Mulheres de bem-me-quer, as Margaridas nos devolvem o Brasil

A marcha que ocupou cerca de 6 km da Esplanada reativou meu amor pelo meu país. Aquele que se enfeita com flores para resistir à destruição

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atualizado 14/08/2019 21:52

Margarida é a flor do bem-me-quer e mal-me-quer. Das flores, é uma das menos sofisticadas. É tão simples que deve ser a única que virou brinquedo de adolescentes descobrindo o amor. Mal-me-quer/bem-me-quer…

Margarida é nome de uma brasileira, uma paraíba nascida no Estado da Paraíba, que lutou pelos direitos dos trabalhadores do campo na época da ditadura militar. E por isso foi assassinada.

Margarida é o nome da marcha que desde o ano 2000 ocupa a Esplanada dos Ministérios para defender os direitos das trabalhadoras do campo.

Havia pelo menos 6 kms de Margaridas coladas umas nas outras na manhã dessa quarta-feira (14). Ocupavam duas faixas do lado norte do Eixo Monumental Leste. Quando o carro de som chegou à frente do Congresso, ainda havia Margaridas passando pela Rodoviária.

Margaridas com jeito de Brasil de verdade, de mulheres do trabalho pesado, da solidariedade como forma de sobrevivência, da resistência ao calor, à secura e à falta de sombra com que a Esplanada recebe os visitantes nos meses de seca.

Negras, mestiças, brancas, a maioria delas com idade entre 30 e 50 anos, gordas, gordinhas, magras, com rugas, peitudas, com pouco peito, empinadas, meio corcundas, bochechudas, de rosto fino, de olhos miúdos, graúdos, muitas delas com dentes a menos, mas todas sorriram
quando pedi uma foto.

De tranças, rasta, turbante, chapéu de palha, rabo de cavalo, cabelo pixaim, cacheado, liso, curto, comprido, preto, branco, castanho, cor-de-burro-fugido. Todas enfeitadas com margaridas, mulheres de bem-me-quer.

Uma babel de sotaques – nordestino, gaúcho, paulista, paraense, carioca, bem fáceis de identificar. Um Brasil de Brasis.

É o Brasil que reconheço como sendo o meu país. O país do bem-me-quer.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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