Dona Gracinha da Sanfona, triste alegria brasileira

Desde menina, no Piauí, ela subia no jumento e ia tocar nas festas até o dia amanhecer. E, se deixarem, nelas amanhece até hoje, aos 76 anos

Rejane Agra/DivulgaçāoRejane Agra/Divulgaçāo

atualizado 10/07/2019 20:32

Dona Gracinha enxerga bem pouco e só com o olho esquerdo, e só anda com a perna direita. Todo o resto do corpo ela entrega à sanfona de quatro baixos, ao forró pé de serra, ao tango, ao bolero, às marchinhas de Carnaval. E, de vez em quando, a uma dose de pinga da boa.

Faz uns dois meses que dona Gracinha da Sanfona se apresenta na Praça de Alimentação da Feira da Torre, aos domingos, acompanhada do sobrinho Thiago. Pede uma pinguinha, que o frio está demais, senta-se na ponta de um banco de metal e dedilha a sanfona Todeschini das 11h30 às 15h, mais ou menos. Thiago, museólogo recém-formado, arruma os DVDs/CDs da tia na caixa da sanfona e, com um zabumba e um pandeiro, começa o show.

A história de dona Gracinha é a história da cultura popular e da resistência do povo nordestino. A menina Maria Vieira da Silva nasceu em Floriano (PI). Quem foi ao cartório esqueceu que o nome era pra ser Maria das Graças Vieira da Silva. Não por isso. Desde bebê, passou a ser chamada de Gracinha. A mãe, vendo a criança cega de um olho e doentinha, deu a filha para a irmã, Preta Manduca, casada com Zé Manduca, sanfoneiro.

Gracinha não gostava de boneca. Ou brincava com os meninos ou sonhava com o dia em que conseguiria se aproximar da sanfona do tio. Teve de se contentar com uma gaita. Mas, desde o dia em que a tia finalmente a deixou se aproximar do instrumento mágico de botões e dobraduras dançantes, Gracinha não teve mais sossego. Não dormia, ficava dedilhando e dobrando a sua sanfona imaginária. Quando conseguiu tirar a primeira música, Juazeiro, de Luiz Gonzaga, soube que era amor para sempre.

Punha a sanfona no jacá, o jacá no jumento e iam os três rumo às festas que duravam até o nascer do dia. A tia morreu e Gracinha veio, na trilha dos irmãos mais velhos, para a nova capital do Brasil. Chegou em 1970, ela, a mala e a sanfona. Logo estava nas festas, para as quais queriam lhe pagar com as doses de pinga da noite.

Fazia pouco tempo que estava em Brasília quando um fusca a atropelou, ela atravessava a rua depois de descer do ônibus. Seria apenas uma fratura e um gesso, não fosse o erro médico. O pé começou a ficar vermelho e, para lhe salvar a vida, foi preciso perder a perna.

Quando lhe perguntam se a mutilação a impediu de tocar, dona Gracinha responde: “Ué, eu toco é com os braços!”. Ou diz: “Perdi a perna, mas tenho as mãos e a sanfona”. É uma parte do corpo e a expressão da alma a Todeschini vermelha, de botões pretos e brancos.

Rejane Agra/Divulgaçāo

Dona Gracinha diz que quando sobe no palco se sente “flutuando na lua”. Não se casou, não teve filhos, tem a sanfona, a pinga (cada vez mais moderadamente) e o sobrinho que a acompanha.

Num domingo desses, encontrei-a na Feira da Torre. Ela me pediu que a levasse ao banheiro. Contou que gosta de uma pinguinha, perguntou se eu também gosto, se havia gostado das músicas, se queria ouvir alguma em especial, e chorou quando lembrou que aquele dia era aniversário do Thiago, o sobrinho que a acompanha nas apresentações.

Gravado no belo Teatro do Sesc de Ceilândia, o DVD só foi possível graças ao FAC, o Fundo de Apoio à Cultura que o GDF tenta acabar. Dona Gracinha flutuou na lua acompanhada de cavaquinho, violão, sax, trombone, trompete, bateria, percussão – uma orquestra.

Aos 76 anos, ela não precisa de muito para flutuar: os braços, a sanfona, a pinga e alguém que a queira ouvir.

* Contato para shows e para comprar o DVD: (61) 99370 1360

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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