
Superstições no futebol nascem da emoção e da imprevisibilidade
Camisa da sorte, lugar fixo no sofá e outros rituais ajudam torcedores a lidar com a ansiedade e a incerteza das partidas de futebol

Quem acompanha futebol de perto sempre conhece alguém que tem uma camisa da sorte, um lugar específico no sofá ou um ritual que precisa ser repetido antes de cada partida. Durante a Copa do Mundo, quando a atenção ao esporte aumenta e até quem não acompanha futebol no dia a dia passa a torcer, esses comportamentos costumam ficar ainda mais evidentes.
Embora não exista qualquer evidência de que uma roupa, um gesto ou um hábito possam influenciar o resultado de uma partida, a psicologia e a neurociência ajudam a explicar por que tantas pessoas desenvolvem esse tipo de crença.
Segundo o neurocientista Leandro Oliveira, professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), o futebol reúne elementos que favorecem o surgimento dessas associações.
“O futebol combina emoção, imprevisibilidade e pertencimento. Quando está torcendo, a pessoa não controla diretamente o resultado do jogo, mas vive a partida como se fizesse parte dela”, afirma.
Busca por padrões
Uma das características mais conhecidas do cérebro humano é a tendência de procurar padrões e relações de causa e efeito. De acordo com o especialista, quando um torcedor usa determinada camisa em uma vitória importante ou repete um comportamento antes de um resultado positivo, pode acabar associando aquele hábito ao desfecho da partida.
“Se a pessoa usou uma camisa em uma vitória importante ou sentou no mesmo lugar antes de um gol, ela pode acabar associando aquele comportamento ao resultado positivo do jogo”, explica.
Ainda que essa relação não exista na prática, o ritual passa a ganhar significado emocional. Com o tempo, ele pode ser incorporado à rotina do torcedor como parte da experiência de acompanhar o jogo.
Sensação de controle
Outra explicação está ligada à dificuldade de lidar com situações sobre as quais não temos controle. O psiquiatra Raphael Boechat, professor da Universidade de Brasília (UnB), afirma que as superstições costumam surgir justamente diante da incerteza.
“Quando você não consegue prever o futuro, cria uma superstição ou uma crença diante do imponderável. A pessoa se agarra a algo concreto, como uma camisa ou um objeto, para lidar com algo que não controla, que é o resultado da partida”, diz.
Segundo ele, esse comportamento acompanha a humanidade há muito tempo e não se limita ao futebol. Em diferentes contextos, as pessoas costumam buscar explicações ou formas simbólicas de influenciar acontecimentos que fogem do seu domínio.
Do ponto de vista biológico, o cérebro também ajuda a reforçar esses comportamentos. Oliveira explica que existe um mecanismo ligado à dopamina — substância associada à sensação de recompensa e prazer. Quando um ritual é seguido e o resultado esperado acontece, o cérebro fortalece aquela associação.
“A expectativa e a concretização daquela expectativa produzem prazer. É o que chamamos de ilusão de controle. A pessoa sente como se sua ação tivesse algum efeito sobre o resultado, mesmo que isso não aconteça de fato”, afirma.
Esse processo faz com que o comportamento seja repetido no futuro, reforçando ainda mais a crença no ritual.
Nem toda superstição é um problema
Apesar da fama de irracionais, as superstições nem sempre são vistas de forma negativa pelos especialistas.
Segundo Oliveira, rituais simples podem ajudar a reduzir a ansiedade e oferecer uma sensação de previsibilidade emocional durante momentos de tensão, como uma decisão de campeonato ou uma partida de Copa do Mundo.
“Eles podem ajudar o torcedor a sentir que participa simbolicamente do jogo e a organizar suas emoções”, afirma.
O mesmo fenômeno é observado em atletas profissionais, que frequentemente desenvolvem hábitos específicos antes de competições importantes.
O problema surge quando a pessoa passa a depender desses comportamentos para conseguir se sentir segura. O psiquiatra Eduardo Perin, especialista em terapia cognitivo-comportamental, explica que, em situações mais extremas, a superstição pode fazer parte de um quadro mais complexo.
“Quando isso se torna obsessivo, invasivo e começa a causar sofrimento, pode haver relação com transtorno obsessivo-compulsivo. Mas, nesses casos, geralmente existem outras obsessões e compulsões associadas”, finaliza.


