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Estudo revela macaco capaz de lidar com objetos imaginários
Pesquisa liderada por cientista brasileira mostra que o bonobo Kanzi compreendia situações de faz de conta
atualizado
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Um estudo liderado pela cientista brasileira Amália Bastos revelou que o macaco bonobo Kanzi, considerado o símio mais inteligente da história, era capaz de raciocinar sobre objetos inexistentes. A descoberta desafia a ideia de que a habilidade de lidar com situações imaginárias é exclusiva dos humanos e amplia o debate sobre a evolução da cognição.
Entenda
- Pesquisa foi publicada na revista científica Science
- Experimento mostrou compreensão de situações de faz de conta
- Capacidade era considerada exclusiva dos humanos
- Achado ajuda a repensar a evolução cognitiva dos primatas
A pesquisa foi conduzida pela bióloga Amália Bastos, da Universidade de St. Andrews, na Escócia, em parceria com o cientista Christopher Krupenye. Os resultados foram publicados nesta semana na revista Science, uma das mais prestigiadas do mundo científico.
O estudo foi realizado com o macaco bonobo Kanzi, primata que se tornou referência mundial em pesquisas sobre cognição animal. Poucos meses antes de sua morte, em março de 2025, aos 44 anos, Kanzi participou de um experimento que indicou sua capacidade de abstração — ou seja, de imaginar objetos ausentes a partir de uma simulação.
A brincadeira que virou evidência científica
O experimento foi estruturado em três etapas e simulava uma situação comum em brincadeiras infantis. Os pesquisadores usavam dois copos vazios e uma jarra também vazia, fingindo despejar suco em apenas um dos recipientes. Em seguida, “derramavam” o conteúdo imaginário de um dos copos e perguntavam a Kanzi qual ainda continha o suco de mentirinha.
De forma consistente, o bonobo apontava corretamente para o copo “cheio”, demonstrando que compreendia a lógica da simulação.
“Ele entendia que o suco não estava fisicamente ali, mas acompanhava mentalmente a situação imaginada”, explica Amália Bastos.
Um símio fora do comum
O macaco Kanzi viveu toda a vida em centros de conservação e pesquisa nos Estados Unidos, nos estados da Geórgia e de Iowa. Considerado um macaco “enculturado”, ele aprendeu a se comunicar com humanos por meio de mais de 300 símbolos visuais e compreendia cerca de 3.000 palavras faladas.
Embora suas habilidades cognitivas já tenham sido analisadas em dezenas de estudos, este foi o primeiro a demonstrar de forma convincente sua capacidade de imaginar um objeto ausente, algo central para o pensamento abstrato.
Convencendo os céticos
Cientes do rigor da comunidade científica, os pesquisadores realizaram testes adicionais para descartar explicações alternativas. Em um deles, o macaco precisou escolher entre um copo com suco real e outro vazio — optando sempre pelo copo cheio, o que indicou que ele distinguia claramente o que era real do que era imaginário.
Em outro teste, os copos foram substituídos por potes com uvas, e o bonobo demonstrou a mesma capacidade de abstração.
“Isso mostra que não se tratava de um truque específico, mas de uma habilidade flexível, aplicada em diferentes contextos”, afirma Bastos.

O papel da linguagem na imaginação
Uma das questões que permanecem em aberto é se a capacidade demonstrada por Kanzi dependeu de seu treinamento em linguagem simbólica. Parte dos especialistas defende que a abstração só é possível com linguagem estruturada, enquanto outros acreditam que essa habilidade já exista de forma inata em primatas.
Para Amália Bastos, a segunda hipótese é plausível. Ela cita registros de chimpanzés selvagens que carregam galhos como se fossem filhotes, em comportamentos semelhantes a brincadeiras de faz de conta.
“Talvez os animais estejam mais próximos de nós do que imaginávamos”, conclui a cientista. “Cada nova descoberta derruba mais uma fronteira que acreditávamos ser exclusivamente humana.”
