Reprodução sem macho: como alguns animais geram filhotes sozinhos

Fenômeno raro em vertebrados tem sido registrado em tubarões, crocodilos e até aves, ampliando o conhecimento científico sobre a reprodução

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Pete Orelup / Getty Images
Foto colorida de lagasrtos verdes, um emcima do outro, indicando reprodução - Metrópoles.
1 de 1 Foto colorida de lagasrtos verdes, um emcima do outro, indicando reprodução - Metrópoles. - Foto: Pete Orelup / Getty Images

A ideia de que a reprodução depende obrigatoriamente de um macho e uma fêmea não se aplica a todos os seres vivos. Em diferentes grupos animais, existe a chamada reprodução assexuada, um mecanismo biológico que permite o surgimento de novos indivíduos sem fecundação.

Embora o fenômeno seja conhecido há décadas em organismos mais simples, descobertas recentes mostram que ele pode ocorrer também em espécies consideradas mais complexas, como tubarões, crocodilos, lagartos e até aves.

Segundo o biólogo especialista em reprodução animal Victor Maciel, a reprodução assexuada é a capacidade de um organismo gerar descendentes sem a participação de outro indivíduo. Em animais, ela ocorre principalmente de duas formas.

A primeira não envolve gametas e produz descendentes geneticamente idênticos ao organismo original. A segunda ocorre por meio da partenogênese, processo em que novos indivíduos surgem a partir de óvulos não fecundados. “De maneira autônoma, o animal é capaz de gerar uma nova vida”, explica Maciel.

Entre os mecanismos mais conhecidos estão o brotamento e a bipartição, observados principalmente em organismos mais simples. Já a partenogênese é encontrada com maior frequência em artrópodes, grupo que inclui abelhas, formigas e escorpiões.

Um fenômeno mais comum do que os cientistas imaginavam

Para o biólogo e ecólogo Chico Nery, de Brasília, a reprodução assexuada em animais é rara, mas provavelmente mais comum do que se acreditava há alguns anos.

A ciência já conhecia a ocorrência do fenômeno em grupos considerados mais simples, como poríferos, cnidários e platelmintos. Nos últimos anos, porém, casos inesperados passaram a chamar a atenção dos pesquisadores.

Entre os exemplos registrados estão filhotes de crocodilos, tubarões e dragões-de-komodo gerados sem fecundação. Um dos casos mais surpreendentes envolveu o condor-da-Califórnia, espécie na qual a partenogênese nunca havia sido observada.

Muitos desses registros ocorreram em zoológicos ou em situações nas quais as fêmeas estavam isoladas e sem contato com machos por longos períodos.

foto colorida de pássaro preto com bico laranja e pescoço alongado, chamado de Condor da Califórnia - Metrópoles.
Condor-da-Califórnia foi uma das espécies que surpreenderam cientistas ao registrar casos de partenogênese, com filhotes gerados sem fecundação

Como a partenogênese acontece

Nos vertebrados, a partenogênese costuma surgir justamente em cenários de isolamento reprodutivo. De acordo com Maciel, quando uma fêmea permanece muito tempo sem contato com machos, estruturas chamadas corpúsculos polares — pequenas células produzidas durante a formação dos óvulos — podem se fundir ao óvulo e restaurar o número normal de cromossomos.

A partir daí, o desenvolvimento embrionário pode ocorrer sem fecundação. Apesar de frequentemente ser associada à clonagem, a partenogênese nem sempre gera descendentes idênticos à mãe.

Nery explica que isso ocorre porque existem diferentes formas de partenogênese. Em muitos casos, os óvulos são produzidos por meiose, processo que gera variações genéticas.

Assim, cada descendente pode apresentar características próprias. Em outras situações, o mecanismo pode produzir indivíduos geneticamente muito semelhantes ao organismo original.

Vantagem em ambientes estáveis

A reprodução sexuada continua sendo a estratégia predominante entre os animais porque promove maior variabilidade genética, característica importante para enfrentar mudanças ambientais. Ainda assim, a reprodução assexuada pode representar uma vantagem em determinadas circunstâncias.

Ambientes estáveis favorecem a manutenção de indivíduos já bem adaptados. Como a reprodução assexuada permite que essas características sejam preservadas, a população pode crescer rapidamente sem depender do encontro entre parceiros. Além disso, o mecanismo funciona como uma alternativa quando a reprodução convencional não está disponível.

“Se só há fêmeas, não teria reprodução. Agora, se uma fêmea consegue se reproduzir por partenogênese, a população pode se manter e a espécie pode continuar existindo naquela condição de isolamento”, explica o pesquisador Nery.

A capacidade de produzir muitos descendentes em pouco tempo também pode favorecer a recuperação de populações pequenas ou submetidas a situações de estresse ecológico.

Nem sempre a estratégia garante sobrevivência

Embora apresente vantagens, a reprodução assexuada também possui limitações. A principal delas está relacionada à menor diversidade genética em comparação à reprodução sexuada.

Maciel ressalta que a sobrevivência de uma espécie não depende exclusivamente do tipo de reprodução utilizado, mas das condições ambientais às quais ela está submetida.

“Caso uma população seja formada por indivíduos geneticamente semelhantes e não exista pressão ambiental negativa, nada de problemático tende a acontecer. Porém, se surgir uma pressão negativa importante, pode haver até mesmo a extinção daquela população”, afirma.
Foto colorida de casal de dragão de komodo - Metrópoles.
Dragões-de-komodo estão entre os vertebrados que já apresentaram casos documentados de partenogênese

Mudanças climáticas, surgimento de doenças, escassez de recursos ou alterações bruscas no habitat são alguns exemplos de fatores que podem representar desafios para grupos com baixa diversidade genética.

O estudo da reprodução assexuada tem despertado interesse não apenas pela curiosidade biológica, mas também pelas aplicações que pode trazer para diferentes áreas da ciência.

Segundo Chico Nery, compreender como animais conseguem gerar descendentes sem fecundação ajuda pesquisadores a entender melhor processos relacionados à clonagem, conservação ambiental e adaptação das espécies.

Em programas de conservação, por exemplo, o conhecimento sobre a partenogênese pode contribuir para estratégias voltadas à recuperação de populações reduzidas.

Ao mesmo tempo, os cientistas precisam considerar os possíveis impactos da baixa variabilidade genética sobre a capacidade de adaptação dos animais no longo prazo.

As descobertas mais recentes citadas pelos pesquisadores indicam que a reprodução assexuada está longe de ser um fenômeno restrito aos organismos mais simples. Embora continue sendo uma exceção na maioria das espécies, ela revela a impressionante capacidade da natureza de desenvolver alternativas para garantir a continuidade da vida mesmo em condições adversas.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações