Qual a cor do burro quando foge? Ou como fugir da cor da pele

Seguem algumas dessas definições que o brasileiro deu à tinta que lhe cobre o corpo e esconde a alma. É uma lista antiga, mas que vale até hoje

Cícero Lopes em cima de arte de Tarsila do AmaralCícero Lopes em cima de arte de Tarsila do Amaral

atualizado 02/06/2019 18:17

Quando eu era menina, meu pai dizia que eu tinha cor de burro quando foge. Eu ficava no ar, sem saber o que ele queria dizer com aquilo. Instalava-se um vazio – como se ele quisesse me apontar alguma coisa sobre a qual nem ele mesmo sabia. Ficávamos os dois no vácuo da identidade racial brasileira. (Ele, filho de negro com portuguesa. De pele clara, com traços e cabelos de evidente negritude).

Cor de burro quando foge é a corruptela de outra expressão, corro de burro quando foge – que no sentido original queria expressar a aflição de alguém que corre ante o perigo, como quem corre de um burro desenfreado.

De fuga em fuga, ficamos todos, meu pai, eu e o Brasil sem lugar na paleta das cores da pele humana e no que nela está implicado. Só o burro está certo de si mesmo, porque mesmo em fuga nunca deixará de ser placidamente burro (o substantivo, não o adjetivo).

Procurando a origem da expressão, cheguei a 135 termos que o brasileiro usa ou pelo menos usava para definir a cor de sua pele. O registro foi feito na PNAD, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, de 1976, quando, pela primeira vez, o IBGE perguntou ao brasileiro de que cor ele era e cada entrevistado pôde responder livremente com a palavra ou expressão que lhe viesse à cabeça.

Colhi algumas das definições e tentei separá-las por tonalidades próximas.

Branco — nem os brancos são somente brancos, porque não os há neste país mestiço. As variações foram muitas: galega (loura), agalegada, alvarenta (no dicionário: alvacento, esbranquiçado, um tanto louro), clara, clarinha, cor-de-leite, loura clara (não basta ser loura, tem que ser clara), polaco (gentílico antigo de quem nasce na Polônia).

Moreno (ou pardo, como o burro) — são muitas as variações de moreno: branca-suja (que seja branca, mesmo que suja), branca-queimada, branca-melada, meio-branca, pouco-clara, pouco-morena, puxa-pra-branca, acastanhada, alva escura (negra, mas branca), bem morena, bronzeada, cabocla, castanha, castanha-clara, cobre, corada, cor-de-canela, esbranquicento, fogoió (adjetivo que designa cabelo avermelhado), miscigenação, mista, morena, morena-castanha, morena-clara, morena-cor-de-canela, morena-jambo, morenada, morena-parda, jambo, morena-roxa, morena-ruiva, morena-trigueira, pálida, paraíba, parda, parda-clara, queimada, queimada-de-praia, queimada-de-sol, regular, rosa-queimada, ruço (pardo-claro, no dicionário), trigo, trigueira.

E, finalmente, negro, dito em eufemismos escorregadios: cardão (cor azul violácea da flor do cardo), escura, azul (“de tão preto, chega a ser azul”), bem morena, bugrezinha-escura, café, canela, castanha-escura, cor-de-café, cor-de-cuia (pode ser a cuia preta de Belém do Pará como a cabaça marrom do Nordeste), cor firme, crioula, encerada (no dicionário: diz-se do animal cujo pelo tem a cor acastanhada), enxofrada (misturada), escura, escurinha, morena-bem-chegada, morena-bronzeada, canelada, morena-escura, morena-fechada, morenão, meio morena, meio preta, lilás, moreninha, mulatinha, retinta, roxa, sapecada, sarará, tostada, negrinha, negrota, pretinha.

Alguém entre os brasileiros entrevistados naquele distante 1976 definiu a cor da própria pele como sendo uma cor de marinheiro. O dicionário registra entre as acepções da palavra marinheiro a de estrangeiro. Faz sentido: somos estrangeiros em nossa própria pele.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

Últimas notícias