Fogos em dias de jogos colocam em risco a vida de animais silvestres
As poluições sonora e luminosa provocam desorientação, abandono de ninhos e mortes por estresse extremo na fauna urbana

As comemorações com fogos de artifício e buzinas em dias de grandes jogos trazem um perigo invisível e grave para os animais silvestres que habitam as cidades. Ao contrário de cães e gatos, que na maioria das vezes estão protegidos dentro de casa, espécies como aves, saguis, saruês e morcegos ficam totalmente expostas e são pegas de surpresa pelo barulho.
Como a maioria das espécies silvestres tem a audição mais sensível e desenvolvida, o ruído intenso é percebido como uma ameaça direta, gerando pânico, estresse agudo, desorientação e graves alterações de comportamento.
Grande parte dos jogos decisivos ocorre no período noturno e o relógio biológico desses animais sofre um impacto profundo. Eles regulam suas atividades por um ciclo que controla funções como o estado de sono e de alerta. As explosões em massa durante a noite quebram esse ciclo, forçando espécies de hábitos predominantemente diurnos, como a maioria das aves, a decolarem em fugas por longas distâncias, o que resulta em fadiga extrema e desorientação espacial.
Tomados pelo estresse agudo, os animais ficam altamente suscetíveis a acidentes graves, como o impacto com janelas, fiação de alta tensão, prédios e até com veículos. A médica veterinária Laura Vilela alerta que o perigo pode ser fatal antes mesmo de qualquer impacto: “Em situações extremas, eles podem entrar em estado de choque e evoluir para óbito em decorrência do estresse”. Espécies consideradas presas são mais vulneráveis a esse colapso fulminante do que os predadores.
O abandono de filhotes e os perigos da fumaça química
O estresse sonoro provocado pelos fogos tem um efeito devastador na reprodução e na sobrevivência das espécies urbanas. Ao voarem para longe na tentativa de escapar dos estampidos, as aves e pequenos mamíferos abandonam seus ninhos temporária ou definitivamente devido ao alvoroço.
Nesses picos de barulho o animal costuma se mover de forma desorientada, causando distanciamento do local de origem. Como consequência, ovos e filhotes em fase de crescimento ficam totalmente expostos à ação direta de predadores e outros possíveis perigos, como a falta de alimentação.

O impacto da queima de fogos de artifício se estende muito além do barulho, combinando fumaça química, odores fortes e flashes intensos de luz. Laura explica que “os fogos de artifício podem afetar a fauna por meio da liberação de fumaça e gases potencialmente tóxicos, capazes de provocar irritação das vias respiratórias”.
Os estímulos luminosos também podem impactar o animal, fazendo com que ele se sinta em situação de risco. Essa quebra na rotina sabota o bem-estar e altera as dinâmicas naturais até mesmo de animais mantidos em cativeiro, como em zoológicos ou centros de reabilitação.
Alternativas de redução de danos e o protocolo correto de resgate
Para minimizar o sofrimento animal nas áreas próximas a praças, parques e zonas verdes, a substituição de rojões tradicionais por fogos de efeito visual (sem estampido) surge como uma alternativa. Contudo, a veterinária alerta que essa medida não representa risco zero para os animais, uma vez que a poluição luminosa continua afetando o comportamento das espécies.
Em espaços controlados, como zoológicos, os profissionais preparam os recintos em dias de finais de campeonato adicionando tocas e pontos de fuga para que os animais cativos se protejam, adaptando o manejo de acordo com a biologia de cada indivíduo.
Saiba o que fazer em caso de acidente
Se encontrar uma ave caída no quintal, um filhote de saruê ou qualquer outro animal silvestre ferido ou atordoado, o morador jamais deve tentar fazer o manejo por conta própria. O protocolo correto exige acionar imediatamente órgãos competentes, como a Polícia Militar Ambiental, para que o resgate seja feito de forma segura.
Compartilhar o espaço urbano com espécies silvestres exige empatia na hora de torcer. Esses animais cumprem papéis ecológicos vitais nas cidades, atuando diretamente no controle de pragas e na dispersão de sementes em matas remanescentes. É perfeitamente possível torcer e se divertir durante as grandes competições sem converter a comemoração em uma ameaça fatal para a biodiversidade vizinha.




