Fantasma: macaco-prego sem cor é encontrado pela 1ª vez no Ceará. Veja vídeo
Apelidado de Fantasma pelos pesquisadores, macaco encontrado no Ceará marca o primeiro caso de leucismo em primatas já identificado

Em expedições realizadas em uma unidade de conservação no Ceará, pesquisadores brasileiros encontraram pela primeira vez um macaco com leucismo, uma doença congênita que causa a perda parcial ou total na pelagem do animal, mas que mantém a cor escura dos olhos. O achado ocorreu no Parque Nacional de Ubajara, localizado na região da Serra da Ibiapaba.
O animal, apelidado de “Fantasma”, é um filhote de uma espécie de macaco-prego, a Sapajus libidinosus, que apresenta variação de cor entre marrom-escura até amarelo-dourada clara, com extremidades pretas. A detecção de perda de melanina é considerada rara em primatas.
Casos de albinismo já foram encontrados anteriormente em outras espécies de macaco-prego, mas o quadro de leucismo nunca. A grande diferença entre os dois tem relação com a produção de melanina e cor dos olhos. Enquanto a primeira condição causa ausência total de melanina e olhos vermelhos ou rosados, a outra resulta uma perda parcial ou total, mas mantém a cor natural dos olhos.
O trabalho liderado pelo primatólogo Tiago Falótico, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, foi realizado em parceria com a pesquisadora Tatiane Valença, da Universidade de São Paulo (USP). Ambos fazem parte da Neotropical Primates Research Group (NeoPReGo), uma associação brasileira de apoio à pesquisa.
Os resultados da descoberta estão disponíveis na revista científica Primates desde 8 de fevereiro.
Hipóteses por trás do leucismo no macaco
Fantasma foi visto duas vezes pelos pesquisadores no intervalo de um mês. Apesar do leucismo, ele apresentava todas as características esperadas para um filhote de três meses. Os especialistas especulam que a condição pode ter sido influenciada por diferentes fatores, como poluição, mudanças ecológicas, alterações na alimentação padrão dos animais ou genética.
Apesar da especulação de influência ambiental, os cientistas acreditam que o fator genético tenha sido o mais preponderante para a ocorrência do caso.
“Se fosse alguma coisa mais ambiental, de poluição e de alimentação, veriamos muito mais casos de leucismo espalhados nos grupos. Não temos a análise genética desse indivíduo, em particular, mas podemos verificar se existe algum gene conhecido de leucismo rodando na população e que não está ativo. O mais provável é que seja uma mutação nova”, aponta Falótico em entrevista ao Jornal da USP.
O fator genético é hipótese mais forte devido também a outro achado dos pesquisadores: revisões de bancos de dados antigos do parque mostraram registros de um macho adulto chamado “Jenipapo” com uma mancha branca sutil na cabeça. A questão é que ele não é pai de Fantasma, o que abre ainda mais o leque para especulações.
“O Jenipapo é de outro grupo, e provavelmente é o macho alfa de lá. O mais fofo do grupo do macaquinho branco é o Zeca, provavelmente o pai dele. Tem outra característica que a gente não colocou [no artigo], mas, além da cabeça, o Jenipapo tem uma descoloração nos testículos”, revela Tatiane.
Monitoramento a longo prazo
Caso o fator genético realmente tenha influenciado, o mais provável é que o leucismo tenha ocorrido devido ao cruzamento entre uma população de macacos-pregos pequena. Com menos membros, aumentam as chances de indivíduos aparentados se relacionarem, diminuir a diversidade genética e genes raros aparecerem nos filhotes.
Além de estudar Fantasma e confirmar a causa de seu leucismo, os cientistas continuarão monitorando a população do parque a longo prazo a fim de detectar novos casos e, se precisar, adotar medidas para aumentar a diversidade genética dos primatas.


