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Ciência

IBGE reconhece montanhas e transforma a leitura do relevo brasileiro

Nova classificação define critérios e inclui formações montanhosas em 14 estados, com base em relevo, altitude e características geográficas

25/08/2026 02:00
Gabriel Sperandio/Getty Images
Serra do Mar no estado do Paraná. A vegetação faz parte das Reservas da Mata Atlântica do Sudeste, Patrimônio Mundial da UNESCO. Montanha. Metrópoles

Durante anos, a ideia de que o Brasil não tem montanhas foi repetida em salas de aula e materiais didáticos. O relevo do país era apresentado como formado apenas por planaltos, planícies e depressões. Uma nova classificação, porém, muda esse entendimento e reconhece oficialmente a existência de montanhas em território brasileiro.

A atualização foi conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em conjunto com o Sistema Brasileiro de Classificação do Relevo (SBCR). O trabalho estabelece critérios técnicos mais definidos e deve resultar em um novo mapa morfológico do país, com cinco categorias principais de relevo, incluindo as montanhas.

De acordo com o engenheiro geólogo Fernando Alkmim, professor da Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), a definição vai além da altitude isolada.

“Montanhas são formas de relevo com elevação mínima de 300 metros em relação às áreas ao redor, com topos agudos, encostas íngremes e continuidade espacial. Não podem ser formas isoladas”, explica.

Esse tipo de formação sempre existiu no Brasil, mas nem sempre foi classificada dessa forma. Ao longo de milhões de anos, o relevo passou por processos intensos de desgaste, o que reduziu a altura das estruturas originais.

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“As montanhas brasileiras são antigas e foram sendo erodidas pela ação da água, do vento e por alterações químicas e físicas das rochas”, afirma Alkmim, que é membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

O IBGE informou ao Metrópoles que os dados completos e o novo mapa devem ser divulgados no fim de setembro, acompanhados de uma nota metodológica que detalha os critérios adotados.

Onde estão as montanhas

Mesmo sem o novo mapa oficial já publicado, especialistas apontam que essas formações são visíveis em diferentes regiões do país. Cadeias como a Serra do Mar, que se estende pelo litoral do Sudeste e Sul, e a Serra do Espinhaço, que atravessa Minas Gerais e Bahia, são exemplos citados.

Também entram nessa classificação áreas mais elevadas do Norte, como a região do Pico da Neblina, no Amazonas, ponto mais alto do Brasil. “Basta olhar um mapa do país para perceber essas formações”, diz o professor Geraldo Fernandes, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e também membro da ABC.

Do ponto de vista científico, ele reforça que o critério de altitude relativa já seria suficiente para enquadrar muitas dessas áreas como montanhas. “Se adotarmos o parâmetro de 300 metros em relação à base, o Brasil possui muitas montanhas, embora nem todas estejam claramente mapeadas de forma integrada”, destaca.

Montanhas antigas e mais baixas

Uma das razões para o relevo brasileiro ser menos acidentado do que o de outros países está na idade dessas formações. Enquanto cadeias como os Andes são geologicamente mais jovens, as serras brasileiras têm centenas de milhões de anos a mais.

Com o passar do tempo, a erosão atua continuamente sobre essas estruturas, reduzindo sua altitude. “O que vemos hoje pode ser entendido como o esqueleto de montanhas que já foram muito mais altas”, explica Fernandes.

Alkmim acrescenta que o Brasil está localizado em uma região geologicamente estável, sem atividade tectônica significativa recente. Diferente dos Andes, onde ainda há elevação do terreno, no território brasileiro predomina o desgaste ao longo do tempo.

Impacto da nova classificação

A adoção de critérios mais objetivos tende a facilitar a análise do relevo e reduzir ambiguidades. “A classificação ajuda porque estabelece parâmetros claros”, afirma Alkmim.

Ao mesmo tempo, a mudança pode gerar dúvidas iniciais fora do meio acadêmico. Para Fernandes, o debate ainda precisa avançar entre pesquisadores e instituições.

“É importante construir uma definição mais consensual, que ajude tanto na compreensão quanto na formulação de políticas públicas”, pontua.

Isso se torna ainda mais importante porque áreas de montanha são sensíveis às mudanças climáticas e desempenham papel importante na distribuição da biodiversidade. Sem uma definição clara, a proteção desses ambientes pode ficar comprometida.