Conic, um labirinto de cultura jovem no centro urbano de Brasília

O Setor de Diversões Sul não é nada do que Lucio Costa queria. É bem melhor, embora esteja tão desolado quanto todo o Brasil

Giovanna Bembom/MetrópolesGiovanna Bembom/Metrópoles

atualizado 20/05/2019 23:13

Nenhum outro território é mais representativo das múltiplas expressões da cultura brasiliense que o Conic, especialmente da cultura jovem, underground, hip hop. O Conic não é um só, são 13. Oito edifícios colados uns nos outros, num retângulo de 240 m x 90 m, todos com as fachadas para o lado de fora, e cinco espalhados do lado de dentro. Conic é o nome de um dos prédios, o que fica na extremidade norte, de frente para a Esplanada. É mais uma das desobediências urbanas de Brasília. Lucio Costa imaginou alguma coisa parecida com um Pontão modernista, mas não rolou. O Setor de Diversões Sul não quis ser espelho do Setor de Diversões Norte, o Conjunto Nacional, e resolveu tentar a vida de outro jeito.

Os prédios grudados uns aos outros, com outros prédios espalhados pelo vão interno, o subsolo, as muitas escadas, as muitas portarias fizeram do Conic um labirinto de acontecimentos impublicáveis. Ao largo, a insipidez monumental da Esplanada. No SDS, a vida pública e a clandestina, legal e ilegal, hétero e homo, de teatro, cinema e música.

Bem no comecinho, até parecia que o SDS ia ser tão comportado quanto o SDN. Foi no tempo em que as embaixadas ainda estavam sendo construídas e as representações estrangeiras ocuparam os edifícios recém-construídos do Setor de Diversões Sul. Parecia que a vocação do Conic era a da cultura ilustrada.

Ali pelo final dos anos 1960 até o começo dos anos 1980, o Conic era o mais importante centro cultural brasiliense – 10 livrarias, oito cinemas, seis boates, duas saunas e muitos bares, botecos, restaurantes, lanchonetes, escondidinhos. Era como se Machado, Hemingway, Godard, Buñuel, Jean Genet, Madame Satã e a turma do Pasquim frequentassem o mesmo lugar.

Às livrarias, cinemas e boates, juntou-se um teatro. Atraída pelo poder de sedução de Juscelino e pela esperança de abrir no Cerrado um clarão de dramaturgia, a atriz Dulcina de Moraes montou o seu palco no centro de Brasília. Oscar Niemeyer fez o projeto e com muita dificuldade a casa foi inaugurada em 1980, um ano antes de o Teatro Nacional ficar pronto.

Mas havia uma sombra no meio do caminho, e ela se chamava shopping center e grandes redes de livrarias. Os dois fenômenos de consumo de massa derreteram as pequenas livrarias e seus livreiros inesquecíveis – Victor Alegria, Wilson Hargreaves, Ivan da Presença. E esvaziaram as salas de cinema. Tudo passou a se resolver na insipidez dos shoppings. O Cine Atlântida, com seus 1.200 lugares, fechou e mais tarde virou igreja evangélica. Assim como os demais; exceto um, o Ritz, que virou cine pornô, mas nem assim resistiu. Hoje ele é… uma igreja evangélica.

O pensamento cult foi embora, mas um outro modo de interpretar as coisas do mundo foi ocupando o quadradinho mais incrível de Brasília: a cultura hip hop, as manifestações de matriz africana, os bailes de charme, os encontros de RPG, as feiras de vinil e de fanzines, os encontros de b-boys e b-girls, batalhas de MCs. As lojas de peruca, de vinil, de camisetas punk, rock, de afirmação brasiliense, étnicas, os sex shops, as lojas de umbanda e candomblé, os grafites, os partidos de esquerda, os protestos de esquerda, os compradores de ouro, os vendedores de testes de demissão e admissão, os michês da madrugada, os vendedores de fruta do dia claro.

O Conic foi o primeiro território LGBT do Plano Piloto.

Mesmo tão misturado, o Conic anda desolado. A crise fechou lojas, uma reforma demorada interditou parte da área central interna (o chapéu de concreto, parte inequívoca da obra de Niemeyer, igual ao do posto da Candanga, foi parcialmente demolido!). Só a calçada em frente à fachada principal continua fervendo. É o caminho que leva do Setor Comercial Sul para a Rodoviária, da Asa Sul para a Asa Norte.

Lucio queria uma mistura de Piccadilly Circus, Times Square e Champs-Élysées, mas o Conic virou um mix da cultura jovem das satélites. Bem melhor assim.

Esta crônica agradece a Eduarda Aun, que fez o belíssimo manual colaborativo de ocupação do Conic. Chama-se O avesso de Brasília ao Avesso. Foi seu trabalho de conclusão do curso de arquitetura na UnB.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

Últimas notícias