Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Ciência

Sinurbização: animais silvestres se adaptaram à vida nas cidades

A adaptação de animais dos mais variados tipos a ambientes urbanos se chama sinurbização e depende da capacidade transformação do bicho

28/06/2026 02:00
Compartilhar notícia
Unsplash
Imagem colorida mostra rato pegando comida na cidade - Metrópoles

Apesar de não ser o lar natural deles, é cada vez mais comum encontrar animais silvestres frequentando ambientes urbanos. Em alguns lugares do Brasil, a infestação de ratos, morcegos, saruês e outros bichos tem se tornado rotineira. Além disso, a presença de aves que antes eram raras, como araras e tucanos, também cresce em meio à “selva de pedra”.

A adaptação de animais dos mais variados tipos se chama sinurbização e é explicada através da plasticidade fenotípica, ou seja, a capacidade do organismo mudar de morfologia, fisiologia e ou até comportamento em resposta a estímulos ou alterações do ambiente – quanto mais facilidade em se “transformar” o bicho tiver, mais facilmente ele conseguir viver nas cidades.

Segunda a bióloga e ecóloga Morgana Bruno, os bichos generalistas (quatis, gambás, lagartos, ratos e pombos) são os que mais têm capacidade de se habituar a ambientes urbanos.

“Os generalistas possuem uma dieta mais flexível, maior facilidade para ocupar diferentes habitats e colonizam as cidades com muito mais sucesso do que as espécies especialistas – aquelas que possuem nichos ecológicos restritos”, explica a professora da Universidade Católica de Brasília (UCB).

Morgana ainda afirma que os animais que “optam” por migrar para às cidades devem ter aptidão cognitiva elevada e ter comportamento maleável para sobreviver e conseguir se alimentar.

“Características biológicas como tamanhos corporais reduzidos e altas taxas reprodutivas aceleram a resposta evolutiva às pressões urbanas, enquanto uma boa capacidade de dispersão aérea ou terrestre facilita a movimentação entre os fragmentos de vegetação remanescentes nas cidades”, acrescenta a professora.

A bióloga Milena Bressan, da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), em São Paulo, afirma que a presença dos animais nos centros urbanos tem relação direta com a expansão urbana e a diminuição de áreas naturais.

“As espécies mais adaptáveis se aproximam de parques, áreas públicas e residências em busca de recursos para sobreviver”, diz a chefe do Departamento de Fauna In Situ e Ex Situ da Semil.

Os riscos da presença de animais silvestres nas cidades

Como é de se imaginar, a saída dos animais silvestres de seus ambientes naturais tem consequências que, muitas vezes, são negativas. A principal tem relação com as mudanças de comportamento.

Espécies que fazem vocalizações aumentam o som para competir com o ruído do trânsito, por exemplo. Outros, devido à abundância de alimentos, podem perder o medo de predadores e humanos, se tornando mais sociáveis, mas, ao mesmo tempo, mais vulneráveis.

“Embora sejam fundamentais para a sobrevivência imediata do animal, as mudanças geram graves consequências a longo prazo. O aumento de atropelamentos e conflitos, o surgimento de distúrbios metabólicos devido ao consumo de alimentos processados e uma potencial redução no sucesso reprodutivo decorrente do maior gasto energético adaptativo preocupam”, ressalta Morgana.

Além disso, a presença dos bichos silvestres pode elevar o risco de transmissão de doenças e conflitos por alimento, abrigo e predação com animais domésticos.

“É por isso que a educação ambiental é fundamental para orientar a população sobre práticas como não alimentar animais silvestres, vedar acessos a abrigos em residências e evitar interações diretas”, alerta a representante da Semil.

É possível evitar a migração animal para cidades?

Para evitar que cada vez mais animais cheguem às cidades, é preciso realizar ações em diferentes frentes, seja no ambiente natural dos bichos, quanto nas cidades. Entre as principais medidas, recomenda-se:

  • Conservar e recuperar habitats naturais;
  • Construir mais corredores ecológicos, a fim de interligar regiões florestais isoladas e promover o fluxo gênico, criando refúgio para os animais sem que eles tenham que ir para as cidades;
    • Criar programas de incentivos fiscais para que proprietários rurais conservem e recuperem áreas degradadas ou de preservação, o que pode evitar a migração dos animais.