao ver o irmão já sem reação, Daiane chamou outro Uber, que se recusou a levar o entregador porque ele estava com a roupa encharcada de urina. Um amigo de Thiago finalmente chegou de carro e o levou ao Hospital das Clínicas, que não quis receber o doente alegando que só ambulâncias estavam autorizadas a entrar no pronto-socorro.

O amigo e a irmã do entregador conseguiram entrar no PS burlando as regras: colaram o carro atrás de uma ambulância e chegaram ao local proibido. Thiago morreu um dia depois.

Reprodução

Bem longe de Maceió e de São Paulo, na cidade de Novosibirsk, na Rússia, virou moda usuários do Instagram fazerem fotos num estranho e aparentemente paradisíaco lago azul. Recém-casados, <i>instagramers</i>, <i>influencers</i> e demais aspirantes à fama virtual invadiram o lugar cuja água tem cheiro de detergente de lavanderia.

Soube-se depois que o paraíso dos posts, das Stories, dos likes e das hashtags é na verdade um lixão de óxidos metálicos nocivos à pele. O azul-turquesa da água deve-se a uma reação química. Mesmo sabendo de tudo isso, os narcísicos dependentes dos likes continuaram a fazer imagens no lixão líquido. Até que a empresa fechou o acesso à paisagem pútrida com um aviso: “Isso não é uma praia”.

Abismos de solidão, desespero e desumanidade, tanto faz se de duas velhinhas num bairro pobre do nordeste brasileiro, se num serviço de entrega na cidade mais rica do Brasil ou se na corrida alucinada e perigosa por um like numa cidade russa.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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