Covid-19: perdeu o paladar? Especialista dá dicas de como recuperar

Para Hellen Maluly, é necessário estimular as papilas para evitar sequelas maiores. Confira a lista de alimentos que auxiliam na melhora

atualizado 23/11/2020 20:11

vegetais Pexels e Foto cedida para o Metrópoles

Se você já pegou coronavírus e parou de sentir o gosto dos alimentos, vai se identificar com essa pesquisa publicada recentemente pelo instituto científico Monell Center: 76,2% das pessoas infectadas pela Covid-19 relataram distúrbio no paladar, sendo que, entre os entrevistados, 52,2% alegaram distorção em relação aos cinco gostos básicos (doce, salgado, azedo, amargo e umami). De acordo com a pesquisa, apenas 5% dos pacientes perderam permanentemente o sentido.

Em maio, o Metrópoles anunciou que a anosmia (perda temporária de olfato) e a disgeusia (perda temporária de paladar) são importantes sinais que não devem ser ignorados durante o diagnóstico.

A narina do ser humano é revestida com um tecido chamado de epitélio olfativo. Ele é dividido em três tipos de células, entre elas as de suporte. É por meio desse tipo de célula, que apresenta alta expressão de ACE2 e de TMPRSS2, que o Sars-CoV-2 infecta o corpo. Na “vizinhança”, estão as células sensoriais olfativas e que acabam sendo destruídas pelo invasor.

As papilas linguais, por sua vez, são as responsáveis por nos permitirem distinguir os sabores. Essas estruturas têm receptores chamados de papilas gustativas, compostas por três tipos de células: células receptoras do sabor, células de suporte e células precursoras ou basais. Apesar de não ser possível identificar o nível de expressão das proteínas ACE2 e TMPRSS2 nas papilas linguais, é provável que o vírus atue nelas da mesma maneira que age no nariz.

mulher comendo
As papilas linguais são as responsáveis por nos permitirem distinguir os sabores

Entretanto, de acordo com um estudo do Centro de Controle de Doenças Americano (CDC), nove em cada 10 infectados ainda sentem reflexos da contaminação por até três meses. Os sintomas mais comuns são fadiga, dores no corpo, perturbação visual e perda de olfato e paladar.

O CDC mostra que de 292 entrevistados entre 14 a 21 dias após a data do teste positivo, 94% (ou seja, 274 pessoas) relataram sintomas persistentes. Os dados foram noticiados pelo Metrópoles em julho deste ano.

Recuperando o paladar

Segundo a doutora em Ciência dos Alimentos Hellen Maluly, a perda do paladar causada pelo novo coronavírus costuma ser brusca e é necessário estimular as papilas para evitar sequelas maiores. “As papilas gustativas possuem receptores para os gostos básicos nas suas células. Cada receptor pode receber um estímulo para os diferentes gostos e isto faz com que os mecanismos gustativos possam ser despertados. No caso de uma perda repentina do paladar, a regeneração das células receptoras pode levar cerca de duas semanas e, nesse período, variar a alimentação pode fazer com que a recuperação seja mais rápida”, afirma.

menina comendo cereais
“As papilas gustativas possuem receptores para os gostos básicos nas suas células”, diz Hellen Maluly

Nesse sentido, ela ressalta a importância de consumir alimentos que aumentam a secreção salivar. “Os alimentos com umami, por exemplo, estimulam os receptores gustativos por um tempo mais prolongado e esses mesmos estímulos conseguem acionar as glândulas salivares a produzir saliva. A salivação é extremamente importante, pois facilita a deglutição, dilui os aromas dos alimentos e contribui para maior aceitação alimentar”, explica.

Umami é o quinto gosto básico do paladar humano, descoberto em 1908 pelo cientista japonês Kikunae Ikeda. Ele foi reconhecido cientificamente no ano 2000, quando pesquisadores da Universidade de Miami constataram a existência de receptores específicos para este gosto nas papilas gustativas. O aminoácido ácido glutâmico e os nucleotídeos inosinato e guanilato são as principais substâncias umami.

Para Hellen Maluly, a inclusão de alimentos umami nas refeições não é uma tarefa complicada. “Além de oferecer mais sabor às receitas, esses ingredientes possibilitam a preparação de pratos leves, balanceados e nutritivos, já que a maioria das opções são alimentos ricos em proteínas e aminoácidos”, conta.

tomate
Tomate é um exemplo de comida umami

Ótimas opções são carnes, peixes, vegetais e legumes, como cenoura, tomate, milho, ervilha e aspargos, conforme recomenda a profissional. “Outros exemplos clássicos de alimentos que contém umami são os cogumelos, que podem estar presentes em diferentes receitas do dia a dia, como sopas, saladas e tortas, deixando-as ainda mais deliciosas”, acrescenta.

De acordo com a especialista, o ideal é variar os alimentos e experimentar todos os gostos, incluindo o amargo, que geralmente é rejeitado por algumas pessoas. Vale apostar nas folhas verdes escuras, por exemplo, que ainda contém vitaminas e minerais variados, fundamentais na recuperação do corpo. “Pode-se fazer uma mistura de receitas, como montar saladas de tomate, queijo e verduras verde-escuras, para conseguir consumir com facilidade”, sugere.

Contudo, para Hellen, a dificuldade de recuperação é individual, dependendo da carga viral e dos sintomas, por exemplo. A ideia do consumo dessa variedade de alimentos é prolongar o estímulo do paladar na tentativa da cura mais rápida.

Recuperando o olfato

Segundo a profissional, os sentidos se encontram muito próximos uns dos outros no cérebro, principalmente o paladar e o olfato, que estão extremamente relacionados. “Eles agem juntos. Quando uma pessoa consome uma comida, os aromas entram em contato com os receptores olfativos no fundo da garganta. É uma mistura”, diz.

Para agilizar a recuperação de uma das funções do nariz, Hellen indica umedecer as narinas sempre que possível, para que as gotículas entrem e forneçam uma respiração melhor. “As células ficam mais hidratadas e se recuperam melhor. Quanto mais seco, mais agressão ao olfato”, explica.

Outra dica é cheirar tudo o que comer. “Quanto mais você cheira os alimentos, mais você aumenta o número de atributos na cabeça”, comenta.

Criança comendo salada
“Quanto mais você cheira os alimentos, mais você aumenta o número de atributos na cabeça”, defende Hellen Maluly

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