Lagartos americanos seguem estratégia parecida ao pedra-papel-tesoura
Cores, comportamento e genética se combinam em um jogo evolutivo que define qual lagarto se reproduz mais na natureza
atualizado
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O jogo de pedra-papel-tesoura não acontece apenas entre humanos. Na natureza, por meio da cor na garganta, um comportamento semelhante ajuda a regular a vida reprodutiva de um lagarto que vive em regiões áridas do oeste dos Estados Unidos.
A pesquisa, publicada na revista Science em 1°de janeiro, descreve pela primeira vez os mecanismos genéticos e comportamentais associados às diferentes estratégias dos lagartos-de-manchas-laterais.
Os achados, segundo os autores, ajudam a entender como comportamentos tão distintos conseguem se manter na população ao longo das gerações, sem que um deles se imponha de forma definitiva sobre os outros.
Três cores, três personalidades
Os lagartos-de-manchas-laterais são uma espécie em que os machos exibem cores diferentes na garganta durante o período reprodutivo. Essas cores não são apenas decorativas. Cada uma está associada a um tipo específico de comportamento.
- Machos de garganta laranja são mais agressivos, defendem territórios amplos e costumam controlar várias fêmeas.
- Os de garganta azul adotam uma postura mais cooperativa, protegem áreas menores e mantêm relações estáveis com poucas parceiras.
- Já os machos amarelos não defendem território e tentam se reproduzir de forma furtiva, aproveitando brechas deixadas pelos rivais.
A dinâmica cria um ciclo curioso. Os laranjas costumam dominar os azuis, os azuis conseguem afastar os amarelos, e os amarelos, por sua vez, levam vantagem sobre os laranjas ao se infiltrar em seus territórios extensos. O resultado é uma alternância natural entre as três estratégias ao longo do tempo.

Pesquisa antiga
A relação entre cor e comportamento começou a ser estudada ainda nos anos 1990, mas só agora os cientistas conseguiram identificar a base genética do fenômeno.
Para isso, os pesquisadores passaram anos coletando dados diretamente na natureza, já que os lagartos não desenvolvem as cores características quando criados em cativeiro.
A análise dos genomas mostrou que uma pequena variação genética é suficiente para diferenciar os machos laranja dos azuis. A cor laranja aparece apenas quando o animal herda duas cópias dessa variante. Caso contrário, o papo se torna azul.
A mudança está ligada à produção reduzida de uma proteína envolvida tanto na pigmentação quanto em processos ligados à comunicação entre neurônios. A descoberta sugere que uma única alteração genética pode influenciar simultaneamente a aparência e o comportamento do animal.
Quando o ambiente também importa
O caso dos machos amarelos trouxe uma surpresa. Do ponto de vista genético, eles são praticamente idênticos aos azuis, o que indica que fatores sociais e ambientais também têm peso na definição da estratégia adotada por cada indivíduo.
Os pesquisadores levantam a hipótese de que a coloração amarela esteja associada a condições específicas do ambiente ou à incapacidade de estabelecer território. Nesse cenário, genética e flexibilidade comportamental atuariam juntas para moldar o comportamento.
Esse conjunto de evidências reforça uma ideia central da biologia evolutiva. A diversidade dentro de uma espécie não depende apenas dos genes, mas também da forma como os indivíduos respondem ao ambiente e às interações sociais.
